O uso de dinheiro físico está novamente no centro do debate europeu, numa altura em que os pagamentos digitais dominam o quotidiano. Apesar da crescente digitalização, autoridades e especialistas alertam para a importância de manter algum dinheiro em numerário, especialmente em cenários de crise.
De acordo com a Euronews, o tema ganhou destaque após recomendações de entidades como o banco central da Estónia, que sugeriu aos cidadãos a manutenção de reservas de dinheiro suficientes para cobrir cerca de uma semana de despesas diárias. A preocupação prende-se com o risco crescente de falhas nos sistemas de pagamento, ciberataques ou cortes de energia.
Dinheiro físico como rede de segurança
A possibilidade de interrupções nos sistemas digitais não é meramente teórica. Segundo a Euronews, episódios recentes demonstram que mesmo falhas de curta duração podem causar perturbações significativas no acesso a pagamentos eletrónicos.
Neste contexto, o ministro das Finanças da Polónia, Andrzej Domański, sublinhou que a população já tem tendência para guardar parte das suas poupanças em dinheiro físico. Para muitos cidadãos, esta prática funciona como uma salvaguarda em situações inesperadas, desde falhas técnicas até crises mais amplas.
Habitantes de Varsóvia ouvidos pela Euronews revelaram preocupação com possíveis ciberataques, apagões ou tensões internacionais. Muitos admitem manter pequenas quantias em casa para garantir autonomia durante alguns dias ou semanas.
Dependência de sistemas internacionais preocupa Europa
Um dos fatores que reforça esta preocupação é a forte dependência europeia de operadores internacionais como Visa e Mastercard. Estima-se que cerca de dois terços das transações com cartão na zona euro dependam destas redes, o que levanta questões sobre segurança e soberania financeira.
Segundo a Euronews, em cenários extremos, como conflitos geopolíticos, o acesso a estes sistemas pode ser limitado, provocando disrupções generalizadas nos pagamentos.
O papel do euro digital
Para reduzir essa dependência, a União Europeia está a desenvolver o euro digital, uma forma de dinheiro público emitido pelo banco central. Este sistema permitirá pagamentos tanto online como offline, funcionando como complemento ao dinheiro físico.
No entanto, a adoção e compreensão deste novo instrumento ainda são limitadas entre os cidadãos. A implementação poderá acontecer a partir de 2029, caso a legislação necessária seja aprovada.
Novas regras para o uso de dinheiro
Paralelamente, a União Europeia prepara alterações às regras de circulação de dinheiro físico. A partir de 2027, deverão ser introduzidos limites às transações em numerário, com especial controlo sobre valores superiores a 10 mil euros.
Estas medidas visam combater o branqueamento de capitais, mas também geram debate. Por um lado, aumentam a segurança financeira; por outro, podem restringir a liberdade de utilização do dinheiro físico.
Um futuro híbrido para os pagamentos
O cenário que se desenha aponta para um modelo híbrido, onde diferentes formas de pagamento coexistem. Carteiras poderão integrar dinheiro físico, cartões bancários e moedas digitais, cada uma com funções específicas.
No meio desta transição, o dinheiro físico mantém um papel relevante como solução de recurso em momentos de crise. A questão já não é escolher entre digital ou numerário, mas garantir equilíbrio e resiliência num sistema financeiro cada vez mais complexo.



