A Alemanha, a Polónia e a República Checa alertaram recentemente a Ucrânia para a necessidade de travar o fluxo de refugiados que atravessa as fronteiras em direção à Europa. Estes três países têm recebido o maior número de cidadãos ucranianos desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, e consideram que a situação atingiu um ponto crítico.
Em novembro último, o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, pediu ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que impedisse o êxodo crescente de jovens. “Pedi ao presidente ucraniano que garantisse que os jovens da Ucrânia não chegam à Alemanha em números cada vez maiores. São necessários no seu próprio país”, afirmou Merz.
A Comissão Europeia confirmou, em dezembro, que os pedidos de refúgio de ucranianos dispararam este outono, atingindo níveis não registados desde 2023. O aumento deve-se, em parte, a um decreto de Zelensky, que entrou em vigor em agosto e autorizou homens entre 18 e 22 anos a sair do país, inicialmente proibidos devido à lei marcial. Embora o objetivo fosse permitir o acesso ao ensino superior no estrangeiro, muitos jovens têm utilizado a oportunidade para evitar o alistamento militar.
Fluxo de refugiados e impacto demográfico
A Alemanha tornou-se o destino preferido, graças ao apoio oferecido aos deslocados, com o número de homens ucranianos a aumentar dez vezes desde agosto. Berlim acolheu até hoje cerca de 1,2 milhões de refugiados ucranianos, enquanto a Polónia recebeu quase 1,6 milhões, incluindo a população pré-guerra. A República Checa acolheu cerca de 400 mil ucranianos, mas registou um aumento significativo de chegadas desde o verão, levando o Governo a limitar os subsídios concedidos aos migrantes.
A situação demográfica da Ucrânia é descrita como catastrófica. Desde 2022, o país perdeu mais de nove milhões de habitantes, cerca de 21% da população, segundo o Fundo Monetário Internacional, que estima atualmente 32 milhões de residentes. O êxodo de jovens, mães e filhos agrava o risco de um défice populacional a longo prazo e dificulta a reconstrução pós-guerra.
Histórias de fuga e integração
Benjamin, dentista de 30 anos, atravessou ilegalmente a fronteira para a Roménia e seguiu para a Alemanha, atraído pela procura de profissionais da área médica e pelo apoio social disponível. Outros jovens, como Viacheslav, de 22 anos, planeiam deixar a Ucrânia antes de completar 23 anos, temendo ser mobilizados para o serviço militar.
O êxodo tem impacto direto no mercado de trabalho. Um inquérito do portal Robota UA revelou que 71% das empresas ucranianas registaram a saída significativa de trabalhadores com menos de 23 anos. Mais de 150 mil homens atravessaram a fronteira com a Polónia desde setembro, segundo estimativas baseadas em dados do Ministério do Interior polaco.
Perspetivas de regresso e futuro da Ucrânia
Segundo o Instituto Mikhailo Putuja de Estudos Demográficos, apenas 30% dos expatriados deverão regressar ao país, contra 60% projetados em 2022. O centro Gradus, no entanto, indica que 64% dos que vivem no estrangeiro desejam regressar, embora muitos priorizem a qualidade de vida e a segurança. Especialistas alertam que quanto mais tempo as crianças permanecerem a estudar no estrangeiro, mais difícil será o regresso das famílias.
Com a lei marcial ainda em vigor, prevê-se que, após o seu levantamento, centenas de milhares de homens tentem deixar o país, o que poderá intensificar ainda mais o êxodo e dificultar a recuperação da Ucrânia.












