O presidente norte-americano Donald Trump está a intensificar os seus esforços diplomáticos para convencer o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a aceitar um cessar-fogo com o Hamas na Faixa de Gaza, segundo avançou uma fonte próxima do processo à Newsweek. Este movimento surge após a recente trégua entre Israel e o Irão, que pôs fim a 12 dias de confrontos intensos entre os dois países.
“Um acordo é muito possível. O presidente está a trabalhar arduamente para convencer os israelitas de que este é o momento certo, agora que o conflito com o Irão está encerrado”, afirmou a fonte, sob anonimato, citada pela Newsweek.
Segundo a mesma fonte, Trump não pretende um mero cessar-fogo de 60 dias – como prevê a mais recente proposta norte-americana -, mas uma solução mais abrangente e definitiva.
“O presidente está claramente interessado numa resolução que vá além da uma trégua temporária. Espera que os 60 dias sirvam de base para a libertação de todos os reféns e um cessar-fogo permanente que possa abrir caminho a negociações sobre o futuro da paz entre Israel e Palestina”
O conflito entre Israel e o Hamas teve início a 7 de outubro de 2023, quando o grupo palestiniano lançou o ataque mais mortal da história de Israel, matando cerca de 1.100 pessoas — na maioria civis — e fazendo 251 reféns. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, liderado pelo Hamas, mais de 56.250 palestinianos foram mortos desde então devido às ofensivas israelitas.
Nos últimos meses, o conflito alargou-se a uma frente regional, envolvendo o Irão e aliados como o Hezbollah no Líbano e os Huthis do Iémen. No entanto, após ataques mútuos entre Israel e o Irão, e a entrada dos EUA no conflito com bombardeamentos a três instalações nucleares iranianas, Trump declarou uma trégua na terça-feira passada, após um ataque iraniano a uma base norte-americana no Qatar.
Apesar de algumas violações iniciais, o cessar-fogo parece estar a ser mantido. Trump criticou ambos os lados, expressando frustração particular com Israel.
O presidente norte-americano apresentou este acordo como mais uma vitória diplomática, juntando-o aos entendimentos entre Sérvia e Kosovo, Índia e Paquistão, bem como ao iminente acordo de paz entre a República Democrática do Congo e o Ruanda. Também está envolvido em esforços para um cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia.
Proposta concreta para Gaza
A proposta liderada por Trump — elaborada com o apoio de Steve Witkoff, enviado especial para o Médio Oriente — prevê uma trégua de 60 dias. Durante esse período, o Hamas libertaria 10 reféns vivos e entregaria os corpos de 18 reféns mortos, em duas fases. Em troca, Israel libertaria 1.236 prisioneiros palestinianos e os corpos de 180 palestinianos detidos.
Outros elementos do acordo incluem:
• Suspensão da vigilância aérea israelita em Gaza durante 10 horas por dia, podendo estender-se até 12 horas nos dias de troca de reféns e prisioneiros;
• Reposicionamento das tropas israelitas nos corredores de Netzarim e no norte de Gaza;
• Retoma da ajuda humanitária sob supervisão da ONU e do Crescente Vermelho;
• Início imediato de negociações para um cessar-fogo permanente.
O acordo permite ainda uma extensão do cessar-fogo caso não haja entendimento final ao fim dos 60 dias.
Israel e Hamas mostram abertura, mas persistem obstáculos
Na sequência da trégua com o Irão, o embaixador israelita na ONU, Danny Danon, confirmou que Israel espera alcançar em breve um cessar-fogo em Gaza. Por sua vez, segundo a BBC, um dirigente sénior do Hamas afirmou que o grupo está a intensificar os esforços para chegar a um acordo.
Na quinta-feira, o porta-voz adjunto do Departamento de Estado dos EUA, Tommy Pigott, sublinhou que o foco da administração Trump é obter uma trégua imediata em Gaza. No mesmo dia, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, confirmou o interesse de Netanyahu em visitar Washington para se reunir com Trump, embora ainda sem data marcada.
Apesar dos contactos, os EUA e Israel acusam o Hamas de rejeitar os termos da proposta, enquanto o grupo afirma que respondeu positivamente, mas exige garantias mais firmes de que Israel não retomará os ataques após o prazo de 60 dias.
Pressão internacional e tensão interna em Israel
A guerra em Gaza continua a provocar indignação internacional. Após uma cimeira em Bruxelas, os líderes da União Europeia exigiram “um cessar-fogo imediato em Gaza e a libertação incondicional de todos os reféns, conducente a um fim permanente das hostilidades”.
A UE criticou ainda a “situação humanitária catastrófica” na Faixa de Gaza. Israel voltou a suspender parcialmente a entrada de ajuda, alegando que o Hamas se apropria de parte das remessas. Desde maio, apenas a Gaza Humanitarian Foundation, apoiada pelos EUA, tem autorização para distribuir auxílio.
O número de mortos entre civis que procuram ajuda continua a subir, segundo o Gabinete de Comunicação do Governo de Gaza. Israel acusa o Hamas de atacar os próprios civis nos pontos de distribuição, acusação que o grupo nega.
Entretanto, as tensões políticas e sociais aumentam em Israel. Com o fim das restrições impostas pelos ataques do Irão, as manifestações regressaram a Telavive. Familiares de reféns exigem ao governo que aja com urgência.
A pressão sobre Netanyahu adensa-se também no plano judicial: o primeiro-ministro deve comparecer em tribunal na segunda-feira, no âmbito do seu julgamento por corrupção, suborno e abuso de confiança. Trump já veio a público denunciar o processo como uma “caça às bruxas” e apelou à sua anulação ou ao perdão do “grande herói que tanto fez pelo Estado”, através da rede Truth Social.
Segundo fontes citadas por vários meios israelitas, incluindo a emissora pública Kann, esta intervenção faz parte de uma tentativa de Trump de conquistar o apoio de Netanyahu ao cessar-fogo. Contudo, o Tribunal Distrital de Jerusalém rejeitou esta sexta-feira dois pedidos de adiamento do julgamento por parte do primeiro-ministro.
Conflito continua no terreno
Apesar da trégua com o Irão, o combate em Gaza prossegue. O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), tenente-general Eyal Zamir, deslocou-se à linha da frente esta semana. Aí prestou homenagem aos sete soldados mortos nos últimos dias e reafirmou o compromisso de prosseguir as operações.
“A operação em Gaza é o principal teatro de operações. Em breve, atingiremos as linhas definidas para esta fase da operação ‘Carros de Gideão’. A partir daí, novas opções operacionais serão apresentadas à liderança política”, afirmou Zamir.
“Continuaremos a agir com determinação para alcançar os dois principais objetivos da guerra — o regresso dos reféns e a derrota do Hamas.”














