Por Mário Alves, CEO da LayerX
Bruxelas, março de 2031. Seis líderes europeus voam para Washington para decidir, à porta fechada, o destino do continente. Numa sala ao lado, uma jovem funcionária da Comissão Europeia assiste a tudo num ecrã, de mãos a tremer, com a certeza de que provavelmente nada do que disse vai contar.
Esta cena fecha “Europa 2031”, um cenário escrito por um grupo de investigadores europeus sobre o que acontece se a Europa continuar a tratar a inteligência artificial como a tratou até agora. É ficção. Mas a primeira parte da história, de janeiro de 2025 até hoje, não é. Já aconteceu. E é precisamente isso que a torna difícil de ignorar.
O enredo não tem vilões. Tem decisões razoáveis. Em 2025, a Europa convence-se de que o DeepSeek prova que dá para apanhar o comboio com pouco dinheiro. Anuncia 200 mil milhões de euros que, lidos com atenção, são quase todos fundos reciclados. Repete durante meses que a IA é uma bolha. Enquanto isso, os Estados Unidos investem mais de 400 mil milhões de dólares só em centros de dados, num único ano. O cenário projeta um fosso de capacidade de computação de mais de dez vezes entre os dois lados do Atlântico, que nunca mais fecha.
Esta dependência é fácil de reconhecer por dentro. Quem constrói produtos de IA em Portugal sabe que, sejamos honestos, quase tudo o que as equipas usam vem de fora da Europa. Os modelos, a infraestrutura, as ferramentas com que se escreve código. Não é por falta de vontade de comprar europeu. É porque, hoje, o que existe cá está atrás. A diferença entre uma empresa que adota estas ferramentas a sério e uma que as proíbe por receio é visível todos os dias. A primeira ganha velocidade. A segunda discute regulamento.
E é aqui que está a armadilha mais perigosa do cenário, a que devíamos ler com mais atenção. A Europa fictícia tenta responder com soberania, mas confunde soberania com isolamento. Obriga o setor público a usar apenas tecnologia europeia, que é pior, e os primeiros a sofrer são exatamente os que cumpriram as regras. Quando chega a vaga de ataques informáticos, ficam reféns. A lição é dura: fechar portas não nos torna mais soberanos, torna-nos mais frágeis.
Soberania a sério é outra coisa. É ter capacidade instalada em solo europeu, ancorada na nossa lei, que nenhuma potência consiga cortar com seis horas de aviso. E para isso, diz o próprio cenário no seu epílogo, não basta dinheiro. É preciso velocidade. Reduzir o licenciamento de centros de dados de dois anos para três meses. Criar zonas especiais com energia, ligação à rede e equipas dedicadas a tratar do resto. Trazer os grandes operadores para construir cá, mas com a infraestrutura presa ao nosso chão.
Portugal tem cartas para jogar nesta mesa. Temos energia renovável, temos localização atlântica, temos talento que continua a sair porque cá dentro não encontra escala. Podíamos ser dos sítios mais atrativos da Europa para instalar computação. Mas isso exige decidir que queremos ganhar isto, e não apenas geri-lo com prudência.
A parte do cenário que mais fica não é económica. É sobre coragem. No final, a funcionária da Comissão percebe que o problema nunca foi falta de inteligência. Os líderes que perceberam o que aí vinha não tiveram coragem de gastar capital político em algo que os eleitores não percebiam e que só daria frutos anos depois. Esperaram pelo momento certo. O momento certo nunca chega.
Já provámos o contrário. Na pandemia, fechámos países e aprovámos uma vacina em tempo recorde. Depois da invasão da Ucrânia, construímos terminais de gás e mudámos a nossa matriz energética em meses. Quando percebemos que o nosso futuro dependia de quebrar as regras, quebrámo-las. Soubemos agir com a urgência de quem está em guerra. A questão é se vamos esperar por uma crise para perceber que já estamos numa.
Falta-nos ainda uma coisa que o cenário diagnostica bem: uma visão positiva. Passámos anos a dizer o que íamos perder. Quase nunca dissemos como seria a versão boa deste futuro. Não se pede a um país que aceite anos de mudança difícil só para evitar que as coisas piorem. Pede-se mostrando o que se ganha.
A boa notícia é que, em 2026, a janela ainda não fechou. O cenário é um aviso, não uma profecia. Mas avisos só servem para alguma coisa se mudarem o que fazemos a seguir. Para Portugal e para a Europa, isso significa decidir, agora, que a IA é uma prioridade da escala da defesa ou da energia. Não daqui a um ano. Agora.
Caso contrário, daqui a seis anos podemos ser nós a olhar para o espelho, de mãos a tremer, a perceber que vimos tudo isto chegar e não fizemos nada.




