As Forças Armadas dos Estados Unidos começaram a desativar identificadores utilizados para rastrear dispositivos móveis e computadores militares, numa tentativa de reduzir o risco de que dados de localização comercialmente disponíveis possam ser utilizados para localizar e atingir militares norte-americanos destacados no Médio Oriente. A decisão surge depois de vários relatos sobre a utilização de dados recolhidos pela indústria publicitária para identificar a localização de forças dos EUA na região.
A Força Aérea norte-americana informou o senador democrata Ron Wyden de que desativou os chamados identificadores de publicidade em computadores e telemóveis há cerca de dois meses. O Comando de Operações Especiais dos EUA (USSOCOM) indicou, numa carta separada, que também desativou recentemente esses identificadores nos seus dispositivos Windows. O Exército revelou à Reuters que os identificadores de publicidade associados a dispositivos móveis foram desativados no início deste ano.
A revelação surge depois de informações que apontaram para a utilização de dados de localização disponíveis no mercado para atingir militares norte-americanos no Médio Oriente. O caso está a aumentar a preocupação em Washington relativamente ao mercado de dados pessoais, no qual empresas especializadas, conhecidas como corretores de dados, recolhem, agregam e revendem informações sobre utilizadores e dispositivos.
Dados vendidos pela indústria publicitária levantam preocupações de segurança
Os identificadores de publicidade móvel, conhecidos pela sigla MAID, são códigos únicos associados a determinados dispositivos. Estes identificadores permitem acompanhar a atividade de um equipamento através de diferentes aplicações e podem contribuir para determinar a localização física do utilizador.
O problema identificado pelas autoridades norte-americanas prende-se precisamente com a possibilidade de esses dados saírem do contexto comercial para o qual foram inicialmente recolhidos. Informações obtidas através de aplicações e sistemas de publicidade podem ser agregadas por empresas especializadas e posteriormente vendidas a terceiros, incluindo através de mercados de dados comerciais.
Ron Wyden tem pressionado o Pentágono há vários meses para obter respostas sobre esta questão. O senador considera que as medidas adotadas até agora pelas Forças Armadas não são suficientes para eliminar a ameaça. Numa declaração, Wyden afirmou que é evidente que os esforços do Exército norte-americano “não foram eficazes na neutralização desta ameaça”.
Também o deputado republicano Pat Harrigan, da Carolina do Norte, pediu explicações ao Departamento da Defesa. Para Harrigan, não deveria ser possível a adversários dos Estados Unidos obterem informações capazes de revelar a localização de militares simplesmente através da aquisição comercial de dados. “Os inimigos dos EUA não deveriam poder pegar num cartão de crédito e comprar informação que os ajude a localizar as tropas americanas”, afirmou.
Wyden e Harrigan enviaram esta sexta-feira uma carta ao Pentágono a solicitar uma investigação para determinar se as Forças Armadas adotaram medidas adequadas para combater os riscos associados ao comércio de dados de localização. O documento inclui as respostas das diferentes componentes militares relativamente à desativação dos identificadores de publicidade.
O Pentágono indicou, por email, que responderá diretamente aos dois congressistas.
Exército começou a bloquear identificadores em diferentes momentos
Embora os diferentes ramos das Forças Armadas tenham confirmado a adoção de medidas, as respostas mostram que a desativação dos identificadores não ocorreu simultaneamente em todos os dispositivos.
O Exército norte-americano informou que os identificadores de publicidade em computadores Windows já estavam bloqueados “desde antes de 2021”. No caso dos equipamentos móveis Android e Apple, porém, a desativação por defeito só ocorreu “desde pelo menos fevereiro de 2026”.
A Marinha também comunicou a Wyden que desativou os identificadores de publicidade nos seus dispositivos militares, embora não tenha indicado quando foram impostas essas restrições. A Reuters procurou obter mais esclarecimentos junto da Marinha, mas não recebeu resposta.
A Força Aérea e o Comando de Operações Especiais recusaram prestar comentários adicionais além das informações transmitidas ao senador.
A decisão de reduzir a quantidade de dados de localização produzidos pelos dispositivos militares surge num contexto de crescente preocupação dentro das Forças Armadas norte-americanas relativamente à utilização de telemóveis por militares destacados em zonas de conflito.
Telemóveis dos militares também estão sob maior escrutínio
Em julho, a Reuters revelou que alguns militares norte-americanos destacados no Médio Oriente poderiam ser obrigados a entregar os seus telemóveis devido a preocupações relacionadas com vídeos publicados na internet. Segundo essas informações, as imagens divulgadas pelos próprios militares poderiam fornecer pistas que ajudassem o Irão a localizar bases norte-americanas na região.
A preocupação atual com os identificadores de publicidade acrescenta uma dimensão diferente ao problema. Mesmo quando um militar não publica voluntariamente a sua localização, os dados produzidos por aplicações e sistemas de publicidade podem permitir reconstruir padrões de deslocação ou determinar a posição aproximada de um dispositivo.
Zach Edwards, cofundador da empresa de tecnologia publicitária focada em privacidade Decryptads, considerou positiva a decisão das Forças Armadas de desativar os MAID nos dispositivos sob controlo militar. Segundo Edwards, estas medidas “são definitivamente uma coisa positiva”.
O especialista explicou que a desativação deverá impedir que a localização desses equipamentos seja incluída nas vendas de grandes volumes de dados realizadas por numerosos fornecedores. Ainda assim, alertou que isso não elimina todas as possibilidades de rastreamento.
Segundo Edwards, os militares podem continuar a ser localizados através de métodos mais complexos, incluindo a combinação de características técnicas dos dispositivos com dados de rede ou outras informações de localização. Ou seja, bloquear os identificadores de publicidade reduz uma das fontes de exposição, mas não constitui uma garantia absoluta de anonimato ou de impossibilidade de localização.
Congresso quer saber se as medidas são suficientes
A investigação pedida por Ron Wyden e Pat Harrigan pretende determinar se o Pentágono e os diferentes ramos das Forças Armadas fizeram o suficiente para responder aos riscos criados pelo mercado comercial de dados de localização.
O caso coloca em causa uma característica central do atual ecossistema digital: informações recolhidas para fins de publicidade e personalização de serviços podem adquirir uma importância muito diferente quando dizem respeito a pessoas que operam em zonas de guerra. Dados que podem parecer pouco relevantes individualmente podem tornar-se sensíveis quando são agregados e analisados para determinar movimentos, rotinas e localizações.
Para as Forças Armadas dos EUA, a questão assume particular importância no Médio Oriente, onde as tropas norte-americanas estão expostas a ameaças que podem explorar informação digital para identificar instalações e movimentos militares.
A desativação dos MAID representa, por isso, uma tentativa de limitar uma das formas através das quais os dispositivos podem deixar um rasto digital. No entanto, as próprias respostas dos diferentes ramos militares e os alertas dos especialistas mostram que o problema é mais abrangente e que o simples bloqueio dos identificadores de publicidade não impede necessariamente todas as formas de localização.
A pressão política deverá agora aumentar sobre o Pentágono para esclarecer que outras medidas estão a ser adotadas e se os procedimentos atualmente em vigor conseguem efetivamente impedir que informação comercialmente disponível seja utilizada contra militares norte-americanos destacados no exterior.














