Experimentar para informar a tomada de decisão

Por Joana Pais, Professora do ISEG, Universidade de Lisboa, e coordenadora do XLAB-Behavioural Research Lab

As orientações das autoridades de saúde relativamente à utilização da máscara sofreram grandes variações desde o início da pandemia. Na verdade, pouco se sabia sobre a forma como o SARS-CoV-2 se transmitia e sobre a eficácia da utilização de máscaras. À medida que a ciência foi dando algumas respostas, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e as autoridades de saúde de vários países foram convergindo, com algumas nuances, na recomendação da utilização de máscaras sociais ou cirúrgicas, em muitos casos com caráter obrigatório. De fato, mostrou-se, em ambiente laboratorial, que as máscaras são eficazes na redução da carga viral exalada e, portanto, reduzem a propagação do vírus. Permaneceu, no entanto, a dúvida sobre a sua real eficácia, ou seja, até que ponto a menor probabilidade de transmissão persistiria quando as máscaras são usadas, nem sempre de forma correta, no dia-a-dia de uma comunidade.

Um estudo recentemente publicado pelos economistas Abaluk e Mobarak avalia o impacto da utilização de máscara nas taxas de infeção por SARS-CoV-2. O estudo foi feito no Bangladesh, onde, apesar de obrigatória, a utilização de máscara era reduzida e envolveu mais de 340 000 pessoas distribuídas por dois grupos de 300 aldeias. Um destes grupos foi sujeito a um conjunto de intervenções destinado a aumentar a utilização de máscara durante um período de oito semanas, com o objetivo principal de avaliar o seu impacto. O segundo grupo não sofreu nenhuma intervenção e serviu de termo de comparação, tendo sido criteriosamente escolhido quanto a número de casos registados de COVID-19, número de habitantes e densidade populacional.

O conjunto de intervenções incluía como elementos principais a distribuição porta-a-porta e em locais públicos-chave de máscaras gratuitas (sociais ou cirúrgicas, dependendo da aldeia), a disponibilização de informação sobre a sua utilização através de brochuras e de um vídeo no qual participaram várias figuras públicas do Bangladesh, bem como o reforço das recomendações em espaços públicos e em cerimónias religiosas através da leitura por líderes religiosos de um discurso preparado pela equipa de investigação.

No geral, o conjunto de intervenções levou 29 em cada 100 pessoas a usar máscara, aumentando a utilização de máscara de 13 pontos percentuais nas aldeias do grupo de controlo para 42 pontos percentuais nas aldeias que foram alvo da intervenção. Curiosamente, as preocupações de que o uso de máscara proporcionaria uma falsa sensação de segurança e promoveria comportamentos de risco revelaram-se infundadas, já que a intervenção aumentou o distanciamento físico. O impacto final no número de casos foi também significativo: a intervenção reduziu o número de pessoas com infecções sintomáticas por SARS-CoV-2 em 9 pontos percentuais. As máscaras cirúrgicas foram especialmente eficazes em faixas etárias acima dos 50 anos de idade. Nestes casos, o impacto foi o de uma redução das infecções sintomáticas por SARS-CoV-2 em 23 pontos percentuais em pessoas com idades entre os 50 e 60 anos e 35 pontos percentuais em pessoas com 60 ou mais anos.

Perante os resultados desta experiência de campo, o conjunto de intervenções para a utilização de máscara foi aplicado em larga escala em todo o Bangladesh, bem como noutros países onde a administração em massa de vacinas ainda tarda, como a Índia, o Nepal e o Paquistão. Em cada caso, a iniciativa resulta de um esforço combinado de várias organizações e de Governos, que decidiram usar os serviços de uma equipa de investigadores para informar a tomada de decisão. Um bom exemplo para quem quer fazer mais e melhor.

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