Exames nacionais: sócia da empresa do sistema digital foi assessora de Carlos Moedas

A identificação da empresa surgiu depois de vários dias de indefinição sobre quem estava envolvido no tratamento do sistema que tem estado no centro das críticas de professores, alunos e partidos da oposição.

Executive Digest

A polémica em torno da correção digital dos exames nacionais ganhou um novo dado político. A empresa associada ao sistema usado no processo, a BLAT – Creative Powerhouse Lda., tem entre as suas sócias Inês Catarino, antiga assessora de Carlos Moedas na Câmara Municipal de Lisboa e ligada à campanha autárquica do presidente da autarquia em 2025.

De acordo com a Sábado, a identificação da empresa surgiu depois de vários dias de indefinição sobre quem estava envolvido no tratamento do sistema que tem estado no centro das críticas de professores, alunos e partidos da oposição. A correção dos exames do 11.º e 12.º anos passou este ano a ser feita digitalmente, embora as provas tenham sido realizadas em papel.

Da comunicação digital aos exames nacionais

A BLAT apresenta-se publicamente como uma agência de marketing digital. Na página da empresa, segundo a Sábado, não surgem referências a experiência específica em tratamento informático de exames, plataformas de avaliação escolar ou sistemas de classificação de provas.

O conteúdo disponível no site da agência está sobretudo ligado a redes sociais e estratégia digital, com textos sobre publicações no Instagram e tendências de social media. Ainda assim, a empresa foi contratada em 2023 pelo Instituto de Avaliação Educativa para atualizar o Sistema de Classificação Online do IAVE, num contrato com duração de cinco meses, celebrado quando a empresa usava outra designação.

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No âmbito do PRR, a BLAT surge também como fornecedora com contratos acima dos 30 mil euros. Desse total, 19 mil euros dizem respeito a projetos relacionados com a Transição Digital na Educação, através do ajuste direto feito em 2023 com o IAVE.

Sócia recebeu louvor de Moedas

Inês Catarino entrou na sociedade da BLAT em novembro de 2022, juntamente com Inês Fernandes. A antiga assessora surgia associada à empresa como responsável pela área de redes sociais, embora essa ligação já não esteja disponível a partir da página principal da agência.

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Antes da ligação conhecida à empresa, Inês Catarino tinha trabalhado com Carlos Moedas. Em 2023, assinou um contrato de prestação de serviços com a Câmara de Lisboa para funções de assessoria ao presidente da autarquia. O valor mensal era de cerca de 3.750 euros, acrescido de IVA, o que representava aproximadamente 4.615 euros por mês e mais de 100 mil euros em menos de dois anos.

Em julho de 2025, Carlos Moedas atribuiu-lhe um louvor pelo trabalho desenvolvido no seu gabinete, destacando qualidades como empenho, competência, rigor e disponibilidade.

Serviços a eurodeputada e campanhas políticas

A BLAT também presta serviços à eurodeputada do PSD Lídia Pereira. A social-democrata explicou à Sábado que a contratação ocorreu em 2019, cumprindo as regras exigidas pelo Parlamento Europeu, e que o contrato foi recentemente renovado após um processo com outros concorrentes.

Segundo a mesma explicação, os pagamentos variam em função dos serviços de comunicação realizados e não ultrapassam 2.300 euros mensais mais IVA.

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A Sábado refere ainda que a empresa participou em várias campanhas eleitorais do PSD e que uma versão anterior da página da BLAT, datada de maio, apresentava PS e PSD como clientes. A versão atual do site já não inclui essa referência.

Alegada fuga de dados não foi confirmada

A empresa foi também associada, em maio, a rumores sobre uma eventual fuga de informação. As suspeitas, não confirmadas, apontavam para a divulgação de dados de 127 dirigentes do PSD e de académicos de universidades portuguesas.

Circularam imagens que sugeriam que essa informação teria sido colocada à venda na dark web. A BLAT foi contactada pela Sábado, mas não respondeu às perguntas até à publicação da notícia.

Falhas na correção digital mantêm exames sob pressão

O caso surge numa altura em que os exames nacionais continuam envoltos em contestação. As provas foram feitas em papel, mas o processo de correção passou a depender da digitalização das respostas e da distribuição eletrónica aos professores classificadores.

Os docentes têm denunciado atrasos na disponibilização das provas, falhas técnicas na plataforma e erros na digitalização das folhas de resposta. O Governo anunciou entretanto o adiamento da divulgação dos resultados e da segunda fase dos exames nacionais.

Fernando Alexandre afirmou que os problemas técnicos estavam resolvidos, mas confirmou depois que a plataforma usada na correção ficaria indisponível durante duas horas, entre as 00h00 e as 02h00 desta quarta-feira. A segunda fase dos exames foi remarcada para os dias 21 a 24 de julho, com o ministro da Educação a dizer que acredita que decorrerá de forma exemplar.

Mais de 5.700 pessoas já subscreveram uma petição a pedir a anulação dos exames nacionais deste ano, sem prejuízo para os alunos, por considerarem que as falhas técnicas comprometem a validade do processo. A oposição também tem exigido explicações ao Governo.

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