Os Estados Unidos reafirmaram de forma inequívoca a soberania de Espanha sobre Ceuta e Melilla, mas aproveitaram o esclarecimento para lançar um novo e duro ataque ao Governo de Pedro Sánchez, responsabilizando-o diretamente pela crise migratória que atingiu Ceuta no final de julho.
Numa publicação nas redes sociais citada pelo jornal espanhol ’20 Minutos’, o Departamento de Estado classificou o que aconteceu na cidade autónoma como uma “invasão de dezenas de milhares de migrantes” e considerou-a uma consequência direta daquilo que descreveu como a “recusa vergonhosa do Governo espanhol” em defender a soberania, as fronteiras e a população do país.
Washington esclarece: Ceuta e Melilla são espanholas
A posição surgiu depois de dúvidas sobre a política dos Estados Unidos relativamente às duas cidades autónomas, alimentadas por um relatório do Congresso que descrevia Ceuta e Melilla como cidades administradas por Espanha, mas situadas em “território marroquino”.
Washington procura agora afastar qualquer ambiguidade. Tommy Pigott, porta-voz do Departamento de Estado, garantiu ao ‘POLITICO’ que “os Estados Unidos apoiam inequivocamente a soberania de Espanha sobre Ceuta e Melilla” e esclareceu que aquele relatório não representa a posição jurídica do Governo dos EUA.
O esclarecimento, porém, veio acompanhado de críticas particularmente duras a Madrid. Segundo Pigott, aqueles que em Espanha questionaram o apoio de Washington à soberania espanhola são “atores nefastos” que procuram desviar as atenções da resposta do Executivo de Sánchez à crise.
“Recusa vergonhosa” em defender as fronteiras
O Departamento de Estado sustenta que a entrada de dezenas de milhares de pessoas em Ceuta foi consequência da política migratória seguida pelo Governo espanhol, acusando Madrid de não proteger adequadamente as suas fronteiras.
“Este incidente inaceitável é uma consequência direta dos esforços deliberados do Governo espanhol para permitir e facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”, afirmou o Departamento de Estado, numa declaração também partilhada pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
Segundo o ’20 Minutos’, a posição americana voltou a não fazer qualquer referência crítica a Marrocos, aliado estratégico de Washington e país de onde partiram os migrantes que atravessaram a fronteira para Ceuta.
Trump já tinha falado numa “catástrofe”
O novo ataque mantém a linha seguida pela Administração Trump desde que a crise começou, em 30 de julho. No dia seguinte à entrada irregular de dezenas de milhares de pessoas, Donald Trump classificou a situação como uma “catástrofe” e uma “invasão”, acusando as autoridades espanholas de não saberem como reagir.
“Quando se olha para o que aconteceu em Espanha, eles não sabem o que fazer”, afirmou então o Presidente dos Estados Unidos, acrescentando que estavam a entrar pessoas “às dezenas de milhares”.
Trump aproveitou ainda a crise espanhola para a transportar para o debate político interno dos Estados Unidos, argumentando que algo semelhante poderia acontecer no seu país caso os republicanos não mantivessem o poder.
JD Vance também apontou à esquerda
O vice-presidente JD Vance adotou uma linha semelhante. Nas redes sociais, utilizou as imagens provenientes de Ceuta para atacar as políticas migratórias progressistas, considerando-as um exemplo das consequências da “imigração em massa” e das políticas “globalistas da esquerda radical”.
A nova intervenção de Washington surge num momento particularmente delicado para Espanha. Madrid está simultaneamente envolvida num confronto com Itália, depois de Roma ter reintroduzido controlos sobre viajantes provenientes de território espanhol na sequência da crise de Ceuta.
O Governo de Sánchez deu a Itália até ao final deste domingo para retirar essas medidas, ameaçando responder com medidas “proporcionais” caso Roma não recue.
Apoio à soberania, confronto com Sánchez
A posição americana deixa, assim, duas mensagens distintas. No plano diplomático, Washington procura eliminar as dúvidas e afirma claramente que reconhece a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla.
No plano político, porém, a Administração Trump intensifica o confronto com Pedro Sánchez e atribui ao próprio Governo espanhol responsabilidade pela dimensão da crise.
Ceuta transforma-se, desta forma, em mais um ponto de tensão entre Madrid e Washington: os Estados Unidos reconhecem que a cidade é espanhola, mas acusam o Governo de Espanha de não ter sido capaz de a proteger.



















