Europa deveria, na verdade, “estar feliz” com Trump no comando, garante chefe da NATO

Rutte sublinhou que os Estados Unidos continuam fortemente empenhados na defesa europeia, com mais de 80 mil militares estacionados na Europa, incluindo na Polónia e na Alemanha

Francisco Laranjeira
Janeiro 21, 2026
13:43

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, afirmou esta quarta-feira que a reeleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos foi decisiva para obrigar os aliados da Aliança Atlântica a aumentarem os seus gastos com Defesa, defendendo que sem essa pressão política os compromissos financeiros assumidos pela Europa não teriam sido alcançados.

As declarações foram feitas em Davos, durante um painel do Fórum Económico Mundial dedicado à capacidade de defesa europeia, num momento de elevada tensão transatlântica, marcado pelas ameaças de Trump de anexar a Gronelândia à Dinamarca, cenário que poderá fragilizar seriamente a coesão da aliança militar.

“Não sou popular entre vocês por defender Donald Trump, mas acredito sinceramente que podem ficar satisfeitos por ele estar no poder, porque foi ele que nos obrigou, na Europa, a intensificar os nossos esforços e a assumir maior responsabilidade pela nossa própria defesa”, afirmou Rutte durante o debate.

Meta dos 2% só foi atingida com pressão americana

Segundo o secretário-geral da NATO, várias grandes economias europeias, incluindo Espanha, Itália e França, nunca teriam aceite destinar pelo menos 2% do PIB à defesa sem a pressão exercida por Trump. Rutte considerou que essa mudança representa um ponto de viragem estrutural no posicionamento europeu dentro da Aliança.

“Sem Donald Trump, isso não teria acontecido. Agora todos estão nos 2%”, afirmou, acrescentando que estas decisões são cruciais para que o pilar europeu e canadiano da NATO se torne mais robusto num contexto pós-Guerra Fria.

As declarações ganham especial relevo tendo em conta que os Países Baixos, país de origem de Rutte, foram frequentemente criticados por níveis insuficientes de investimento em Defesa durante os 14 anos em que liderou o Governo neerlandês, entre 2010 e 2024.

Guerra na Ucrânia acelerou reconfiguração estratégica europeia

A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, obrigou os países europeus a acelerar o aumento das despesas militares, num cenário em que se prepara também uma eventual redução da presença militar americana no continente, à medida que Washington ajusta as suas prioridades estratégicas.

Rutte sublinhou que os Estados Unidos continuam fortemente empenhados na defesa europeia, com mais de 80 mil militares estacionados na Europa, incluindo na Polónia e na Alemanha. Ainda assim, considerou legítimo que Washington espere um esforço crescente por parte dos aliados europeus, sobretudo tendo em conta o foco estratégico dos EUA na região da Ásia-Pacífico.

O secretário-geral da NATO destacou ainda que o guarda-chuva nuclear permanece como a garantia última da segurança coletiva da Aliança.

Nova meta de 5% do PIB até 2035

No verão passado, os aliados da NATO acordaram estabelecer uma nova meta de gastos em defesa equivalente a 5% do PIB até 2035. A exigência tinha sido inicialmente defendida por Donald Trump, que ao longo dos últimos anos repetidamente ameaçou abandonar a Aliança Atlântica, colocando em causa o modelo de segurança que sustenta a defesa europeia desde o final da II Guerra Mundial.

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