Os EUA reuniram um grupo de países aliados para lançar a Pax Silica, uma nova iniciativa estratégica destinada a garantir as cadeias globais de abastecimento de inteligência artificial, minerais críticos e tecnologias avançadas, num contexto de crescente concorrência tecnológica com a China. O programa visa reforçar a resiliência tecnológica, coordenar investigação e desenvolvimento e formar uma força de trabalho capaz de sustentar inovações consideradas críticas para as economias modernas.
A iniciativa surge como uma resposta coordenada ao rápido avanço da China nas áreas da inteligência artificial, dos semicondutores e de outras tecnologias estratégicas, impulsionado por investimentos estatais e pela forte capacidade industrial de Pequim. Washington procura, assim, reduzir vulnerabilidades associadas à dependência excessiva de cadeias de fornecimento dominadas pela China.
O subsecretário de Estado norte-americano para os Assuntos Económicos, Jacob Helberg, descreveu a Pax Silica como o início de “uma nova era dourada” de cooperação internacional em matéria de inteligência artificial e segurança das cadeias de abastecimento. O responsável sublinhou a importância de uma ação coletiva entre parceiros de confiança para enfrentar ameaças tecnológicas emergentes e proteger sectores essenciais para a segurança económica e nacional.
Estrutura da aliança inclui membros centrais e participantes convidados
A Pax Silica foi estruturada com um núcleo de países membros centrais, complementado por contribuidores convidados, cada um com competências específicas consideradas estratégicas para o funcionamento da aliança.
Entre os membros centrais, o Japão assume um papel de liderança na investigação de algoritmos de inteligência artificial e no design de semicondutores, enquanto a Coreia do Sul aposta na expansão da sua capacidade de produção de chips. Singapura ficará responsável pela coordenação de infraestruturas de IA e pela troca transfronteiriça de dados, e os Países Baixos reforçam a produção de semicondutores e a resiliência logística.
O Reino Unido contribui para a inovação em materiais avançados e hardware de IA, Israel especializa-se em aplicações de cibersegurança baseadas em inteligência artificial, e os Emirados Árabes Unidos investem em aplicações industriais de IA e no acesso a minerais críticos. A Austrália, por sua vez, assegura o fornecimento de minerais estratégicos e estabelece parcerias em investigação científica.
A aliança conta ainda com participantes convidados que fornecem conhecimento técnico, aconselhamento político e alinhamento regulatório. Taiwan partilha a sua experiência na produção de semicondutores e no design de chips avançados, enquanto a União Europeia contribui para a coordenação de quadros regulatórios e normas tecnológicas transfronteiriças.
O Canadá disponibiliza recursos minerais críticos e apoia iniciativas de investigação em inteligência artificial. Já a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) oferece orientação política, boas práticas e mecanismos de comparação internacional para reforçar a segurança das cadeias de abastecimento.
Semicondutores no centro da estratégia
Os semicondutores são identificados como o pilar fundamental dos sistemas modernos de eletrónica e inteligência artificial. A Pax Silica dá prioridade ao reforço da produção, à diversificação de fornecedores e à proteção das cadeias de abastecimento, com o objetivo de reduzir a dependência de um único país, em particular da China.
As perturbações registadas durante a pandemia de covid-19, que provocaram escassez global de chips, são apontadas como um alerta para a necessidade urgente de criar infraestruturas cooperativas e resilientes no sector das tecnologias críticas.
A investigação e desenvolvimento conjuntos estão no centro da iniciativa. Ao reunir recursos e conhecimento entre os países participantes, a Pax Silica pretende acelerar descobertas em inteligência artificial e tecnologias associadas, garantindo que os avanços são partilhados de forma eficiente entre os membros da aliança.
O programa inclui ainda iniciativas educativas e de formação transfronteiriça, destinadas a criar uma força de trabalho altamente qualificada capaz de sustentar tecnologias avançadas e preservar uma vantagem competitiva face ao sector tecnológico chinês, em rápida expansão.
Desafios estratégicos e riscos geopolíticos
Apesar das ambições, a Pax Silica enfrenta desafios significativos. A coordenação de políticas entre países com sistemas regulatórios e prioridades económicas distintas exige uma governação forte e mecanismos diplomáticos eficazes. Existe também o risco de a China interpretar a iniciativa como uma tentativa de contenção estratégica, o que poderá intensificar tensões geopolíticas.
Manter a coesão interna e evitar a fragmentação do mercado tecnológico global será um dos principais testes à credibilidade e eficácia da aliança.
Nos próximos meses, a iniciativa deverá avançar com projetos conjuntos de investigação, investimentos em semicondutores e minerais críticos e programas de desenvolvimento de competências. A coordenação entre os membros centrais e o aproveitamento da experiência dos participantes convidados são vistos como essenciais para garantir cadeias de abastecimento seguras, fomentar a inovação e reforçar a liderança tecnológica dos aliados.
A cimeira de dezembro marca apenas o primeiro passo de uma estratégia de longo prazo, destinada a criar um ecossistema colaborativo e resiliente para as tecnologias críticas, num cenário de crescente rivalidade global com a China.














