Estudo mostra 10.000 anos de desigualdade de género na alimentação na Europa

Um estudo divulgado na terça-feira mostra significativas desigualdades de género no consumo de alimentos na Europa nos últimos 10.000 anos, com as mulheres a consumirem consistentemente menos proteína animal do que os homens.

Executive Digest com Lusa

Um estudo divulgado na terça-feira mostra significativas desigualdades de género no consumo de alimentos na Europa nos últimos 10.000 anos, com as mulheres a consumirem consistentemente menos proteína animal do que os homens.

“Historicamente e etnograficamente documentado como mais comum entre os homens do que entre as mulheres”, o consumo de carne está “frequentemente associado a noções de poder e controlo”, observam os autores deste estudo publicado na revista PNAS Nexus.

Embora existam diferenças entre o período do Neolítico, a Idade do Bronze ou a Idade Média, “um facto permanece constante: os homens estão sistematicamente sobrerrepresentados entre os indivíduos com maior acesso à proteína animal, enquanto as mulheres são mais numerosas nos grupos menos privilegiados”, segundo o texto da agência noticiosa France-Presse sobre o estudo.

Para medir as desigualdades alimentares, a equipa internacional de investigadores analisou os ossos de mais de 12.000 indivíduos de 673 sítios arqueológicos de mais de 40 países da Europa Ocidental e da bacia do Mediterrâneo, procurando marcadores químicos preservados no colagénio.

A autora principal do estudo, Rozzenn Colleter, explicou à AFP que os cientistas analisaram “isótopos estáveis que registam as proteínas animais e vegetais que um indivíduo consumiu ao longo da vida”, os de azoto a ingestão de proteínas animais e os de carbono a de determinados tipos de plantas.

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“Ao combinar o azoto e o carbono, podemos determinar se o indivíduo era principalmente carnívoro, omnívoro ou vegetariano”, acrescentou a arqueoantropóloga do Instituto Nacional de Investigação Arqueológica Preventiva (Inrap), em França.

Para ultrapassar as dificuldades de comparar valores isotópicos “que dependem também do ambiente local, das práticas agrícolas e do clima”, entre outros fatores, a investigadora recorreu a uma ferramenta nova na arqueologia: o índice interdecil.

Este indicador estatístico é utilizado na economia para calcular, por exemplo, a desigualdade de rendimentos, medindo a diferença entre os 10% mais ricos (decil) e os 10% mais pobres.

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“Graças a esta ferramenta, a equipa conseguiu, pela primeira vez, traçar a evolução da desigualdade alimentar na Europa de forma comparável, desde o Paleolítico Superior até ao século XVIII, um período de aproximadamente 10.000 anos”, indica a AFP.

Rozzenn Colleter assinalou que as mulheres estão “no decil inferior e, por isso, subnutridas, desde os primeiros caçadores-recoletores” que conseguiram estudar até à era moderna.

Os arqueólogos consideram que as disparidades não podem ser explicadas por diferenças biológicas, pois variam bastante de acordo com os períodos e as culturas, com diferenças marcantes no Neolítico e na Idade Média e muito menos durante a Antiguidade.

“Embora esta tendência tenha sido frequentemente sugerida, o nosso estudo fornece, pela primeira vez, evidências quantitativas em grande escala”, concluem os autores, acrescentando que as desigualdades alimentares baseadas no género “podem estar enraizadas em várias práticas culturais, como tabus alimentares, crenças cosmológicas, perceções erradas sobre as necessidades proteicas e normas sociais que favorecem a privação das mulheres em benefício dos homens”.

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