A ideia de que um bom abraço ao cão faz bem a ambos está amplamente enraizada entre tutores. E, de facto, os especialistas confirmam que os momentos de proximidade física podem trazer benefícios significativos: reduzem o stress, melhoram o bem-estar e até ajudam a baixar a pressão arterial dos humanos. Para os cães, o contacto físico com os seus donos reforça o sentimento de segurança, fortalece o vínculo e contribui para um melhor estado de espírito.
Contudo, há uma exceção que muitos ignoram — e que pode estar a prejudicar a relação com o animal. Abordar o cão enquanto dorme ou quando está distraído pode provocar sobressalto, irritação e até comportamentos defensivos.
“Eles odeiam! Não é justo”, afirmou Margaret M. Duxbury, médica veterinária especialista em comportamento animal certificada, com base em Minneapolis, no estado do Minnesota. A recomendação é clara: “Se possível, deixe o cão dormir.”
Porque é que acordar o cão pode ser problemático
A tentação de acariciar um cão enquanto este dorme no sofá é comum. No entanto, a abordagem inesperada pode ser interpretada como uma intrusão no espaço do animal.
Nicole Skeehan, treinadora de cães e proprietária da Philly Unleashed, sugere um exercício simples de empatia: imaginar como reagiria uma pessoa se alguém invadisse o seu espaço enquanto dorme a sesta ou está concentrada no trabalho. “Se conseguimos compreender essa reação em termos humanos, porque é que ficamos surpreendidos quando os nossos cães reagem da mesma forma?”, questiona.
Segundo Valli Parthasarathy, especialista em comportamento veterinário e cofundadora da Synergy Veterinary Behavior, em Portland, no estado do Oregon, os cães podem reagir de diversas formas quando são apanhados de surpresa — sobretudo quando estão a dormir, a brincar com brinquedos ou a comer.
Alguns podem rosnar ou tentar morder. Outros optam por afastar-se. Em situações mais extremas, podem esconder-se e tremer. Há ainda cães que simplesmente fixam o olhar de forma intensa ou continuam aparentemente tranquilos. Contudo, o facto de não reagirem de forma visível não significa que apreciem o contacto inesperado.
“Estes comportamentos são a forma como os cães comunicam a sua necessidade de espaço, mas muitas pessoas têm dificuldade em aceitar ou respeitar esses sinais”, sublinhou Skeehan.
Cada cão reage de forma diferente
Os especialistas destacam que não existe uma reação universal. Vários fatores influenciam a forma como um cão responde a uma abordagem inesperada.
As experiências precoces desempenham um papel determinante. Cães que sofreram maus-tratos ou que não foram devidamente socializados enquanto cachorros podem revelar maior sensibilidade e reagir de forma mais negativa a estímulos inesperados.
A personalidade individual também conta. “Um cão de qualquer raça pode ser extrovertido ou reservado, gostar muito de contacto físico ou evitá-lo, ser expressivo ou mais contido — e essas características influenciam a forma como reage quando se sente desconfortável”, explicou Skeehan.
O nível de confiança no tutor e no ambiente envolvente é igualmente relevante. De acordo com Parthasarathy, os cães tendem a tolerar mais facilmente situações desconfortáveis quando envolvem pessoas em quem confiam. Um tutor habitual pode obter uma reação branda ao ultrapassar um limite, enquanto um estranho poderá desencadear uma resposta mais intensa.
A saúde do animal é outro fator a considerar. “Um cão com artrite nas ancas pode ser mais sensível ao toque nessa zona”, alertou Parthasarathy.
Como abordar e fazer festas ao seu cão de forma adequada
Apesar dos riscos associados a abordagens inesperadas, os especialistas garantem que a maioria dos cães aprecia festas e momentos de proximidade — desde que tenham controlo sobre a interação.
Segundo Duxbury, muitos cães gostam de ser acariciados ou abraçados, mas querem ter uma palavra a dizer sobre a duração e sobre quem inicia o contacto. Por isso, não se deve assumir que o animal está sempre disponível para contacto físico. O ideal é convidá-lo a aproximar-se, em vez de forçar a interação.
“Isso permite que sejam eles a decidir se estão com vontade de interagir”, aconselhou Skeehan.
Parthasarathy recomenda que, antes de se aproximar, o tutor se certifique de que o cão tem consciência da sua presença. O ideal é aproximar-se de uma posição visível, evitando tocar diretamente no animal para o acordar. Duxbury acrescenta que também se deve evitar inclinar-se sobre o cão ou colocar-se por cima dele, uma vez que tal postura pode ser interpretada como ameaçadora.
Para iniciar o contacto de forma mais segura, pode chamar-se o nome do animal ou fazer barulho com um saco de biscoitos ou um brinquedo para o despertar. No caso de cães surdos, colocar um petisco com cheiro junto ao nariz pode ser uma alternativa eficaz. Depois, deve dar-se tempo ao cão para se orientar e permitir que seja ele a aproximar-se.
Quanto às zonas preferidas para festas, a maioria dos cães tende a preferir o peito, os ombros, as costas e a zona inferior do pescoço, em vez do topo da cabeça. A recomendação é começar com carícias suaves e observar a reação. Se o cão quiser mais contacto, aproximar-se-á, poderá tocar com a pata ou empurrar a mão do tutor.
Por outro lado, se se afastar, evitar a mão ou demonstrar agressividade, está a comunicar que não deseja continuar a interação.
Respeitar a linguagem corporal fortalece a relação
Os especialistas são unânimes: a atenção à linguagem corporal e aos sinais comportamentais do cão é essencial para construir uma relação sólida e duradoura.
“É impressionante como as nossas relações se tornam mais próximas quando os cães têm esta linha aberta de comunicação recíproca”, concluiu Duxbury.
Ao respeitar o espaço e os limites do animal, os tutores não só evitam episódios de stress ou irritação, como reforçam a confiança e promovem uma convivência mais equilibrada e harmoniosa.






