EUA copiam táticas de Rússia, China e Irão e têm ‘frota fantasma’ para manter petróleo a sair do estreito de Ormuz

Os Estados Unidos estão a recorrer a métodos habitualmente associados a países sujeitos a sanções internacionais, como Rússia, China, Coreia do Norte ou o próprio Irão, para manter o fluxo de petróleo através do estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo.

Pedro Zagacho Gonçalves

Os Estados Unidos estão a recorrer a métodos habitualmente associados a países sujeitos a sanções internacionais, como Rússia, China, Coreia do Norte ou o próprio Irão, para manter o fluxo de petróleo através do estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo. Segundo uma investigação da Reuters, o Exército norte-americano supervisionou dezenas de transferências clandestinas de petróleo entre navios no golfo de Omã, numa tentativa de minimizar os impactos da crise desencadeada pela guerra na região e pelas restrições à navegação.

A operação assenta em transferências de petróleo de navio para navio, uma prática frequentemente utilizada por países que procuram contornar sanções internacionais ou ocultar a origem das cargas transportadas. De acordo com a Reuters, os principais pontos de transbordo localizam-se ao largo de Fujeira, nos Emirados Árabes Unidos, e nas proximidades do porto omanita de Sohar. As operações terão começado no início de maio e envolveram já pelo menos 92 embarcações.

Operação decorre sob supervisão militar norte-americana
Segundo fontes citadas pela agência noticiosa, as operações são acompanhadas de perto pelas forças armadas dos Estados Unidos. Os navios petroleiros deslocam-se até pontos de encontro próximos da entrada do estreito de Ormuz, cruzando a zona de forma escalonada para manter distâncias de segurança entre três e quatro quilómetros.

Durante estas travessias, os navios navegam com os transponders desligados e sem iluminação exterior, numa tentativa de reduzir a exposição a eventuais ataques. Uma fonte com conhecimento direto da operação afirmou à Reuters que “os norte-americanos estão obviamente a observar tudo o tempo inteiro”, acompanhando os movimentos dos navios ao longo dos vários pontos de passagem definidos.

Depois de ultrapassarem a zona de controlo exercida pelo Irão, os petroleiros mais pequenos transferem o petróleo para grandes superpetroleiros de transporte de crude, conhecidos como VLCC (Very Large Crude Carriers). Cada operação de transferência pode demorar entre 24 e 40 horas. Concluído o processo, os navios descarregados regressam ao estreito, enquanto os superpetroleiros seguem para os mercados internacionais.

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Zona de elevado risco militar
As transferências ocorrem numa área particularmente sensível, situada junto à entrada do estreito de Ormuz e próxima da linha de controlo definida pela Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, organismo criado pelo Irão para supervisionar o tráfego marítimo na região.

Segundo a Reuters, embarcações que ignorem as instruções desta autoridade correm o risco de serem alvo de drones ou mísseis da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana.

Os riscos não são meramente teóricos. No último fim de semana, o grupo britânico de gestão de riscos marítimos Vanguard informou que um “projétil de origem desconhecida” atingiu um petroleiro ao largo de Omã. Também a zona portuária de Fujeira e vários navios fundeados naquela área foram alvo de ataques nas últimas semanas.

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Fontes militares indicaram ainda que o helicóptero Apache abatido pelo Irão a 9 de junho participava numa missão de vigilância relacionada com estas operações de transferência. Imagens de satélite analisadas pela Reuters mostraram seis pares de navios petroleiros agrupados numa pequena área próxima de Sohar precisamente no dia em que ocorreu o incidente.

Estratégia surge após bloqueios no estreito de Ormuz
Segundo a investigação, estas operações fazem parte dos esforços da administração de Donald Trump para restabelecer parcialmente o fluxo petrolífero na região, fortemente afetado desde o início da operação militar designada “Fúria Épica”.

A circulação de petróleo foi severamente condicionada pelo encerramento de facto do estreito de Ormuz por parte do Irão e pelo bloqueio dos portos iranianos determinado pelos Estados Unidos.

A própria Reuters revelou anteriormente, a 20 de maio, que Teerão criou um sistema alternativo para orientar navios por rotas controladas pelo Irão, incluindo postos de controlo em ilhas estratégicas, acordos diplomáticos e, em alguns casos, cobrança de taxas de passagem.

Método utilizado há anos pelo Irão
A técnica de transferência entre navios não é nova. O Irão utiliza-a há vários anos para ocultar a origem do petróleo exportado e contornar sanções internacionais. Contudo, especialistas sublinham que existe uma diferença significativa entre as operações iranianas e as atualmente conduzidas sob supervisão norte-americana.

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Enquanto Teerão normalmente recorre a um número reduzido de embarcações para evitar deteção, a operação agora em curso envolve transferências em grande escala destinadas a proteger os produtores do Golfo Pérsico contra possíveis represálias iranianas e garantir a continuidade das exportações de petróleo bruto, derivados e outros hidrocarbonetos.

Com base em imagens de satélite e na capacidade de carga dos navios envolvidos, a Reuters estima que cerca de 90 milhões de barris de petróleo e produtos petrolíferos tenham sido transportados através deste sistema desde o início de maio.

Ainda assim, os números permanecem muito abaixo dos níveis registados antes do conflito. Antes da guerra, transitavam pela região cerca de 20 milhões de barris por dia.

Especialistas alertam para perigos e ironias da operação
A utilização destas técnicas por Washington não passou despercebida aos analistas internacionais.

Michael Froman, presidente do Council on Foreign Relations, considerou particularmente simbólico o recurso dos Estados Unidos a métodos tradicionalmente associados aos seus adversários. “É irónico que os Estados Unidos estejam a imitar o manual estratégico da China, Rússia, Coreia do Norte e até do Irão, cujas chamadas ‘frotas fantasma’ foram pioneiras nestas técnicas precisamente para contornar as sanções dos EUA e das Nações Unidas”, afirmou.

Também Noam Raydan, especialista em riscos marítimos do Washington Institute, alertou para a vulnerabilidade da operação. Segundo o analista, “simplesmente não se sabe quando o Irão poderá decidir utilizar drones ou embarcações rápidas para impedir que mesmo estes navios atravessem o estreito”.

Além das ameaças militares, os especialistas apontam riscos de navegação. O facto de os navios circularem à noite, com sistemas de identificação desligados e sem iluminação, aumenta significativamente o perigo de colisões e acidentes marítimos.

Operadores internacionais envolvidos
Diversas empresas internacionais participam no esquema logístico montado para garantir o transporte de petróleo.

Uma delas é a grega Dynacom Tankers Management. O fundador da empresa, George Procopiou, afirmou recentemente que o setor teve de encontrar “formas criativas” para continuar a transportar petróleo através do estreito desde o início da guerra.

Numa conferência realizada em Atenas, a 1 de junho, Procopiou defendeu que “a liberdade de navegação é essencial e ninguém pode impor portagens nem qualquer outro tipo de taxa”. Acrescentou ainda que “a Grécia tem tradição de quebrar bloqueios desde a Antiguidade”, evitando, contudo, entrar em detalhes sobre as operações em curso.

Segundo a Reuters, as empresas que pretendem participar neste sistema têm de passar por um rigoroso processo de verificação conduzido através do gabinete de Cooperação Naval e Orientação para o Transporte Marítimo da Marinha norte-americana, sediado no Bahrein.

Os operadores são obrigados a fornecer históricos completos de localização geográfica dos navios, informações sobre os verdadeiros proprietários das embarcações, detalhes da carga transportada e autorização para eventuais análises aos produtos.

Após aprovação, recebem janelas específicas para atravessar o estreito e mantêm contacto permanente com as autoridades militares norte-americanas durante toda a viagem.

Solução vista como temporária
Os registos de navegação analisados pela Reuters mostram que uma parte substancial das operações envolve exportações provenientes dos Emirados Árabes Unidos. A petrolífera estatal ADNOC surge como uma das participantes mais ativas nas transferências supervisionadas pelos Estados Unidos.

Também a Kuwait Oil Tanker Company tem desempenhado um papel relevante. Num dos dias de maior atividade, a 6 de junho, cerca de 2,3 milhões de barris de crude foram transferidos a partir de uma das suas embarcações ao largo de Sohar.

Apesar da dimensão da operação, os especialistas consideram que esta não constitui uma solução permanente para a crise em Ormuz.

“No fundo, trata-se de uma solução temporária para tempos excecionais”, resume Noam Raydan, admitindo que a continuidade do sistema dependerá da evolução da situação militar e política numa das regiões mais estratégicas para o abastecimento energético mundial.

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