A Venezuela é hoje um dos principais pontos de partida do tráfico marítimo de cocaína com destino à Península Ibérica. Fontes judiciais indicam que as autoridades europeias suspeitam da existência de mais embarcações carregadas de droga a rumar à Europa do que aos EUA, numa rota cada vez mais consolidada através do Atlântico.
De acordo com o jornal ‘Expresso’, as redes criminosas operam sobretudo a partir de Caracas e utilizam o mar das Caraíbas como corredor privilegiado. A droga é transportada, na maioria dos casos, em veleiros e barcos de pesca, seguindo depois em direção à Europa ocidental. Portugal surge como um ponto relevante neste percurso, com a Polícia Judiciária e a Marinha a terem intercetado várias embarcações oriundas da Venezuela em alto mar, nomeadamente ao largo dos Açores e da Madeira.
Operacionais estrangeiros e ligações à Península Ibérica
Apesar da origem venezuelana das operações, os suspeitos detidos raramente têm nacionalidade daquele país. As investigações indicam que estas redes recorrem frequentemente a operacionais do Leste da Europa, embora existam também casos envolvendo portugueses e espanhóis, que conhecem melhor os pontos de embarque, os contactos locais e as estruturas de apoio na Península Ibérica.
De acordo com uma fonte judicial, a cocaína transportada nestas rotas é produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia, sendo carregada em embarcações ao largo da costa venezuelana. A travessia atlântica tira partido dos ventos dominantes, facilitando a chegada à Europa.
Dados recolhidos pelas autoridades apontam ainda para o facto de algumas das conhecidas ‘narcolanchas’, habitualmente associadas ao tráfico para os Estados Unidos, terem afinal como destino o Velho Continente. Há cerca de dois anos, a Venezuela chegou mesmo a ser o país que mais droga enviava para a Europa, apesar de não ser produtora, embora entretanto tenha sido ultrapassada pelo Brasil.
Relatórios europeus e redes com ramificações em Portugal
Relatórios da Europol revelam uma crescente preocupação com estas organizações criminosas sediadas na Venezuela, que mantêm relações estreitas com cartéis colombianos e estabeleceram ligações diretas com grupos a operar em Portugal e em Espanha. Estas conexões permitiram a criação de redes intercontinentais capazes de assegurar não apenas o transporte da droga, mas também a lavagem dos lucros obtidos.
Uma das maiores operações antidroga realizadas em Espanha, em março do ano passado, resultou na detenção de 20 suspeitos ligados a uma organização criminosa com ramificações na Península Ibérica. A rede terá branqueado mais de 10 milhões de euros através da utilização de identidades roubadas e da criação de empresas destinadas a financiar a atividade criminosa. A investigação contou com o apoio das autoridades portuguesas e identificou um cidadão venezuelano entre os principais líderes do grupo.
Tren de Aragua acende alertas em Espanha
O alarme mais recente sobre a presença de cartéis venezuelanos na Europa soou em novembro do ano passado, quando a polícia espanhola deteve 13 pessoas em Barcelona e noutras quatro cidades, suspeitas de integrarem o Tren de Aragua. Foi a primeira vez que uma célula desta organização criminosa foi desmantelada em Espanha.
Considerado um dos grupos mais violentos da América Latina, o Tren de Aragua tem sido associado a crimes de tráfico de droga, homicídios, extorsão e lavagem de dinheiro. A operação surgiu na sequência da detenção, em Barcelona, em março de 2024, de Gerso Guerrero, irmão do líder máximo da organização, conhecido como ‘Niño Guerrero’, um dos criminosos mais procurados pela Interpol.
A prisão de Gerso Guerrero levou as autoridades espanholas a aprofundar a investigação sobre a presença do cartel no país, culminando na operação realizada meses depois. O suspeito acabaria por ser extraditado para a Venezuela em julho do ano passado, num processo que reforçou as preocupações europeias quanto à consolidação destas redes criminosas com ligações diretas à Península Ibérica, de acordo com o Expresso.














