A União Europeia terá de investir cerca de 500 mil milhões de euros para substituir as capacidades militares estratégicas atualmente asseguradas pelos Estados Unidos no continente europeu, caso Washington continue a reduzir a sua presença militar na região. O alerta foi lançado esta terça-feira pelo comissário europeu para a Defesa e Espaço, Andrius Kubilius, que defendeu uma transformação profunda das políticas de defesa europeias e um reforço sem precedentes da cooperação entre os Estados-membros.
Durante uma intervenção pública em Bruxelas, Kubilius afirmou que a UE enfrenta atualmente “grandes desafios industriais no domínio da defesa” e referiu cálculos recentes realizados por especialistas alemães que apontam para um custo de aproximadamente 500 mil milhões de euros para substituir os chamados “facilitadores estratégicos” norte-americanos instalados na Europa.
“Precisamos de uma grande mudança nas nossas políticas e práticas de defesa”, declarou o responsável europeu, sublinhando que o bloco comunitário terá de acelerar significativamente a produção de equipamentos e capacidades militares essenciais para garantir a sua própria segurança.
As capacidades em causa incluem áreas consideradas fundamentais para qualquer operação militar moderna, como sistemas de defesa aérea, reconhecimento e vigilância, transporte estratégico de tropas e equipamentos, além de outras infraestruturas militares críticas atualmente asseguradas em larga medida pelos Estados Unidos.
Kubilius baseou a sua análise num estudo elaborado pelo Instituto Kiel para a Economia Mundial, na Alemanha, que estima que a Europa terá de investir cerca de meio bilião de euros ao longo da próxima década em dez áreas estratégicas prioritárias.
Segundo esse estudo, a Europa poderá alcançar progressos significativos rumo à soberania militar num prazo de três a cinco anos e atingir um elevado grau de autonomia na maioria dos domínios da defesa entre cinco e dez anos, desde que essa meta seja assumida como prioridade política e concretizada através de um esforço europeu coordenado.
Bruxelas quer acelerar produção militar
O comissário europeu tem insistido repetidamente que a União Europeia precisa de fabricar mais equipamentos militares e fazê-lo mais rapidamente para garantir a sua capacidade de defesa perante potenciais ameaças externas.
Na sua intervenção, voltou a reforçar que será necessário mobilizar uma “grande quantidade de dinheiro” para atingir esse objetivo, numa altura em que vários serviços de informações europeus alertam para a possibilidade de a Rússia estar em condições de atacar um aliado da NATO ou um Estado-membro da União Europeia até ao final da década.
Retirada dos EUA aumenta preocupações europeias
As preocupações em Bruxelas intensificaram-se devido à estratégia seguida pelo Presidente norte-americano Donald Trump durante o seu segundo mandato, marcada por uma redução progressiva do envolvimento dos Estados Unidos na defesa da Europa.
Recentemente, Trump anunciou a retirada de cinco mil militares norte-americanos estacionados na Alemanha, numa operação que integra um plano mais vasto de redução da presença militar dos EUA na Europa ao longo dos próximos seis a doze meses.
Atualmente, cerca de 80 mil militares norte-americanos encontram-se destacados em território europeu sob a estrutura da NATO.
Tensões entre Washington e aliados europeus
As relações entre os Estados Unidos e os restantes aliados da NATO, incluindo 23 países que pertencem simultaneamente à União Europeia, deterioraram-se nas últimas semanas devido às divergências sobre a campanha militar norte-americana contra o Irão.
No final de abril, o chanceler alemão, Friedrich Merz, acusou os negociadores da Casa Branca de estarem a ser “humilhados” pela liderança iraniana. Pouco depois dessas declarações foi anunciada a redução do contingente militar norte-americano na Alemanha.
Também o embaixador dos Estados Unidos junto da União Europeia, Andrew Puzder, afirmou recentemente que Donald Trump continua “desapontado” com a posição europeia relativamente ao conflito.
O próprio Presidente norte-americano foi mais longe, classificando os aliados da NATO como “cobardes” nas redes sociais e prometendo recordar a recusa de vários países europeus em apoiar pedidos de assistência militar norte-americana no Médio Oriente.
Fracasso do FCAS levanta dúvidas sobre cooperação europeia
As declarações de Kubilius surgem igualmente num momento delicado para a indústria europeia de defesa, depois de a Alemanha e a França terem anunciado o abandono do programa FCAS (Future Combat Air System), considerado um dos mais ambiciosos projetos militares conjuntos da Europa.
O anúncio foi feito pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, e pelo chanceler alemão Friedrich Merz.
Lançado em 2017, o FCAS destinava-se a desenvolver uma nova geração de sistemas de combate aéreo para substituir os caças Rafale franceses e os Eurofighter utilizados pela Alemanha e Espanha. O projeto previa ainda a integração de drones, sensores avançados e sistemas digitais de comunicações capazes de operar de forma totalmente interligada no campo de batalha.
O programa era encarado como um teste decisivo à capacidade europeia de desenvolver grandes projetos de defesa em conjunto e de apresentar uma resposta unificada perante a crescente ameaça representada pela Rússia e o afastamento estratégico dos Estados Unidos.
Bruxelas aposta em financiamento comum
Questionada sobre o impacto do fracasso do FCAS, a Comissão Europeia evitou comentar projetos específicos. Ainda assim, o porta-voz comunitário Thomas Regnier destacou a importância dos novos mecanismos de financiamento criados por Bruxelas para apoiar o setor da defesa.
Segundo Regnier, o programa SAFE (Security Action for Europe) constitui uma das principais prioridades tanto de Andrius Kubilius como da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
A Comissão Europeia reservou cerca de 150 mil milhões de euros em empréstimos através deste mecanismo, com o objetivo de incentivar os governos nacionais a aumentarem os seus investimentos militares.
Até ao momento, Bruxelas aprovou 18 candidaturas ao programa SAFE e concluiu cinco acordos de financiamento.
Objetivo: preparar a Europa para 2030
O objetivo final da estratégia europeia passa por garantir que o continente esteja preparado para responder autonomamente a futuras ameaças, caso os Estados Unidos continuem a reduzir o seu compromisso com a segurança europeia e a Rússia represente um risco acrescido nos próximos anos.
Apesar dos desafios colocados pelo abandono de projetos conjuntos como o FCAS, a Comissão Europeia mantém a convicção de que a cooperação militar entre os Estados-membros continua a avançar.
“A contratação conjunta continua bem viva e o sucesso do SAFE fala por si”, afirmou Thomas Regnier, defendendo que a Europa dispõe agora de instrumentos financeiros capazes de sustentar um esforço de defesa sem precedentes nas próximas décadas.



