EUA e Irão recuam da escalada militar com cessar-fogo condicionado. O que esperar da frágil trégua?

Num único dia marcado por tensão extrema, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou de uma ameaça devastadora a um anúncio de distensão.

Pedro Gonçalves

Num único dia marcado por tensão extrema, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou de uma ameaça devastadora a um anúncio de distensão. Depois de advertir que “toda a civilização [iraniana] morrerá esta noite”, declarou ser uma “honra ter este problema de longa data próximo de uma resolução”. A mudança ocorreu menos de duas horas antes do prazo fixado por Washington para que a República Islâmica reabrisse o Estreito de Ormuz ou enfrentasse bombardeamentos que a fariam regressar “à idade da pedra”.

À beira de uma nova fase de guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão — conflito iniciado a 28 de fevereiro — Trump aceitou um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à reabertura imediata daquela via marítima estratégica. O bloqueio de facto do estreito desencadeara a maior crise energética em décadas, elevando o preço da gasolina nos Estados Unidos para mais de quatro dólares por galão e agravando a pressão política sobre a Casa Branca.

Pouco depois do anúncio norte-americano, o regime iraniano confirmou ter aceite a trégua e comprometeu-se a permitir a passagem segura através do estreito “mediante coordenação” com as forças armadas iranianas — precisamente as que controlavam o bloqueio.

Trégua frágil após ameaças de escalada
No momento decisivo, tanto Washington como Teerão recuaram, quando tudo indicava que a confrontação poderia escalar para um nível mais perigoso. Ainda assim, trata-se de uma trégua frágil e não de um acordo de paz definitivo entre dois adversários marcados por quase meio século de hostilidade e desconfiança.

Matthew Savill, director de ciências militares do centro de estudos Rusi, sintetizou a situação ao afirmar que “as posições iniciais estão muito afastadas, mas são apenas posições iniciais”. Considerou ainda que Trump é “bastante flexível” e que os iranianos “podem ter de aceitar alguns compromissos porque estão muito debilitados”. Para o analista, “todas as opções estão em cima da mesa”: desde “algum tipo de acordo de compromisso”, ao “retomar de combates significativos”, ou mesmo “uma discussão arrastada e confusa em que cada parte declara vitória, mas o que regressa é uma confrontação de baixa intensidade”.

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Trump, que lançou a ofensiva ao lado do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, deverá reivindicar que a sua estratégia de pressão levou à reabertura do estreito, à descida dos preços da energia e à recuperação dos mercados. No entanto, críticos recordam que o ponto nevrálgico do Golfo funcionava normalmente antes do início do conflito.

Teerão aceita negociar após semanas de bombardeamentos
O regime iraniano acabou por aceitar algo que reiteradamente rejeitara: um cessar-fogo temporário e a reabertura do estreito — o seu principal instrumento de pressão — sem garantias de fim permanente da guerra, indemnizações ou levantamento imediato de sanções.

A decisão surge após semanas de intensos bombardeamentos. Estados Unidos e Israel terão atingido dezenas de milhares de alvos. Nos últimos dias, ataques israelitas atingiram infraestruturas industriais estratégicas, incluindo siderurgias, instalações petroquímicas, institutos de investigação, pontes e linhas ferroviárias. Trump ameaçara ainda destruir todas as centrais eléctricas iranianas caso o estreito não fosse reaberto.

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Outro factor determinante para Teerão terá sido a aceitação, pelo menos provisória, por parte de Washington, de um plano iraniano de dez pontos para alcançar uma solução permanente. Trump classificou-o como uma “base viável para negociações”.

Segundo a versão iraniana, o plano inclui o levantamento total das sanções, o desbloqueio das receitas petrolíferas congeladas no estrangeiro, a retirada das forças norte-americanas da região e o fim da guerra de Israel contra o Hezbollah no Líbano — ponto já contestado por Israel. Inclui ainda a “passagem regulada” pelo estreito sob coordenação militar iraniana.

Antes da guerra, tais exigências teriam sido vistas como irrealistas. Agora, o Presidente norte-americano — que concentrou na região a maior força militar dos EUA em décadas e exigira a “rendição incondicional” do regime — aparenta disponibilidade para discutir essas condições. Na sua publicação na rede Truth Social a anunciar o cessar-fogo, Trump afirmou que “quase todos os pontos de discórdia do passado foram acordados”.

Curiosamente, não fez referência ao programa nuclear iraniano nem ao arsenal de mísseis, que tinham sido apresentados como principais justificações para o início da guerra. Declarou também que os objectivos militares dos EUA tinham sido alcançados, apesar de o Irão ter mantido o estreito sob pressão e lançado mísseis e drones contra alvos no Golfo e em Israel.

Estados do Golfo entre alívio e incerteza
Os aliados árabes de Washington, que sofreram os efeitos das retaliações iranianas, respiram agora com algum alívio, esperando que a ameaça às suas infraestruturas energéticas tenha diminuído. Países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, embora tenham aconselhado Trump a não iniciar o conflito, desejavam que, uma vez iniciado, a capacidade iraniana de mísseis e drones fosse suficientemente degradada para neutralizar a ameaça.

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Ao mesmo tempo, temem que um eventual recuo norte-americano deixe na região um regime enfraquecido, mas mais militarizado. Preocupam-nos igualmente cenários em que Teerão retenha algum controlo ou imponha taxas de passagem no estreito, vital para as exportações energéticas e o comércio regional.

As negociações, mediadas pelo Paquistão, deverão começar em Islamabad na sexta-feira. O regime iraniano advertiu que participará com “desconfiança” em relação aos Estados Unidos, sustentando que Washington “se rendeu à determinação da nação iraniana” após os ataques das duas forças armadas mais poderosas do mundo.

Mesmo que Trump aceite concessões, o Irão enfrenta uma situação interna frágil, marcada por uma crise de legitimidade e por uma economia profundamente afectada. Após a guerra de 12 dias travada com Israel em junho do ano passado, o breve surto de nacionalismo dissipou-se rapidamente, dando lugar a protestos massivos em dezembro e janeiro, motivados por dificuldades económicas agravadas pelo conflito e reprimidos com violência.

Sanam Vakil, da Chatham House, resume o cenário: “A capacidade do Irão de permanecer intacto e retaliar pode ter reforçado a sua posição negocial”, mas sublinha que “não há vencedores. Todos perderam nesta guerra”.

A trégua pode ter evitado o pior. Mas a desconfiança permanece intacta, e o equilíbrio alcançado continua precário.

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