Ex-secretário-geral da NATO alerta para “desintegração” da Aliança e propõe novo bloco europeu de defesa

O antigo secretário-geral da NATO e ex-primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen, defendeu a criação de uma nova aliança europeia de defesa, alertando que a NATO, na sua configuração atual, já não é suficiente para garantir a segurança do continente.

Pedro Zagacho Gonçalves

O antigo secretário-geral da NATO e ex-primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen, defendeu a criação de uma nova aliança europeia de defesa, alertando que a NATO, na sua configuração atual, já não é suficiente para garantir a segurança do continente perante as crescentes dúvidas quanto ao compromisso dos Estados Unidos.

“Estamos a assistir neste momento à desintegração da NATO, e isso é perigoso”, afirmou Rasmussen ao jornal alemão WELT. O antigo responsável sustenta que as posições assumidas pelo presidente norte-americano Donald Trump levantaram sérias reservas quanto ao empenho dos Estados Unidos no artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, que consagra o princípio da defesa coletiva, e na proteção da Europa. Perante esse cenário, conclui que “só pode haver uma conclusão para os europeus: temos de estar preparados para agir por conta própria e sermos capazes de defender o nosso continente sozinhos”.

Proposta de uma “coligação dos dispostos”
Rasmussen propõe a formalização de uma “coligação dos dispostos”, composta por países europeus prontos e capazes de organizar a defesa do continente de forma autónoma. Na sua perspetiva, nem a União Europeia nem a NATO estão atualmente estruturadas para reforçar um verdadeiro pilar europeu dentro da Aliança Atlântica.

O antigo líder da NATO defende que a Europa precisa de “novos planos de defesa e novas capacidades militares”, além de acelerar a produção de armamento e munições. As declarações levantam dúvidas sobre a viabilidade dos atuais planos regionais de defesa da NATO, considerados a espinha dorsal operacional dos compromissos do artigo 5.º, num cenário de menor envolvimento norte-americano.

De acordo com a proposta apresentada, a participação nessa nova aliança estaria condicionada ao cumprimento de critérios exigentes. “Os países da NATO que atinjam a meta de cinco por cento de despesa em defesa devem poder participar, comprometer-se com uma garantia de segurança semelhante ao artigo 5.º e impedir que Estados individuais bloqueiem operações militares”, afirmou. Acrescentou ainda que deverá existir “um mecanismo para excluir membros que não cumpram estas condições”.

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NATO manter-se-ia como pilar central
Apesar das críticas, Rasmussen não defende o abandono da NATO. Pelo contrário, considera que a organização continuará a ser a pedra angular da defesa europeia. “Continuo a acreditar que a NATO permanecerá o pilar da nossa defesa, e a garantia de segurança definitiva é o guarda-chuva nuclear americano”, declarou. Ainda assim, sublinhou que “a defesa convencional é algo que nós, europeus, devemos ser capazes de assegurar por nós próprios”.

Rasmussen defendeu igualmente que a Ucrânia deve ser integrada no futuro quadro europeu de segurança como membro de pleno direito da nova aliança proposta. “Estamos agora também a ver a rapidez com que a Ucrânia desenvolve novas armas e munições”, afirmou, considerando que o país é necessário “como baluarte contra a Rússia”.

Apoios ainda por consolidar
O antigo secretário-geral encontrava-se em Berlim para reuniões com líderes políticos e revelou ter já discutido a ideia, embora sem compromissos firmes até ao momento. “Sim, estou a manter muitas conversas. Até agora, não tenho compromissos firmes. Mas alguém tem de fazer avançar esta questão”, declarou.

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Rasmussen acrescentou que “acolheria com muito agrado” uma liderança conjunta do chanceler alemão Friedrich Merz com o Presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni na concretização desta iniciativa.

Uma mudança estratégica dolorosa
A posição agora assumida representa uma mudança significativa para um político historicamente associado a uma forte ligação transatlântica. Enquanto primeiro-ministro dinamarquês, Rasmussen apoiou a guerra no Iraque liderada pelos Estados Unidos, e enquanto secretário-geral da NATO defendeu de forma consistente o papel central da liderança americana na Aliança.

Questionado sobre como se sente ao repensar a segurança europeia praticamente sem Washington, respondeu de forma lacónica: “Muito doloroso.” Explicou que, desde a infância, admirava os Estados Unidos e via o país como o líder natural do mundo livre.

Contudo, argumenta que a Europa precisa de ajustar a sua visão estratégica e reduzir a dependência “dos homens fortes deste mundo, de Trump, Putin, Xi Jinping”. Na sua análise, durante demasiado tempo “os europeus dependeram de energia barata da Rússia, de bens baratos da China e de segurança barata dos Estados Unidos. Este modelo já não funciona”.

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