Europa nuclear? Oito países juntam-se à estratégia de “dissuasão avançada” de Macron

O plano, apresentado na base de Île Longue, na Bretanha, já conta com a adesão de oito países europeus e é visto por alguns analistas como o primeiro passo para a criação de um eventual “guarda-chuva nuclear” europeu.

Pedro Gonçalves
Março 3, 2026
12:05

O Presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou uma profunda reorientação da estratégia nuclear de França, propondo uma política de “dissuasão avançada” com dimensão europeia. O plano, apresentado na base de Île Longue, na Bretanha, já conta com a adesão de oito países europeus e é visto por alguns analistas como o primeiro passo para a criação de um eventual “guarda-chuva nuclear” europeu.

No discurso, proferido com um submarino nuclear como pano de fundo, Macron confirmou a intenção de aumentar o arsenal nuclear francês e de alargar o seu alcance estratégico num contexto que classificou como “um período de agitação política repleto de riscos”.



Uma hora após a intervenção presidencial, França e Alemanha anunciaram a criação de um “grupo diretivo nuclear de alto nível”, que deverá começar a funcionar ainda este ano.

“Devemos reforçar a nossa dissuasão nuclear perante a combinação de ameaças e devemos refletir sobre a nossa estratégia de dissuasão no coração do continente europeu, embora com pleno respeito pela nossa soberania”, declarou Macron.

O chefe de Estado francês justificou a mudança com referências constantes à Rússia e ao “conflito no Médio Oriente que continuará a trazer a sua quota de instabilidade e potencial conflagração às nossas fronteiras”.

Reforço do arsenal e nova dimensão continental
A força nuclear francesa, estimada em cerca de 290 ogivas, foi historicamente considerada parte da estratégia de autonomia nacional e não está integrada no quadro da NATO — ao contrário do arsenal britânico, estimado em 225 ogivas.

Macron confirmou agora uma viragem de 180 graus na utilização estratégica dessa capacidade. “Não hesitarei em usar esse armamento para proteger os nossos interesses vitais”, afirmou.

Além do aumento do número de ogivas, o Presidente revelou ter chegado a acordos de “dissuasão avançada” com oito parceiros europeus, com especial enfoque nos países da “linha da frente”. Entre eles estão Alemanha, Polónia, Suécia, Dinamarca, Países Baixos e Finlândia. A Grécia foi igualmente incluída na lista. Espanha e Itália mantêm, para já, uma posição de cautela.

“A Alemanha será um parceiro importante neste esforço”, sublinhou Macron, que destacou também a cooperação estreita com o Reino Unido em matéria nuclear e no domínio dos mísseis de longo alcance.

Possível destacamento de Rafale e submarinos nucleares
Entre as hipóteses de cooperação, França poderá discutir com os aliados o eventual destacamento de caças Rafale equipados com mísseis ASMP-A em território de outros países europeus.

Os quatro submarinos nucleares franceses, recentemente equipados com a nova geração de mísseis balísticos M51.3, poderão também integrar futuras missões de segurança europeia. Como exemplo de presença militar reforçada, Macron recordou a recente escala do porta-aviões Charles De Gaulle em Malmö, na Suécia.

Advertência sobre nova era nuclear
Num discurso de cerca de 40 minutos, Macron alertou que “os europeus habituaram-se a que a sua segurança dependesse de normas estabelecidas por terceiros”, numa referência implícita à arquitetura de segurança herdada da Guerra Fria.

“Sejamos claros: essa era a arquitetura de segurança europeia, com acordos que datam da Guerra Fria. (…) A nossa época exige uma abordagem diferente. Devemos reconstruir as regras. O que mais desejo é que os europeus recuperem o seu próprio destino”, afirmou.

Num tom particularmente grave, o Presidente francês previu que “o próximo meio século será uma era de armas nucleares”. Segundo Macron, “a arquitetura global de controlo das armas nucleares está tão enfraquecida que se assemelha a um campo em ruínas”, o que compromete a confiança necessária para reconstruir padrões de segurança coletiva.

Rússia no centro das preocupações
Macron destacou que “a guerra lenta e cruel da Rússia contra a vizinha Ucrânia constitui um grave risco para a Europa”. Acrescentou que Moscovo, ao abraçar “o revisionismo e o imperialismo brutal”, continua a desenvolver novas armas, incluindo mísseis nucleares hipersónicos, torpedos nucleares e até um projeto “particularmente perigoso para a humanidade” que envolve o lançamento de armas nucleares no espaço.

Paralelamente, o Governo francês manifestou disponibilidade para “participar na defesa dos países do Golfo e da Jordânia” face aos ataques do Irão. Macron advertiu ainda que França “reforçará as suas posições de apoio defensivo aos países com os quais temos tratados de defesa”.

Na conclusão do discurso, Macron traçou um retrato sombrio do contexto internacional: “Os últimos seis anos pesaram sobre França e a Europa como décadas, e os últimos meses como anos.”

“Os nossos concorrentes evoluíram, e também os nossos parceiros. O mundo está a tornar-se mais desafiante e as últimas horas demonstraram-no uma vez mais. É, portanto, meu dever anunciar com gravidade perante a nação uma mudança à altura dos nossos desafios nacionais e europeus”, concluiu.

A adesão de oito países ao plano francês representa um passo significativo na redefinição da estratégia de defesa europeia, num momento marcado por tensões geopolíticas crescentes e por um debate renovado sobre autonomia estratégica no continente.

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