Esta ilha descoberta por Portugal mantém estatuto estratégico militar nas mãos dos EUA e Reino Unido

Trump aprova acordo entre Reino Unido e Maurícia para transferência de soberania das ilhas Chagos, mas Diego Garcia permanecerá sob controlo britânico, arrendada por 99 anos aos Estados Unidos.

Pedro Zagacho Gonçalves

Trump aprova acordo entre Reino Unido e Maurícia para transferência de soberania das ilhas Chagos, mas Diego Garcia permanecerá sob controlo britânico, arrendada por 99 anos aos Estados Unidos. A ilha, descoberta por navegadores portugueses no século XVI, continua a ser um dos principais ativos militares do Ocidente.

A ilha de Diego Garcia, situada no meio do oceano Índico e descoberta por navegadores portugueses em 1532, volta a estar no centro da geopolítica internacional. O Presidente norte-americano Donald Trump aprovou recentemente um acordo entre o Reino Unido e a República da Maurícia que prevê a transferência da soberania sobre o arquipélago das Chagos para o Estado insular africano. Contudo, o pacto estipula que Diego Garcia — a maior e mais estratégica ilha do conjunto — continuará sob controlo britânico, sendo arrendada aos Estados Unidos por um período de 99 anos.

O acordo, fechado a 1 de abril de 2025 após meses de negociações entre Londres e Port Louis, ainda aguarda a assinatura formal, mas já está a provocar divisões e críticas. Em Washington, analistas alertam que a transferência de soberania poderá fragilizar a presença ocidental no Índico, permitindo à China ganhar terreno num dos espaços marítimos mais estratégicos do mundo. Em Londres, vozes da oposição acusam o Governo de “ceder território vital” sem necessidade, colocando em causa a posição global do Reino Unido.

Apesar das críticas, a decisão surge na sequência de um parecer jurídico da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que em 2019 considerou ilegal a separação das Chagos da Maurícia, ocorrida nos anos 1960. Nessa década, e antes de conceder independência à Maurícia (em 1968), o Reino Unido separou administrativamente o arquipélago das Chagos e criou o Território Britânico do Oceano Índico (BIOT), visando instalar uma base militar em Diego Garcia. Para concretizar essa ambição estratégica, Londres e Washington concordaram com a expulsão forçada de cerca de 1.500 chagossianos entre 1968 e 1973, enviados para a Maurícia e para as Seicheles.

Base militar vital para os EUA e Reino Unido
Desde então, a ilha — que os portugueses cartografaram como parte do seu império marítimo já no século XVI — transformou-se num dos ativos militares mais importantes do planeta. Localizada a meio caminho entre África e a Ásia, Diego Garcia oferece acesso privilegiado ao Golfo Pérsico, ao sul da Ásia e à costa oriental africana. O seu valor estratégico aumentou exponencialmente com os conflitos no Médio Oriente e a intensificação da rivalidade sino-americana.

Continue a ler após a publicidade

A base norte-americana em Diego Garcia, construída em 1966, desempenhou um papel central em operações militares como a Guerra do Golfo, a invasão do Iraque, a intervenção no Afeganistão e ações de contraterrorismo em toda a região do oceano Índico. A instalação alberga aviões de longo alcance, navios de guerra e sistemas de vigilância avançados, permitindo projeção de força e resposta rápida a ameaças regionais. A base serve também como ponto de apoio para os Navios de Pré-Posicionamento Marítimo dos EUA, essenciais para o transporte de material militar em caso de conflito.

Alvo potencial do Irão
A importância de Diego Garcia voltou a ser destacada no contexto das crescentes tensões com o Irão. A ilha funciona como plataforma de lançamento para bombardeiros estratégicos, como os B-2 Spirit, capazes de efetuar ataques de precisão em território iraniano — incluindo instalações nucleares subterrâneas. Um recente alerta publicado por autoridades militares norte-americanas revelou que o Irão possui mísseis balísticos como o Khorramshahr e o Sejjil, com alcance suficiente para atingir Diego Garcia (a cerca de 3.800 km de distância).

Além disso, as forças navais iranianas têm aumentado a sua presença no estreito de Ormuz e em outras rotas marítimas críticas, o que levou os EUA e os seus aliados a reforçarem a vigilância e a capacidade de resposta na região. Em declarações telefónicas a 30 de março, o Presidente Trump foi categórico: “Se eles [os iranianos] não fizerem um acordo, haverá bombardeamentos como nunca viram antes.”

Continue a ler após a publicidade

Seis bombardeiros B-2 estacionados na ilha
Refletindo a escalada de tensão, imagens de satélite captadas a 2 de abril pela Planet Labs mostram seis bombardeiros furtivos B-2 estacionados na pista de Diego Garcia, juntamente com seis aviões cisterna de reabastecimento. Trata-se de cerca de um terço da frota operacional de B-2 dos EUA, aeronaves capazes de transportar até 18 mil quilos de munições convencionais ou nucleares, incluindo a bomba GBU-57A/B Massive Ordnance Penetrator (MOP), concebida para destruir bunkers subterrâneos fortificados.

O B-2, movido por quatro motores General Electric F118, tem um raio de ação superior a 10 mil milhas náuticas com apenas um reabastecimento aéreo. Pode operar a altitudes superiores a 15 mil metros, oferecendo flexibilidade estratégica tanto para ataques como para missões de vigilância.

Esta capacidade torna a ilha uma peça central na dissuasão de potenciais ataques do Irão, dos Houthis no Iémen ou de outras forças hostis na região. O avanço do programa de drones e mísseis do Irão, e a sua capacidade comprovada de atacar alvos norte-americanos através de milícias no Líbano, Iraque ou Iémen, aumentam ainda mais a relevância da base.

Rivalidade com a China
A crescente presença da China no oceano Índico, nomeadamente com a instalação de uma base naval em Djibuti, preocupa Washington e Londres. A Força Aérea do Exército de Libertação Popular (PLAAF) dispõe agora de bombardeiros H-6 modernizados, com capacidade de transportar mísseis de cruzeiro de longo alcance e realizar reabastecimento aéreo. Isso amplia o raio de ação chinês e alimenta receios de uma corrida armamentista na região.

Neste cenário, Diego Garcia permanece como um baluarte ocidental, não apenas para os EUA mas também para o Reino Unido, que mantém um papel de cogestão na base militar. Ambos os países continuam a investir na infraestrutura da ilha, conscientes de que o seu controlo continua a ser essencial para garantir liberdade de navegação e superioridade militar em tempos de incerteza geopolítica.

Continue a ler após a publicidade

Passado português, presente contestado
Apesar do seu papel atual como plataforma militar, Diego Garcia tem uma história que remonta à era das descobertas. Foi registada pela primeira vez por navegadores portugueses em 1532, durante as explorações no oceano Índico. O nome da ilha homenageia provavelmente um dos marinheiros ou capitães lusos. Posteriormente, os franceses instalaram-se nas Chagos no século XVIII, antes de estas passarem para controlo britânico em 1814, após as Guerras Napoleónicas.

Hoje, enquanto o futuro do arquipélago se reconfigura com a devolução da maioria das ilhas à Maurícia, Diego Garcia continua a ser um bastião da presença militar ocidental no Índico — e um dos pontos mais sensíveis no xadrez geoestratégico mundial.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.