As autoridades europeias desmantelaram uma vasta rede de tráfico de drogas sintéticas que operava em vários países da União Europeia, numa operação coordenada pela Europol considerada a maior alguma vez realizada contra este tipo de criminalidade. A ação levou ao encerramento de 24 laboratórios de escala industrial, à apreensão de cerca de mil toneladas de produtos químicos e à detenção de mais de 85 suspeitos.
De acordo com a Europol, a operação, denominada Fabryka, representou um golpe severo contra o crime organizado, ao atingir diretamente a cadeia de abastecimento responsável pela produção e distribuição de drogas sintéticas como MDMA, anfetaminas, metanfetaminas e catinonas em vários Estados-membros.
Um ano de investigação e ação coordenada
A investigação teve início em 2024, após a polícia polaca ter identificado uma rede que importava grandes quantidades de produtos químicos legais provenientes da China e da Índia. Estes compostos, usados normalmente na indústria farmacêutica e química, eram reembalados, rotulados incorretamente e redistribuídos por toda a União Europeia para abastecer laboratórios clandestinos.
Ao longo de um ano, a operação envolveu forças policiais e judiciais da Bélgica, Rep. Checa, Alemanha, Países Baixos, Polónia e Espanha, culminando num grande dia de ação coordenada a 16 de janeiro último. Segundo a Europol, só nessa fase foram efetuadas 20 detenções, incluindo dois alvos de alto valor, e realizadas dezenas de buscas domiciliárias e a instalações de produção e armazenamento.
Rede criminosa estruturada e lucros milionários
As autoridades concluíram que a rede terá importado mais de mil toneladas de precursores químicos, quantidade suficiente para produzir mais de 300 toneladas de drogas sintéticas. As atividades ilegais geraram lucros avaliados em milhares de milhões de euros, com recurso sistemático ao branqueamento de capitais e à infiltração de fundos na economia legal, criando riscos de distorção do mercado e concorrência desleal.
A estrutura operacional era considerada altamente sofisticada, envolvendo várias empresas jurídicas sediadas na Polónia, utilizadas para facilitar a importação e distribuição dos químicos. A rede era composta maioritariamente por cidadãos polacos, contando ainda com o envolvimento de suspeitos belgas e neerlandeses ligados a células interligadas em vários países.
Impacto ambiental e riscos para a saúde pública
Para além do tráfico de droga, a operação revelou um grave impacto ambiental associado à produção de substâncias sintéticas. As autoridades apreenderam mais de 120 mil litros de resíduos químicos tóxicos, frequentemente despejados no solo, em cursos de água ou em sistemas de esgotos.
Segundo a Europol, os laboratórios ilegais podem gerar volumes de resíduos entre cinco e trinta vezes superiores à quantidade de droga produzida, contaminando solos e águas subterrâneas durante anos e colocando em risco trabalhadores, residentes e ecossistemas locais. A produção e o consumo destas drogas estão ainda associados a fenómenos de violência, corrupção e criminalidade financeira.
Uma estratégia para estrangular a cadeia de abastecimento
Responsáveis da Europol sublinharam que a operação Fabryka integra uma estratégia mais ampla de combate à produção de drogas sintéticas na sua origem, visando cortar o acesso dos grupos criminosos aos precursores químicos essenciais. As autoridades admitem que a rede agora desmantelada não era a única em atividade, garantindo que outras investigações continuam em curso.
A operação enquadra-se ainda na resposta reforçada da União Europeia à ameaça crescente das drogas sintéticas, identificada como uma das prioridades do Plano de Ação da UE contra o Tráfico de Drogas para o período 2026–2030, aprovado no final de 2025.









