Antes de a Rússia invar a Ucrânia, Ilja Iljin caçava principalmente pessoas presas no mar. Agora, também caça sabotadores. O subcomandante da guarda costeira da Finlândia está cada vez mais atento a petroleiros prestes a cometer sabotagem. Atrás dele está um pequeno exército: dezenas de radares e câmaras, vários barcos de patrulha, uma frota de aviões e helicópteros — todos mobilizados para vasculhar um trecho de água tão grande quanto a Bélgica.
Procuram comportamentos suspeitos que possam colocar em risco os cabos submarinos que levam internet e energia aos europeus. Mas, apesar da vigilância, a sabotagem continua — duas vezes somente no Golfo da Finlândia nos últimos 18 meses, de acordo com Iljin. No total, o Mar Báltico registou pelo menos seis incidentes suspeitos de sabotagem desde 2022, com 11 cabos submarinos conhecidos retirados desde 2023. “Isso está a tornar-se mais comum”, apontou Iljin. “Nós nos tornámos mais conscientes do risco e estamos atualmente a tentar descobrir maneiras de como responder adequadamente.”
Os ataques causaram um ‘arrepio’ à Europa: e se os próximos forem mais coordenados, mais severos? E se a Rússia estivesse a lançar um ataque à Europa? E se isso significasse guerra?
Não é difícil imaginar um cenário tumultuado. A Irlanda pode perder um décimo da sua eletricidade através de três cortes de cabos. A Noruega fornece à União Europeia um terço do gás do bloco via gasodutos submarinos. Ir atrás de qualquer um dos alvos pode causar caos — escassez de energia, preços descontrolados, escolhas forçadas sobre quem perde energia.
“Estamos a testemunhar… [uma] nova realidade”, disse o ministro de Energia da Lituânia, Zygimantas Vaičiūnas. “Temos cada vez mais incidentes no Mar Báltico, o que pode ter impacto nos mercados, nos consumidores e também nos nossos negócios.” Até agora, as autoridades falharam em mostrar conclusivamente que Moscovo estava por trás de qualquer um dos incidentes. Mas “tais atividades de sabotagem nas circunstâncias atuais podem ser vistas como úteis para a Rússia… essa é a única interpretação”, apontou o responsável lituano ao jornal ‘POLITICO’.
Para a Rússia, o rumor de danos mínimos ajuda a alimentar a insegurança ocidental — e a plantar a ideia de que, verdade ou não, Moscovo poderia destruir a vida quotidiana dos europeus se quisesse. As águas da Europa, em outras palavras, tornaram-se uma nova frente na Guerra Fria com a Rússia. A UE e a NATO procuram resolver o problema, com planos para comprar cabos e drones extras e reforçar a vigilância militar.
Em setembro de 2022, os oleodutos Nord Stream da Rússia para a Alemanha foram misteriosamente explodidos. Desde então, a sabotagem do Mar Báltico proliferou, atingindo as ligações de telecomunicações, gás e energia que conectam a Suécia, Finlândia, Alemanha, Letónia e Estónia. Há apenas algumas semanas, um cabo de comunicações que ligava Berlim e Helsínquia foi novamente danificado na costa sueca.
Os custos são extraordinariamente baixos. “Potencialmente, é apenas subornar um capitão para baixar a âncora”, disse Christian Bueger, professor de relações internacionais e especialista em segurança marítima da Universidade de Copenhaga. “Isso é realmente barato se se estiver a pensar em operações de segurança de estilo militar.”
O alvo também está facilmente ao alcance da âncora de um navio. O Mar Báltico tem apenas 52 metros de profundidade em média, enquanto o Golfo da Finlândia é ainda mais raso, com 38 metros. Então, os cabos em si são simples de cortar.
Os cabos, enterrados meio metro abaixo do fundo do mar, são construídos para durar 40 anos e suportar arrasto de redes de pesca — mas não o impacto direto de uma âncora. Foi exatamente isso que aconteceu com o Eagle S, um navio que arrastou a sua âncora durante 100 quilómetros até cortar vários cabos perto da Finlândia em dezembro.
Uma vez rompidos, reparar é desafiador, salientou Bueger: há apenas 80 navios reparadores em todo o mundo. Quando chegam ao local, as reparações podem levar até duas semanas para cabos de dados e “muitos meses” para cabos de energia, de acordo com Peter Jamieson, vice-presidente da European Subsea Cables Association. O preço? Entre 5 e 150 milhões de euros, revelou Bueger.
“O que estamos a ver é claramente uma escalada”, disse Bueger, e “uma tentativa estratégica de minar a estabilidade e aumentar o sentimento de vulnerabilidade e incerteza nas sociedades ocidentais”. “Veremos mais ataques como esse”, acrescentou.







