Europa não tem um plano mestre para a nova ‘desordem mundial’ de Donald Trump

Embora os países europeus tenham concordado que precisam fazer mais pela sua própria segurança — inclusive gastando muito mais dinheiro com as suas Forças Armadas — grande parte da retórica pública em Bruxelas parecia voltada para tentar manter Trump e Hegseth ao seu lado

Francisco Laranjeira

A mudança de paradigma de Donald Trump está oficialmente ativa: nas últimas 48 horas, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, atirou um balde de água fria às esperanças da Ucrânia de um acordo de paz favorável, frisando que os EUA poderiam reduzir a sua presença militar na Europa — ao mesmo tempo que o próprio Trump conversava com o líder russo Vladimir Putin sobre o futuro de Kiev.

A mensagem de Hegseth é clara: a Casa Branca vê as “ambições dos chineses comunistas” é a ameaça global primária, o que vai forçar uma redução do envolvimento de segurança dos EUA na Europa. Na reunião dos ministros da Defesa em Bruxelas, os EUA mostram a intenção de se reorganizar geopoliticamente.

Embora os países europeus tenham concordado que precisam fazer mais pela sua própria segurança — inclusive gastando muito mais dinheiro com as suas Forças Armadas — grande parte da retórica pública em Bruxelas parecia voltada para tentar manter Trump e Hegseth ao seu lado.

As declarações inicialmente otimistas dos EUA tiveram uma resposta moderada: os ministros utilizaram palavras ou frases como “convergência”, os “EUA estão certos” e “família”. As tímidas reações serviram apenas para realçar que não existe um manual europeu para lidar com a ordem geopolítica liderada por Trump.

“A maioria dos países europeus não quer perder prestígio e ainda não está a pensar em termos da nova estrutura de Trump”, apontou uma autoridade europeia ao jornal ‘POLITICO’, acrescentando que será uma “mistura de medo e negação” em relação ao impacto real da nova postura americana na Ucrânia e a segurança da Europa como um todo.

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França – um das três potências nucleares da NATO, com Reino Unido e os EUA – apontou recentemente que os europeus precisam de se preparar para um cenário em que Washington retire recursos e pessoal militar do Velho Continente. No entanto, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, tentou minimizar as preocupações. “Pete Hegseth disse em Estugarda que não há planos para reduzir os níveis de tropas. Ao mesmo tempo, os EUA estão bastante irritados há muito tempo… que eles estão a gastar mais do que os aliados europeus da NATO e o Canadá”, apontou. “Precisamos de fazer mais.”

Questionado sobre as tropas americanas na Europa, Hegseth disse que “não estamos a abandonar os nossos aliados na Europa”. “Não foi tomada qualquer decisão sobre os níveis de tropas na Europa. Essa é uma discussão a ser feita pelo comandante em chefe”, referiu. “Mas há um reconhecimento de que as ambições dos chineses comunistas são uma ameaça às pessoas livres em todos os lugares”, acrescentou.

Hegseth alertou també, que os EUA continuam comprometidos com a cláusula de assistência mútua da NATO, conhecida como Artigo 5, mas acrescentou que os aliados devem respeitar o menos discutido Artigo 3, que afirma que os membros devem estar “suficientemente preparados” para enfrentar uma crise.

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A conversa entre Trump e Putin deixou os aliados europeus perplexos – sendo que os ministros da Defesa insistiram que a Ucrânia deveria ser incluída em quaisquer negociações de paz -, sendo que Rutte fez questão de rejeitar a ideia de que os europeus estão a ser marginalizados. “Sempre soubemos que iria acontecer em breve uma ligação”, apontou. No entanto, a principal diplomata da UE, Kaja Kallas, adotou um tom muito mais duro, denunciando a ligação de Trump com Putin como “apaziguamento” e dizendo que qualquer acordo sobre o futuro da Ucrânia que seja fechado sem o envolvimento europeu será um fracasso.

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