O Reino Unido e a Alemanha estão a desenvolver, de forma discreta, um novo míssil de longo alcance capaz de atingir alvos até 2.000 quilómetros dentro do território russo, num projeto que pretende reforçar a capacidade militar europeia e reduzir a dependência dos Estados Unidos.
A informação é avançada pelos jornais ‘Welt’ e ‘The Telegraph’, que citam várias fontes britânicas e alemãs ligadas ao planeamento da defesa.
Batizado Deep Precision Strike (DPS), o programa prevê o desenvolvimento de uma arma de elevada precisão destinada a destruir infraestruturas militares estratégicas, como centros de comando, bases logísticas e linhas de abastecimento, caso a NATO entre em conflito direto com a Rússia.
Segundo aquelas publicações, o míssil deverá entrar ao serviço em 2034 e constitui o principal projeto da cooperação militar entre Londres e Berlim, combinando financiamento alemão com tecnologia britânica.
O DPS foi apresentado na cimeira da NATO realizada em julho, em Ancara, como um programa liderado pelo Reino Unido, avaliado em cerca de 35 mil milhões de euros e que envolve 12 países da Aliança Atlântica. A Alemanha deverá assumir um papel central no desenvolvimento do sistema.
As autoridades estudam atualmente duas soluções técnicas: um míssil de cruzeiro de baixa altitude, concebido para escapar aos sistemas de defesa aérea russos, e um míssil hipersónico, capaz de viajar a mais de cinco vezes a velocidade do som.
Segundo o ‘Welt’, o Governo britânico pretende acelerar o calendário e transformar o atual acordo político num programa formal de desenvolvimento já no próximo ano.
Especialistas em defesa consideram que o projeto reflete a crescente preocupação europeia com a escassez de capacidades próprias para ataques de longo alcance. Atualmente, a NATO dispõe de um número limitado de mísseis convencionais capazes de atingir alvos muito distantes, dependendo sobretudo dos mísseis americanos Tomahawk.
“Deep Precision Strike significa a capacidade de atacar alvos estratégicos, como quartéis-generais ou centros logísticos, cuja destruição comprometeria toda a cadeia de abastecimento da linha da frente”, explicou Sidharth Kaushal, especialista do centro de estudos britânico Royal United Services Institute (RUSI).
O programa integra um reforço mais vasto da cooperação militar entre Reino Unido e Alemanha, iniciado com a Declaração de Trinity House, em 2024, e aprofundado através do Acordo de Kensington, assinado em 2025.
Nos últimos meses, várias empresas alemãs do setor da defesa reforçaram os investimentos em território britânico. A Rheinmetall inaugurou uma fábrica de produção de artilharia em Telford, a Heckler & Koch expandiu a capacidade industrial em Essex e a Helsing abriu recentemente, em Plymouth, uma unidade dedicada ao fabrico de drones submarinos equipados com inteligência artificial.
Apesar do avanço do projeto, o calendário previsto está longe de reunir consenso. O antigo comandante das forças americanas na Europa, Ben Hodges, classificou como “absurdo” esperar até 2034, lembrando que a Ucrânia já utiliza drones capazes de atingir alvos situados a cerca de 2.000 quilómetros de distância.
Também Nico Lange, especialista alemão em segurança, defendeu que a Europa deveria concentrar esforços na criação de capacidades terrestres de ataque profundo nos próximos meses, em vez de adiar esse objetivo durante quase uma década.














