Esta sexta-feira é um dos dias mais aguardados do calendário escolar para milhares de alunos do ensino secundário. Está prevista a divulgação das classificações da primeira fase dos exames nacionais e abre igualmente o prazo para as inscrições na segunda fase, que arranca já na próxima segunda-feira. No entanto, a reta final do processo continua marcada pela incerteza, sobretudo quanto às provas de Português e Matemática A do 12.º ano, cuja correção enfrentou maiores dificuldades, deixando em aberto se todas as pautas poderão, de facto, ser afixadas durante o dia.
O calendário assume um peso ainda maior porque, na sequência do adiamento das classificações decidido pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), os estudantes dispõem apenas desta sexta-feira para formalizar a inscrição na segunda fase dos exames. A situação levanta dúvidas sobre o cumprimento da legislação em vigor, que prevê um prazo de dois dias úteis para esse procedimento, obrigando o Governo a encontrar uma solução legal para acomodar o novo calendário.
Esta sexta-feira está também prevista a divulgação das pautas com as classificações das provas finais da 1.ª fase do 9.º ano, igualmente adiadas pelo MECI devido aos problemas registados no processo de classificação eletrónica. Inicialmente previstas para 14 de julho, as pautas do ensino básico foram reagendadas para hoje depois de a tutela reconhecer que as dificuldades informáticas “pressionaram o cumprimento do calendário inicialmente previsto”. O ministério justificou a alteração com a necessidade de garantir a qualidade e o rigor do processo de classificação e de assegurar aos professores o tempo necessário para concluírem a avaliação das provas. Ainda assim, também sobre estas pautas subsistem dúvidas quanto à possibilidade de todas serem afixadas ao longo do dia, face aos constrangimentos que marcaram as últimas semanas.
As alterações foram anunciadas no início de julho, quando o MECI decidiu adiar a publicação das classificações de 14 para 17 de julho e empurrar o início da segunda fase para 20 de julho, mantendo, contudo, inalterado o calendário do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. As candidaturas ao ensino superior continuam, assim, previstas para começar no dia 20.
Desde então, diretores escolares, professores e alunos têm alertado para os constrangimentos criados pela alteração das datas. O principal problema prende-se precisamente com o reduzido prazo disponível para os estudantes decidirem se pretendem repetir exames ou melhorar classificações, numa altura em que muitas famílias também têm férias marcadas e as escolas continuam a organizar o encerramento do ano letivo e a preparação do próximo.
À incerteza juntou-se ainda a polémica em torno da classificação digital das provas, que marcou toda a primeira fase dos exames nacionais. Problemas técnicos na plataforma utilizada, atrasos sucessivos e dificuldades na distribuição e validação das respostas obrigaram a sucessivos ajustamentos do calendário.
Na véspera da divulgação das notas, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, admitiu que não existia garantia absoluta de que todas as classificações estariam prontas para publicação. O governante revelou que 99,3% das respostas já tinham sido corrigidas, mas reconheceu que permaneciam centenas de respostas por validar, sobretudo em algumas disciplinas.
“Estamos a aguardar a conclusão da correção de algumas provas e, de acordo com o Júri Nacional de Exames, estamos com dificuldades em conseguir que haja professores classificadores para algumas provas”, afirmou o ministro, apelando à colaboração dos docentes para concluir o processo.
Fernando Alexandre especificou que persistiam dificuldades particularmente nas provas de Português e Matemática, admitindo que ainda estavam a ser distribuídos exames para classificação. Referiu igualmente que faltavam corrigir 373 respostas do exame de Físico-Química A do 11.º ano e outras 584 de Biologia e Geologia, apesar de dezenas de milhares de respostas dessas disciplinas já terem sido concluídas.
O governante reconheceu também que todo o processo “correu mal”, assegurando que será realizada uma auditoria para apurar responsabilidades e identificar as falhas verificadas na implementação da classificação digital.
Diretores esperam que o processo “não morra na praia”
Em declarações exclusivas à Executive Digest, o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, considera que o Ministério da Educação está agora concentrado em cumprir o objetivo essencial: permitir que as escolas consigam afixar hoje as pautas.
“O ministro da Educação quer dar tudo por tudo para atingir o grande objetivo. Qual é o grande objetivo? É no dia 17 os diretores poderem fixar as pautas. Ou seja, ele não quer que este processo morra na praia”, afirmou.
O responsável admite que o processo de classificação digital ficou marcado por sucessivos adiamentos e reconhece que os professores classificadores têm realizado um esforço extraordinário.
“Os professores classificadores estão a dar o litro. Estão a ter um trabalho muitas vezes desumano, fora de horas, aos fins de semana e até altas horas da madrugada para conseguirem classificar as provas”, sublinhou.
Ainda assim, Filinto Lima espera que os problemas fiquem ultrapassados antes do início da segunda fase.
“Espero que na segunda fase, que começa já para a semana, as coisas corram a 100%. O modelo veio para ficar e, segundo os próprios classificadores, é um modelo muito bom. O problema não foi o modelo, foi a infraestrutura que o suportou”, afirmou.
Plataforma continua no centro das críticas
O dirigente da ANDAEP considera que as principais falhas estiveram relacionadas com a digitalização das provas e com a plataforma tecnológica utilizada, rejeitando responsabilidades das escolas ou dos docentes.
“A comunicação tem apontado demasiadas vezes o dedo às escolas e aos professores classificadores. Quem falhou foi o processo de digitalização e a plataforma. As escolas não tiveram qualquer espécie de falha no meio desta situação”, afirmou.
Filinto Lima considera ainda que a transição da experiência-piloto realizada no ano passado para a utilização generalizada da plataforma representou um salto demasiado ambicioso.
“O ano passado foram cerca de 20 mil provas de Filosofia. Este ano passou-se para mais de 300 mil provas e milhões de páginas digitalizadas. Foi um salto muito grande e muito arriscado”, observou.
Na sua perspetiva, uma implementação faseada teria permitido reduzir muitos dos problemas agora verificados.
Alunos enfrentam apenas um dia para decidir
Além da ansiedade em torno das classificações, os estudantes enfrentam agora outro desafio: decidir, praticamente de imediato, se pretendem inscrever-se na segunda fase.
Quando o novo calendário foi anunciado, Filinto Lima alertou que a legislação prevê um prazo de dois dias úteis para a inscrição dos alunos, algo que deixou de ser possível com o adiamento das classificações.
“O maior problema é precisamente esse. Os prazos previstos não vão ser cumpridos e terá de existir uma alteração legislativa”, alertou então.
A situação poderá ainda refletir-se no número de pedidos de reapreciação das provas.
Segundo o presidente da ANDAEP, é expectável um aumento significativo dos recursos apresentados pelos alunos.
“O normal é cerca de 2% dos alunos pedirem reapreciação. Acho que este ano esse número vai aumentar bastante”, antecipou.
Reunião habitual de homologação das notas não aconteceu
Entretanto, a CNN Portugal revelou que, pela primeira vez desde 1999, não foi realizada a habitual reunião de balanço e homologação das classificações dos exames nacionais entre o presidente do Júri Nacional de Exames (JNE), os coordenadores regionais e representantes da Inspeção-Geral da Educação.
Segundo uma fonte conhecedora do processo citada pela estação televisiva, nenhum coordenador regional foi convocado para esse encontro, tradicionalmente realizado antes da autorização para afixação das pautas.
Embora essa reunião não seja obrigatória por lei, a mesma fonte considera que se tratava de uma prática consolidada ao longo de muitos anos e que permitia analisar o funcionamento do processo e preparar melhorias para a segunda fase.
A mesma fonte afirmou ainda que os serviços terão alertado previamente a tutela para os riscos associados à generalização da classificação digital já neste ano letivo.
Concurso ao ensino superior mantém calendário
Apesar de toda a polémica em torno dos exames nacionais, o Ministério da Educação decidiu manter inalterado o calendário do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior.
Assim, as candidaturas continuam previstas para arrancar na segunda-feira, 20 de julho, coincidindo com o primeiro dia da segunda fase dos exames nacionais.
Ao anunciar as alterações ao calendário, o MECI lamentou “os eventuais transtornos” provocados a alunos, famílias, professores classificadores e escolas, reiterando que a prioridade passou por concluir o processo de classificação e garantir o normal funcionamento das provas seguintes.
Agora, todas as atenções concentram-se nesta sexta-feira. O objetivo assumido pelo Governo é que sejam finalmente afixadas as pautas das provas finais do 9.º ano e as classificações da primeira fase dos exames nacionais do ensino secundário, permitindo que dezenas de milhares de alunos conheçam os resultados aguardados há vários dias. Ainda assim, permanece a dúvida sobre se todas as disciplinas conseguirão cumprir o calendário previsto, sobretudo nos exames de Português e Matemática A do 12.º ano, que enfrentaram maiores constrangimentos durante o processo de classificação, podendo alguns estudantes ter ainda de esperar mais tempo para conhecer resultados decisivos para o acesso ao ensino superior.














