Estratégia polémica na esquerda francesa: Documento secreto recomenda que não aposte em eleitores pobres nas presidenciais

Uma nota interna classificada como confidencial está a agitar pré-campanha presidencial do eurodeputado francês Raphaël Glucksmann.

Pedro Zagacho Gonçalves

Uma nota interna classificada como confidencial está a agitar pré-campanha presidencial do eurodeputado francês Raphaël Glucksmann, ao recomendar que a sua equipa limite os esforços para conquistar eleitores da classe trabalhadora e de menores rendimentos.

O documento, a que o jornal Politico teve acesso, traça um retrato detalhado dos segmentos eleitorais considerados mais favoráveis ao candidato, que deverá anunciar em breve a sua candidatura às eleições presidenciais do próximo ano, destinadas a escolher o sucessor do Presidente cessante Emmanuel Macron.

Com 46 anos, Glucksmann é apontado como um dos nomes mais fortes da esquerda moderada e surge nas sondagens com hipóteses reais de alcançar a segunda volta, disputando um lugar contra candidatos da extrema-direita como Marine Le Pen e Jordan Bardella.

Eleitorado preferencial e grupos a evitar
O memorando identifica como eleitorado prioritário os trabalhadores qualificados, com formação superior, rendimento confortável, idade superior a 50 anos ou reformados, que se identificam com o Partido Socialista ou se posicionam no centro-esquerda. Glucksmann é descrito como um social-democrata moderado, pró-europeu convicto e com posições diferenciadoras face à esquerda tradicional, nomeadamente no apoio à reforma das pensões.

Em contraste, o documento recomenda evitar “por agora” certos grupos considerados “mais difíceis de mobilizar”, incluindo jovens entre os 18 e os 25 anos, pais solteiros e cidadãos com rendimentos mais baixos.

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A nota interna aconselha ainda a não investir excessivamente na conquista de eleitores residentes nos subúrbios mais pobres e multiculturais das grandes cidades francesas, onde vivem comunidades com forte presença imigrante e que tendem a apoiar o líder da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon, que anunciou a sua candidatura no início deste mês.

Risco de reforçar imagem elitista
A divulgação do documento ameaça reforçar a perceção de que Glucksmann pertence a uma elite desligada das preocupações da classe média e dos setores populares. O eurodeputado é frequentemente associado a meios intelectuais e mediáticos — é filho de um filósofo conhecido e companheiro de uma jornalista de grande notoriedade em França — o que tem alimentado críticas quanto ao seu afastamento das realidades sociais mais duras.

Face à polémica, a equipa de campanha procurou minimizar o impacto da fuga de informação. O estratega Mathieu Lefèvre-Marton, autor do memorando, afirmou que se tratava apenas de um “documento de trabalho” e garantiu que o próprio Glucksmann rejeitou as conclusões que sugeriam evitar determinados segmentos do eleitorado.

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Segundo Lefèvre-Marton, o candidato defende a importância de “falar com todos”, incluindo “aqueles que não votam na esquerda”.

Estratégias opostas na esquerda
As sondagens colocam atualmente Glucksmann e Mélenchon como os principais rostos da esquerda na corrida presidencial, embora o cenário possa sofrer alterações significativas até às eleições da próxima primavera.

As estratégias delineadas por ambos prometem ser profundamente distintas. Glucksmann deverá tentar consolidar o eleitorado da esquerda moderada e captar eleitores centristas desiludidos com o mandato de Macron. Já Mélenchon aposta numa mensagem assumidamente radical, procurando mobilizar eleitores com menor propensão para votar, especialmente jovens e residentes em bairros urbanos operários.

A fuga da nota interna foi rapidamente explorada pelo campo adversário. Paul Vannier, deputado do partido França Insubmissa, liderado por Mélenchon, escreveu na rede social X que “[Glucksmann] não quer saber dos pobres, dos jovens, das mães solteiras e dos bairros operários se eles não lhe trazem votos”.

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