A Europa Central e parte da Europa Ocidental enfrentam esta quarta-feira um episódio de instabilidade particularmente intenso, com condições favoráveis à formação de supercélulas, queda de granizo de grandes dimensões, rajadas destrutivas e chuva torrencial.
O maior perigo concentra-se no norte de Itália, mas a área de risco estende-se pelo leste de França, Suíça, sudoeste da Alemanha, Áustria, Eslovénia, Croácia, Chéquia, Eslováquia, Polónia e países vizinhos.
Segundo o ‘Luso Meteo’, o continente encontra-se dividido por um forte contraste atmosférico. Um anticiclone instalado sobre a Escandinávia está a provocar temperaturas muito elevadas no norte da Europa, enquanto uma depressão em altitude sobre o norte da Alemanha interage com uma perturbação que se desloca entre França e a Áustria.
O choque entre massas de ar, conjugado com o calor e a humidade acumulados, cria condições para o rápido desenvolvimento de tempestades organizadas ao longo da margem sul daquele sistema depressionário.
O mapa divulgado pelo European Severe Storms Laboratory, elaborado a partir de uma combinação dos modelos ECMWF, ICON-EU e GFS, mostra probabilidades particularmente elevadas de trovoadas e de granizo com pelo menos dois centímetros entre o norte de Itália e a região alpina.
As linhas brancas representadas na carta identificam as áreas onde existe risco de granizo muito grande, com cinco ou mais centímetros. Quanto mais espessa for a linha, maior é a probabilidade de o fenómeno ocorrer num raio de 40 quilómetros de determinado ponto. O mapa é probabilístico e não significa que toda a região assinalada será atingida.
No norte de Itália, os modelos apontam para valores muito elevados de energia disponível para alimentar tempestades. O Luso Meteo refere que a energia potencial convectiva poderá atingir cerca de 3.500 joules por quilograma, favorecendo correntes ascendentes suficientemente intensas para formar pedras de granizo gigantes.
Algumas simulações de alta resolução admitem que o granizo possa, pontualmente, aproximar-se dos dez centímetros. Uma pedra destas dimensões pode provocar danos graves em automóveis, telhados, janelas, culturas agrícolas e painéis solares.
O ESTOFEX colocou partes do norte de Itália no nível 3, o mais elevado da sua escala, sobretudo devido ao risco de granizo muito grande ou gigante e de rajadas destrutivas. A área circundante encontra-se em nível 2, com possibilidade de chuva excessiva, vento severo e tornados junto à costa norte do Adriático.
As planícies da Lombardia e da Emilia-Romagna deverão estar entre as regiões mais expostas. Ao final da tarde e durante a noite, poderão formar-se supercélulas de longa duração, capazes de atravessar o norte de Itália e avançar em direção à Eslovénia e à Croácia.
Além do granizo, estas tempestades poderão produzir rajadas muito violentas, forte atividade elétrica e precipitação intensa em períodos curtos. A possibilidade de tornado é considerada mais baixa, mas não está excluída nas zonas próximas do Adriático, onde a interação com a brisa marítima poderá reforçar a rotação das células.
Na Suíça, Áustria e Eslovénia, a instabilidade deverá ser intensificada pelo relevo montanhoso. As tempestades poderão nascer junto aos Alpes e deslocar-se depois para áreas mais baixas, acompanhadas por granizo, vento forte e chuva torrencial.
Mais a leste, nomeadamente na Chéquia, Polónia, Eslováquia e nordeste da Alemanha, o principal risco poderá ser a deslocação lenta das células. Algumas áreas poderão receber entre 50 e 150 milímetros de chuva em poucas horas, aumentando a possibilidade de cheias rápidas e inundações urbanas.
Também existe potencial para tempestades isoladas no nordeste de Espanha e no sul de França. Contudo, os modelos apresentam maior divergência nestas regiões e admitem que uma camada de ar mais estável possa dificultar a formação das células.
Portugal encontra-se fora do corredor onde se prevê o tempo mais severo. O território continental não aparece nas zonas de risco elevado de granizo representadas no mapa, embora a evolução do padrão atmosférico europeu deva continuar a ser acompanhada.
O ‘Luso Meteo’ associa a violência potencial das tempestades ao calor persistente no sul da Europa e às temperaturas anormalmente elevadas do Mediterrâneo. Águas próximas dos 30 graus libertam grandes quantidades de humidade para a atmosfera, fornecendo combustível adicional aos sistemas convectivos.
As previsões não permitem determinar com exatidão quais as localidades que serão atingidas. Numa situação deste género, pequenas alterações na temperatura, humidade ou direção do vento podem mudar rapidamente a trajetória e a intensidade das tempestades.
Ainda assim, a conjugação dos diferentes modelos e o aviso máximo emitido para partes do norte de Itália apontam para um episódio com potencial significativo de causar danos, justificando um acompanhamento contínuo dos alertas emitidos pelas autoridades locais.















