O antigo secretário-geral da NATO e ex-primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen, defendeu a criação de uma nova aliança europeia de defesa, alertando que a NATO, na sua configuração atual, já não é suficiente para garantir a segurança do continente perante as crescentes dúvidas quanto ao compromisso dos Estados Unidos.
“Estamos a assistir neste momento à desintegração da NATO, e isso é perigoso”, afirmou Rasmussen ao jornal alemão WELT. O antigo responsável sustenta que as posições assumidas pelo presidente norte-americano Donald Trump levantaram sérias reservas quanto ao empenho dos Estados Unidos no artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, que consagra o princípio da defesa coletiva, e na proteção da Europa. Perante esse cenário, conclui que “só pode haver uma conclusão para os europeus: temos de estar preparados para agir por conta própria e sermos capazes de defender o nosso continente sozinhos”.
Proposta de uma “coligação dos dispostos”
Rasmussen propõe a formalização de uma “coligação dos dispostos”, composta por países europeus prontos e capazes de organizar a defesa do continente de forma autónoma. Na sua perspetiva, nem a União Europeia nem a NATO estão atualmente estruturadas para reforçar um verdadeiro pilar europeu dentro da Aliança Atlântica.
O antigo líder da NATO defende que a Europa precisa de “novos planos de defesa e novas capacidades militares”, além de acelerar a produção de armamento e munições. As declarações levantam dúvidas sobre a viabilidade dos atuais planos regionais de defesa da NATO, considerados a espinha dorsal operacional dos compromissos do artigo 5.º, num cenário de menor envolvimento norte-americano.
De acordo com a proposta apresentada, a participação nessa nova aliança estaria condicionada ao cumprimento de critérios exigentes. “Os países da NATO que atinjam a meta de cinco por cento de despesa em defesa devem poder participar, comprometer-se com uma garantia de segurança semelhante ao artigo 5.º e impedir que Estados individuais bloqueiem operações militares”, afirmou. Acrescentou ainda que deverá existir “um mecanismo para excluir membros que não cumpram estas condições”.
NATO manter-se-ia como pilar central
Apesar das críticas, Rasmussen não defende o abandono da NATO. Pelo contrário, considera que a organização continuará a ser a pedra angular da defesa europeia. “Continuo a acreditar que a NATO permanecerá o pilar da nossa defesa, e a garantia de segurança definitiva é o guarda-chuva nuclear americano”, declarou. Ainda assim, sublinhou que “a defesa convencional é algo que nós, europeus, devemos ser capazes de assegurar por nós próprios”.
Rasmussen defendeu igualmente que a Ucrânia deve ser integrada no futuro quadro europeu de segurança como membro de pleno direito da nova aliança proposta. “Estamos agora também a ver a rapidez com que a Ucrânia desenvolve novas armas e munições”, afirmou, considerando que o país é necessário “como baluarte contra a Rússia”.
Apoios ainda por consolidar
O antigo secretário-geral encontrava-se em Berlim para reuniões com líderes políticos e revelou ter já discutido a ideia, embora sem compromissos firmes até ao momento. “Sim, estou a manter muitas conversas. Até agora, não tenho compromissos firmes. Mas alguém tem de fazer avançar esta questão”, declarou.
Rasmussen acrescentou que “acolheria com muito agrado” uma liderança conjunta do chanceler alemão Friedrich Merz com o Presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni na concretização desta iniciativa.
Uma mudança estratégica dolorosa
A posição agora assumida representa uma mudança significativa para um político historicamente associado a uma forte ligação transatlântica. Enquanto primeiro-ministro dinamarquês, Rasmussen apoiou a guerra no Iraque liderada pelos Estados Unidos, e enquanto secretário-geral da NATO defendeu de forma consistente o papel central da liderança americana na Aliança.
Questionado sobre como se sente ao repensar a segurança europeia praticamente sem Washington, respondeu de forma lacónica: “Muito doloroso.” Explicou que, desde a infância, admirava os Estados Unidos e via o país como o líder natural do mundo livre.
Contudo, argumenta que a Europa precisa de ajustar a sua visão estratégica e reduzir a dependência “dos homens fortes deste mundo, de Trump, Putin, Xi Jinping”. Na sua análise, durante demasiado tempo “os europeus dependeram de energia barata da Rússia, de bens baratos da China e de segurança barata dos Estados Unidos. Este modelo já não funciona”.



