Um complexo residencial na China transformou os telhados dos seus edifícios numa espécie de nuvem artificial. Centenas de pulverizadores libertam milhões de gotas microscópicas de água, criando uma “chuva” que pode fazer descer a temperatura ambiente entre 5 e 8 graus durante os períodos de calor mais intenso.
O sistema está instalado no condomínio Xijian Tianmao Guobinfu, na cidade de Yuncheng, província de Shanxi. A solução tornou-se viral depois de Mao Ning, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, ter divulgado nas redes sociais imagens dos edifícios envolvidos pela névoa.
In central China’s Shanxi, a residential community has drawn attention for its “rooftop rain” — a mist cooling system that drops surface temperatures by 5–8°C in minutes. pic.twitter.com/AuXyJ0LFtJ
— Mao Ning 毛宁 (@SpoxCHN_MaoNing) July 1, 2026
Ao contrário do que as imagens podem sugerir, a água não chega ao solo como uma chuva convencional. Os nebulizadores de alta pressão dividem-na em gotas tão pequenas que estas evaporam rapidamente, retirando calor ao ar e às superfícies envolventes.
De acordo com o gestor do empreendimento, citado pelo ‘Tempo.pt’, o sistema consegue reduzir a temperatura ambiente entre 5 e 8 graus. Junto ao solo, a descida poderá chegar aos 12 graus. Cada ativação dura cerca de dez minutos e procura tornar mais confortáveis os jardins, pátios e restantes áreas comuns do condomínio.
O princípio utilizado, conhecido como arrefecimento evaporativo, não é novo. Quando a água passa do estado líquido ao gasoso, absorve energia térmica do ambiente. A mesma técnica já é aplicada em estufas agrícolas, esplanadas, parques e equipamentos de climatização.
A eficácia, porém, depende das condições atmosféricas. Em ambientes quentes e secos, a água evapora mais depressa e o efeito de arrefecimento é maior. Nas regiões húmidas, a evaporação perde eficiência e a nebulização pode aumentar a sensação de abafamento.
A solução chinesa também tem um custo ambiental. Segundo o Tempo.pt, cada utilização poderá consumir dezenas de toneladas de água, às quais se juntam a eletricidade necessária para os sistemas de alta pressão e as despesas de manutenção, tratamento da água e substituição dos pulverizadores.
Estas limitações tornam-se particularmente relevantes num contexto de secas mais prolongadas e crescente pressão sobre os recursos hídricos. Embora a tecnologia possa tornar os espaços exteriores mais agradáveis, a sua aplicação em larga escala exigiria uma avaliação rigorosa do consumo de água e energia.
O projeto procura responder ao chamado efeito de ilha de calor urbana. O betão, o asfalto e as fachadas absorvem energia solar durante o dia e libertam-na lentamente à noite, fazendo com que as cidades possam apresentar temperaturas vários graus superiores às zonas rurais próximas.
Telhados verdes, fachadas cobertas de vegetação, pavimentos claros, materiais refletores e reforço da arborização estão entre as soluções já utilizadas para contrariar este fenómeno. Os sistemas de nebulização poderão funcionar como complemento, sobretudo em espaços públicos expostos a temperaturas extremas.
Em Portugal, a tecnologia teria maior potencial nas regiões interiores e no sul, onde os verões tendem a ser mais quentes e secos. No entanto, a escassez de água, particularmente crítica em algumas destas áreas, seria também o principal obstáculo à sua utilização.
Mais do que substituir o ar condicionado dentro dos edifícios, estes sistemas procuram reduzir o calor nos espaços exteriores. A “chuva artificial” de Yuncheng mostra como a engenharia pode ajudar as cidades a enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas, mas também evidencia o dilema entre arrefecer o ambiente e preservar um recurso cada vez mais limitado.
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