Uma planta usada há séculos na medicina tradicional europeia poderá vir a desempenhar um papel importante no combate às chamadas “superbactérias”. Trata-se da Potentilla erecta, uma pequena flor amarela comum na Europa, cuja raiz era historicamente utilizada para tratar infeções como feridas, dores de garganta, diarreia e doenças das gengivas. Agora, novas investigações indicam que esta planta poderá ter propriedades eficazes contra bactérias resistentes aos antibióticos modernos.
Um estudo recente demonstrou que extratos desta planta não só apresentam atividade antimicrobiana, como também conseguem limitar o crescimento de bactérias resistentes a múltiplos fármacos. A resistência antimicrobiana — fenómeno em que bactérias evoluem para sobreviver aos medicamentos — é atualmente uma das maiores ameaças à saúde global, podendo tornar infeções comuns difíceis ou até impossíveis de tratar.
Para avaliar este potencial, investigadores analisaram mais de 70 espécies de plantas provenientes de zonas húmidas da Irlanda, testando os seus extratos em laboratório contra bactérias responsáveis por infeções graves, como pneumonia e infeções urinárias. Através de testes de suscetibilidade antimicrobiana, verificaram que a tormentila se destacou pela sua capacidade de inibir o crescimento bacteriano e reduzir a formação de biofilmes — estruturas que protegem as bactérias da ação de antibióticos e do sistema imunitário.
Combinação com antibióticos aumenta eficácia
Outro dos resultados relevantes do estudo foi a capacidade dos compostos da tormentila em potenciar a eficácia de antibióticos existentes. Os investigadores combinaram o extrato da planta com baixas doses de colistina, um antibiótico utilizado apenas em situações críticas devido à sua toxicidade.
Isoladamente, a dose reduzida não era suficiente para eliminar as bactérias. No entanto, quando combinada com o extrato vegetal, verificou-se um aumento significativo da eficácia do antibiótico, sugerindo que a planta pode funcionar como um potenciador terapêutico.
Compostos naturais “privam” bactérias de nutrientes essenciais
A análise química permitiu identificar compostos naturais presentes na tormentila, como o ácido elágico e a agrimoniina, já conhecidos pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Estes compostos demonstraram capacidade para inibir o crescimento bacteriano ao interferirem com o acesso ao ferro — um nutriente essencial para a sobrevivência das bactérias.
Ao “privar” os microrganismos deste elemento, os compostos impedem a sua multiplicação, oferecendo uma nova via de combate às infeções. Os investigadores estão agora focados em otimizar esta atividade e desenvolver formulações que possam ser testadas como tratamentos em modelos experimentais.
A descoberta reforça a importância das plantas como fonte de novos medicamentos, num momento em que a resistência antimicrobiana continua a aumentar a nível global. Muitos antibióticos atualmente utilizados tiveram origem em compostos naturais, como é o caso da vancomicina, derivada de microrganismos do solo.
O caso da tormentila demonstra como o conhecimento tradicional pode ser aliado à ciência moderna na procura de soluções inovadoras. Num cenário em que as opções terapêuticas se tornam cada vez mais limitadas, esta pequena flor poderá representar um contributo relevante na luta contra infeções resistentes.










