Europeus querem mais armas “Made in Europe”, mas ainda não veem alternativa à NATO

Europa deve comprar rapidamente aos fornecedores habituais, sobretudo americanos, ou aproveitar o momento para reforçar a sua própria indústria de defesa?

Francisco Laranjeira

A Europa está a acelerar o debate sobre defesa, indústria militar e dependência dos Estados Unidos, num momento em que a guerra na Ucrânia e a pressão americana para aumentar gastos obrigam os líderes europeus a tomar decisões difíceis, escreve o ‘El Confidencial’.

A questão central é simples, mas politicamente sensível: a Europa deve comprar rapidamente aos fornecedores habituais, sobretudo americanos, ou aproveitar o momento para reforçar a sua própria indústria de defesa?

A discussão atravessa as negociações em Bruxelas sobre novos instrumentos de financiamento militar. O programa SAFE, que prevê 150 mil milhões de euros em créditos vantajosos para gastos em defesa, inclui a exigência de que a maior parte dos fundos seja direcionada para empresas sediadas na União Europeia. A lógica é semelhante à do EDIP, outro programa europeu dedicado ao setor militar.

Mas o debate está longe de estar fechado. Algumas capitais resistem a uma definição demasiado restritiva do que significa “Made in Europe”. A dúvida é se países terceiros alinhados com a União Europeia devem poder entrar nessa categoria. A Alemanha chegou a sugerir uma formulação mais flexível: “Made with Europe”, ou seja, produzido em cooperação com a Europa.

A pressão para comprar europeu

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A discussão política parece estar em linha com a opinião pública. Um inquérito do Conselho Europeu de Relações Exteriores mostra que os cidadãos europeus são largamente favoráveis à compra de mais armamento europeu em vez de material produzido fora do continente. A única exceção é Itália.

A Dinamarca surge como um dos casos mais expressivos. Apesar de ser uma aliada tradicional dos Estados Unidos e de depender fortemente da indústria militar americana, é o país onde os inquiridos mais defendem a aquisição de equipamento fabricado na Europa.

Essa mudança já se reflete nas decisões políticas. Em 2025, quando lançou a sua maior compra de armamento, o Governo dinamarquês optou pelo sistema antiaéreo europeu SAMP/T NG, num contrato de 58 mil milhões de coroas dinamarquesas, cerca de 7,8 mil milhões de euros, em vez de escolher equipamento americano.

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A Polónia segue outra lógica. Por estar mais exposta à ameaça russa e por valorizar a relação estratégica com Washington, Varsóvia continua a comprar uma quantidade significativa de equipamento à indústria militar americana.

Desconfiança crescente em relação aos EUA

O inquérito revela uma subida da desconfiança em relação aos Estados Unidos e à sua disponibilidade para proteger a Europa em caso de agressão militar. O contexto é marcado por meses em que Donald Trump fragilizou a credibilidade do Artigo 5º da NATO, a cláusula de defesa coletiva da Aliança, e chegou a admitir uma eventual retirada americana da organização.

Em nenhum Estado-membro analisado há uma maioria de cidadãos convencida de que os EUA viriam em seu auxílio em caso de ataque. Nem mesmo na Polónia, um dos países europeus mais próximos de Washington na área da defesa.

Em Espanha, a desconfiança é particularmente acentuada. A tensão entre Madrid e Washington aumentou antes da cimeira de Haia, quando o Governo de Pedro Sánchez se afastou da linha defendida pelo secretário-geral da NATO e pela Casa Branca ao rejeitar a meta de 5% do PIB para gastos em defesa. A relação agravou-se ainda mais depois de Espanha recusar o uso das bases de Rota e Morón em operações contra o Irão em 2026.

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Segundo o ‘El Confidencial’, os espanhóis são os europeus mais propensos a dizer que não confiam nas Forças Armadas americanas para ajudar Espanha em caso de agressão militar.

Mais confiança nos vizinhos europeus

Apesar da desconfiança em relação aos EUA, a confiança entre europeus é mais elevada. Dinamarqueses, suecos e neerlandeses mostram-se bastante confiantes de que outros parceiros europeus viriam em seu auxílio em caso de ataque.

A Bulgária é o único país onde os inquiridos não confiam maioritariamente na assistência europeia. A Polónia surge também entre os países com menor confiança relativa, apesar de o saldo médio ser positivo, refletindo razões históricas para alguma reserva perante uma arquitetura de segurança exclusivamente europeia.

Ainda assim, os europeus não parecem querer substituir a NATO por uma estrutura alternativa. O inquérito mostra que, embora haja desconfiança em relação aos EUA de Trump, a maioria continua a não ver uma alternativa real à Aliança Atlântica.

Uma NATO mais europeia, não uma Europa sem NATO

A leitura mais provável é que os cidadãos apoiam uma NATO mais europeia, e não uma alternativa europeia à NATO. Querem mais armamento produzido no continente, confiam mais nos vizinhos europeus do que nos Estados Unidos, mas não rejeitam a estrutura da Aliança Atlântica.

Essa orientação coincide com a direção que a NATO, liderada por Mark Rutte, já começou a assumir: um papel mais forte para os aliados europeus na segurança convencional do continente, enquanto os Estados Unidos mantêm o guarda-chuva de dissuasão nuclear.

Outro dado ajuda a explicar esta posição. Apesar do desgaste provocado por Trump, muitos europeus continuam a acreditar num Estados Unidos pós-Trump. A maioria dos inquiridos em países como Espanha, Dinamarca e França considera que as relações transatlânticas irão melhorar quando o legado do atual presidente ficar para trás.

Na Polónia, essa expectativa é mais fraca, mas ainda significativa. Quase metade dos inquiridos acredita que a relação com Washington poderá recuperar depois da atual fase política americana.

O debate nuclear entra no centro da defesa europeia

A questão nuclear é o ponto mais delicado da discussão. O inquérito mostra que os europeus são favoráveis a deixar de depender exclusivamente da garantia nuclear americana, sinal de que muitos querem controlo europeu sobre todos os elementos da dissuasão da Aliança.

Apenas na Áustria, que pertence à União Europeia mas não à NATO, e na Hungria os inquiridos se opõem ao desenvolvimento de uma capacidade nuclear europeia.

O debate ganhou força depois de Emmanuel Macron ter anunciado uma revisão da doutrina nuclear francesa, com a intenção de alargar o alcance da dissuasão de França, até agora centrada estritamente no território nacional.

A Polónia é o país onde há maior apoio a uma dissuasão nuclear europeia. Ao mesmo tempo, é também onde mais cidadãos defendem o desenvolvimento de uma capacidade nuclear nacional, independente de uma estrutura supranacional.

A defesa que a Europa não quer terceirizar

O debate europeu sobre defesa deixou de ser apenas uma questão de orçamentos. Passou a envolver soberania industrial, confiança política, autonomia estratégica e a própria definição do papel dos Estados Unidos na segurança do continente.

A guerra na Ucrânia, a pressão de Trump sobre os aliados e as dúvidas sobre a fiabilidade americana aceleraram uma conclusão: os europeus querem continuar dentro da NATO, mas querem depender menos de Washington.

A pergunta, agora, é se a União Europeia conseguirá transformar essa vontade em capacidade industrial, compras comuns e produção militar suficiente para defender o continente sem terceirizar as suas camadas mais críticas de segurança.

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