A entrada em massa de migrantes em Ceuta levou as autoridades espanholas a reforçar a vigilância antiterrorista, numa altura em que o ressurgimento do Estado Islâmico (EI) na Somália é visto pelos serviços de segurança como uma das principais ameaças jihadistas à Europa. Segundo fontes da Polícia Nacional citadas pelo ‘El Confidencial’, a preocupação centra-se na possibilidade de elementos ligados à organização terem aproveitado o colapso temporário da fronteira para entrar em território espanhol.
A Guarda Civil e a Polícia Nacional estão a analisar as imagens captadas durante a entrada em massa para tentar identificar eventuais suspeitos. Nas próximas horas deverão também ser destacados para Ceuta elementos adicionais das unidades antiterroristas espanholas para aprofundar a investigação.
Até ao momento, porém, não foi identificado qualquer jihadista entre as pessoas que atravessaram a fronteira, sublinham as autoridades. Ainda assim, os serviços de segurança admitem que o cenário justifica um reforço das diligências devido à evolução recente da ameaça terrorista.
A nova preocupação já não é a Síria
Durante anos, o foco das agências antiterroristas esteve centrado na Síria e no Iraque. Hoje, porém, o panorama mudou. Fontes policiais ouvidas pelo ‘El Confidencial’ afirmam que as maiores preocupações passam pelo Estado Islâmico do Khorasan, ligado ao Afeganistão e à Ásia Central, e, sobretudo, pelo fortalecimento da filial do grupo na Somália.
Segundo especialistas citados pelo jornal, a organização instalada na região autónoma de Puntlândia deixou de ser apenas uma pequena ramificação do Estado Islâmico para assumir um papel central na coordenação de financiamento, recrutamento e logística das várias filiais espalhadas por África e pelo Médio Oriente.
A consultora de segurança Justine Fleischner, autora de um relatório das Nações Unidas sobre o tema, descreve mesmo a Somália como um corredor estratégico que liga o núcleo do Estado Islâmico às suas diferentes ramificações em África. Em 2025, também o então comandante do AFRICOM, general Michael Langley, afirmou perante o Congresso dos Estados Unidos que a rede global do grupo passou a ser coordenada a partir da Somália.
Marroquinos entre os combatentes
Um dos fatores que mais preocupa as autoridades espanholas é a crescente presença de cidadãos marroquinos entre os combatentes estrangeiros do Estado Islâmico na Somália.
No início deste ano, as autoridades de Puntlândia divulgaram imagens de vários dirigentes capturados durante uma operação militar. Depois dos etíopes, os marroquinos constituíam o segundo maior grupo de estrangeiros identificado.
Segundo fontes antiterroristas citadas pelo ‘El Confidencial’, esta realidade tem implicações diretas para Espanha, devido à proximidade geográfica com Marrocos e ao receio de que combatentes treinados possam regressar ao Norte de África ou ser utilizados para recrutar novos elementos para células jihadistas na Europa.
As mesmas fontes admitem que já foram detetados casos relacionados com tentativas de recrutamento e de apoio logístico a partir de território espanhol, embora sem divulgarem pormenores sobre essas investigações.
Um centro de financiamento e treino
Criado em 2015 por dissidentes do grupo Al-Shabaab, o Estado Islâmico na Somália transformou-se, segundo vários relatórios das Nações Unidas e das autoridades dos Estados Unidos, num dos principais centros financeiros da organização terrorista.
Através da chamada estrutura “Al Karrar”, o grupo movimenta dinheiro, armas e combatentes para outras filiais do Estado Islâmico, recorrendo a redes informais de transferências financeiras, tráfico de pessoas, contrabando, extorsão e, mais recentemente, criptomoedas.
Apesar da ofensiva lançada pelas autoridades de Puntlândia com apoio dos Estados Unidos, o grupo continua instalado nas montanhas da região, onde, segundo especialistas citados pelo ‘El Confidencial’, desenvolveu uma infraestrutura militar sofisticada, incluindo complexos de cavernas, posições fortificadas, atiradores de elite e utilização regular de drones.
É este crescimento que explica o reforço da vigilância em Ceuta. Embora não exista qualquer confirmação de que elementos jihadistas tenham entrado em Espanha durante a entrada em massa de migrantes, as autoridades consideram que a evolução do Estado Islâmico na Somália obriga a acompanhar com especial atenção qualquer falha nas fronteiras externas do país.


















