A Europa está a acelerar a corrida pela autonomia digital e a infraestrutura física — da fibra ótica aos centros de dados e redes elétricas — pode tornar-se um dos maiores motores de investimento da próxima década. A conclusão é de uma análise da Allianz Global Investors, que defende que a soberania digital europeia dependerá menos da regulação e mais da capacidade de construir, controlar e operar as infraestruturas críticas que sustentam a economia digital.
No documento, assinado por Christophe Hautin e Julien Burki, a gestora argumenta que a transformação digital da Europa assenta em quatro pilares definidos pela União Europeia: infraestruturas digitais, digitalização das empresas, serviços públicos digitais e competências digitais.
Segundo os especialistas, a infraestrutura digital deixou de ser vista apenas como um setor tecnológico e passou a ser encarada como um “sistema estratégico”. Isso inclui redes de fibra e 5G, centros de dados, edifícios energeticamente eficientes, logística inteligente, redes de energia, automação industrial e sistemas de cibersegurança.
A análise sublinha que a União Europeia está a canalizar financiamento para estas áreas através de programas como o Connecting Europe Facility e o NextGenerationEU, criando um “forte impulso político” e um ciclo de investimento de longo prazo.
Os analistas destacam ainda que as operadoras de telecomunicações europeias estão a ganhar estatuto de infraestrutura crítica, numa altura em que Bruxelas pretende reduzir a dependência tecnológica de fornecedores externos e reforçar a segurança das redes digitais.
“A conectividade é a primeira condição para a autonomia”, defendem os autores, apontando que a capacidade de implementar redes 5G seguras e infraestruturas cloud será determinante para setores como transportes, energia, indústria e serviços públicos.
A AllianzGI alerta também para a importância crescente dos centros de dados e da eficiência energética. Com o aumento exponencial do volume de dados e da utilização de inteligência artificial, a Europa terá de expandir a capacidade de armazenamento e processamento local, conciliando simultaneamente objetivos digitais e ambientais.
Outro dos pontos centrais da análise é a digitalização da base industrial europeia. Segundo a gestora, o controlo dos sistemas digitais que suportam fábricas, utilities e cadeias logísticas será essencial para reduzir dependências externas e aumentar a resiliência económica perante choques geopolíticos.
A AllianzGI considera ainda que os chamados “ativos reais” — como centros de dados, infraestruturas energéticas e redes físicas — estão a tornar-se peças-chave da soberania digital europeia. “A questão já não é apenas quem fornece o software, mas onde está localizada a infraestrutura, sob que jurisdição opera e qual a sua capacidade de redundância e continuidade operacional”, refere a análise.
Para os investidores, a gestora identifica uma oportunidade estrutural ligada ao que descreve como os “3C”: capex, capability e control — investimento, capacidade operacional e controlo estratégico.
Segundo os autores, “o poder económico está cada vez mais concentrado em quem controla redes, infraestruturas e sistemas industriais”, defendendo que a capacidade da Europa para financiar, construir e operar a sua própria infraestrutura digital poderá transformar-se numa das maiores oportunidades de investimento associadas à autonomia estratégica europeia.





