Os Estados Unidos e o Irão dão hoje início a negociações diretas em Islamabad, num momento considerado crítico para o futuro do conflito no Médio Oriente. O diálogo surge após um cessar-fogo de duas semanas anunciado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, e aceite por Teerão, abrindo uma janela diplomática inédita entre os dois países.
Apesar do início das conversações, o regime iraniano já deixou claro que estas negociações não significam o fim da guerra, mantendo um tom de cautela e desconfiança em relação a Washington.
O Conselho Supremo de Segurança do Irão confirmou que os encontros arrancam esta sexta-feira, podendo prolongar-se por um período inicial de até 15 dias, com possibilidade de extensão mediante acordo entre as partes.
A trégua foi condicionada à reabertura “completa, imediata e segura” do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas energéticas globais, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial.
O bloqueio parcial imposto por Teerão após os ataques dos EUA e de Israel, a 28 de fevereiro, provocou perturbações no comércio internacional, subida dos preços do petróleo e escassez de combustíveis em várias regiões do mundo.
Proposta iraniana de 10 pontos serve de base às negociações
As negociações baseiam-se numa proposta de 10 pontos apresentada pelo Irão e considerada por Donald Trump como uma “base viável” para alcançar um acordo.
Segundo o líder norte-americano, os Estados Unidos já “cumpriram e ultrapassaram” os seus objetivos militares e estão “muito avançados” na obtenção de um acordo definitivo para uma “paz duradoura” com o Irão. Trump acrescentou ainda que as partes concordam em “quase todos os pontos de discórdia”, esperando que o período de duas semanas permita finalizar o entendimento.
Entre as exigências de Teerão destacam-se o levantamento de todas as sanções impostas pelos EUA — incluindo as em vigor desde a presidência de George W. Bush —, a retirada das forças militares norte-americanas das bases no Médio Oriente e compensações pelos danos causados pela guerra.
A proposta prevê ainda a libertação de ativos iranianos congelados no estrangeiro e a formalização de qualquer acordo através de uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Irão garante passagem segura no estreito de Ormuz
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, confirmou que Teerão aceitou o cessar-fogo e garantiu que, durante este período, será possível transitar de forma “segura” pelo Estreito de Ormuz, em coordenação com as forças armadas iranianas.
Na mesma declaração, o responsável assegurou que, caso os ataques contra o Irão sejam interrompidos, “as nossas poderosas forças armadas cessarão as suas operações defensivas”, sublinhando, no entanto, que o país permanece preparado para responder “com toda a força” a qualquer incidente.
O Conselho de Segurança iraniano reforçou que aceita negociar “com total desconfiança em relação à parte americana”.
Paquistão assume papel central na mediação
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, confirmou que as partes concordaram com um cessar-fogo imediato “em todas as frentes, incluindo o Líbano e outras regiões”, classificando a medida como “efetiva imediatamente”.
Sharif agradeceu aos dois países e formalizou o convite para que as delegações se reúnam em Islamabad, com o objetivo de alcançar “um acordo conclusivo para resolver todas as disputas”.
Israel aceita trégua, mas mantém operações no Líbano
Uma fonte da Casa Branca indicou que Israel também aceitou suspender temporariamente os ataques contra o Irão durante o período de negociações. No entanto, o cessar-fogo não se estende às operações militares israelitas no Líbano, onde continuam as ações contra grupos armados.
O conflito alargou-se nas últimas semanas, com a intervenção de aliados do Irão, como o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen, que lançaram ataques contra Israel, aumentando a instabilidade na região.
Negociações sob alta tensão e impacto global
Apesar da abertura diplomática, o cenário permanece altamente volátil. O controlo e a segurança do Estreito de Ormuz continuam a ser um dos pontos mais sensíveis, dado o seu impacto direto no abastecimento energético global.
As negociações que hoje arrancam em Islamabad representam, assim, uma oportunidade rara para reduzir tensões, mas decorrem num contexto de profunda desconfiança e com riscos significativos de escalada caso falhem.




