Europa prepara-se para a guerra: fábricas de armas expandem instalações a um ritmo três vezes superior ao dos tempos de paz

Os satélites Sentinel-1, operados pela Agência Espacial Europeia, dispararam pulsos de radar e registaram os seus ecos – conhecidos como “backscatter” – que podem revelar alterações na superfície. Os dados sugeriram que cerca de um terço dos locais analisados apresentava sinais de expansão ou obras de construção

Francisco Laranjeira
Agosto 12, 2025
14:38

As fábricas de armamento da Europa estão a expandir-se a um ritmo três vezes superior em relação ao tempo de paz, estendendo-se por mais de 7 milhões de metros quadrados de novo desenvolvimento industrial que representa o rearmamento à escala histórica, indicou esta terça-feira o ‘Financial Times’, que analisou dados de satélite de radar que cobriram 150 instalações de 37 empresas.

Os dados mostraram que o prometido relançamento da defesa na Europa, impulsionado por uma injeção de subsídios públicos, começa a materializar-se não só na retórica política ou nas promessas de despesa, mas também no betão e no aço. Com mais de mil passagens de satélite de radar, a publicações rastreou mudanças em locais associados à produção de munições e mísseis, dois grandes problemas no apoio do Ocidente à Ucrânia.

Os satélites Sentinel-1, operados pela Agência Espacial Europeia, dispararam pulsos de radar e registaram os seus ecos – conhecidos como “backscatter” – que podem revelar alterações na superfície. Os dados sugeriram que cerca de um terço dos locais analisados apresentava sinais de expansão ou obras de construção.

A escala e a dispersão do trabalho detetado sugerem uma mudança geracional no rearmamento, deslocando a Europa da produção em tempo de paz para a construção de uma base industrial para uma base de guerra mais sustentada.

“Estas são mudanças profundas e estruturais que transformarão a indústria de Defesa a médio e longo prazo”, apontou William Alberque, ex-diretor de controlo de armas da NATO. “Uma vez que se está a produzir projéteis em massa, os metais e explosivos começam a fluir, o que diminui o custo e a complexidade da produção de mísseis.”

As áreas marcadas por mudanças saltaram de 790 mil metros quadrados em 2020/21 para 2,8 milhões de metros quadrados em 2024/25, referiu a publicação: a fotografia destes locais confirmou que as mudanças foram impulsionadas por escavações antes das obras, novos edifícios, novas estradas a serem pavimentadas e construção.

Entre os locais com maior expansão estava um projeto conjunto entre o gigante alemão da defesa Rheinmetall e a empresa de defesa estatal húngara N7 Holding, que construiu um vasto local de produção de munições e explosivos em Várparota, no sul da Hungria.

A construção ainda está em marcha, pois o local também produzirá outros tipos de munição, incluindo projéteis de artilharia de 155 mm e munições de 120 mm para o tanque Leopard 2 e, potencialmente, para o Panther, disse Rheinmetall. O local também abrigará uma fábrica de explosivos.

A análise examinou 88 locais ligados a um programa da UE, o Act in Support of Ammunition Production (ASAP), que investiu 500 milhões de euros para resolver estrangulamentos específicos na produção de munições e mísseis. Tanto a unidade de Rheinmetall como a de Roxel foram apoiadas pelo PAEA.

Uma clara expansão física é visível em 20 locais com financiamento ASAP, incluindo a construção de fábricas e estradas totalmente novas. Em 14 locais, são visíveis pequenas expansões, como a construção de novos parques de estacionamento. Os restantes locais ou não se expandiram ou eram edifícios de escritórios e de investigação.

O comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, disse ao ‘FT’ que, desde a invasão de Moscovo, a capacidade anual da Europa para produzir munições aumentou de 300.000 para cerca de 2 milhões até ao final deste ano. A expansão da Rheinmetall será responsável por grande parte desse crescimento: a empresa disse que a sua capacidade de produção anual para munições de 155 mm deve aumentar de 70 mil em 2022 para 1,1 milhões em 2027.

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