As vagas de calor em Portugal, que nos últimos anos se têm tornado cada vez mais frequentes e intensas, não trazem apenas temperaturas sufocantes e noites tropicais. Com elas chega também um inimigo silencioso: os níveis elevados de pólen, que tornam o simples ato de secar roupa ao ar livre um risco para a saúde de quem sofre de alergias.
Em diversas regiões do país, incluindo o Alentejo, o Ribatejo e o interior do Algarve, os termómetros têm ultrapassado regularmente os 35°C durante os períodos de vaga de calor que, como este ano, começam ainda antes do verão. Este calor extremo favorece a libertação massiva de pólen, em particular de gramíneas, oliveiras e outras espécies típicas da flora portuguesa.
De acordo com Nigel Bearman, especialista em limpeza doméstica e fundador da empresa britânica Daily Poppins, situações semelhantes registadas no Reino Unido deixam um alerta válido também para Portugal: secar roupa ao ar livre em dias de altos níveis de pólen pode transformar-se num verdadeiro pesadelo para os alérgicos. “Estender roupa, lençóis ou toalhas no exterior em dias com muito pólen é receita certa para olhos a arder e nariz entupido”, explica Bearman.
O especialista esclarece que tecidos como o algodão, o linho e as toalhas funcionam como autênticas esponjas durante o processo de secagem, absorvendo e retendo os grãos de pólen que pairam no ar. “O pólen instala-se nas fibras e lá fica preso à medida que o tecido seca, acabando por entrar nos armários, camas e até em contacto direto com a pele”, refere Bearman. O resultado? Crises alérgicas que persistem dentro de casa, onde se deveria estar a salvo.
Este fenómeno é bem conhecido pelos portugueses que lidam com rinite alérgica ou conjuntivite durante os meses mais quentes. Muitos já se habituaram a manter as janelas fechadas em determinados dias ou a recorrer a medicamentos como os anti-histamínicos. Porém, nem todos associam a roupa estendida no exterior como uma potencial fonte de agravamento dos sintomas.
Face a este cenário, Nigel Bearman recomenda que, nos dias em que os níveis de pólen são particularmente elevados, a roupa seja seca no interior, idealmente perto de uma janela aberta ou numa divisão bem ventilada. “Se o espaço for limitado, um estendal dobrável numa área arejada pode ser a melhor solução”, sugere.
Este conselho ganha especial importância em Portugal, onde, de acordo com previsões regulares da Rede Portuguesa de Aerobiologia, há períodos em que o nível de pólen atinge classificações de “muito elevado” em grande parte do território nacional, sobretudo entre abril e julho. Nesses dias, os especialistas recomendam também evitar passeios ao ar livre nas horas de maior concentração de pólen, habitualmente durante a manhã e ao fim da tarde.
Com a intensificação das vagas de calor, as redes sociais em Portugal têm-se enchido de relatos de cidadãos que se queixam de olhos vermelhos, comichão no nariz, espirros incessantes e até dificuldades respiratórias. Há quem confesse estar a viver pela primeira vez os efeitos do pólen: “Nunca tinha tido problemas de alergias, mas este ano tem sido terrível”, escreveu um utilizador numa publicação no X (antigo Twitter).
Também figuras públicas não escapam ao problema. No Reino Unido, o conhecido apresentador Piers Morgan desabafou recentemente na rede social: “Alguém mais está com uma febre dos fenos terrível em Londres hoje? Até o meu fiel Fexofenadine mal alivia os espirros e a sensação de nevoeiro na cabeça.” Uma realidade que muitos portugueses reconhecem nas semanas em que os campos em flor e o calor abrasador se juntam para transformar o ar num autêntico “bombardeamento” de pólen.
Em Portugal, o aumento da frequência e intensidade das vagas de calor — fenómeno associado às alterações climáticas — veio agravar os problemas relacionados com alergias e qualidade do ar. Especialistas nacionais alertam que é fundamental adotar estratégias para mitigar os efeitos do pólen, não apenas através de medicação, mas também de gestos simples como optar pela secagem da roupa dentro de casa nos dias críticos.
Os serviços de saúde e entidades como a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica têm reforçado campanhas de sensibilização sobre os cuidados a ter nestas alturas do ano, sublinhando que a prevenção é o melhor remédio.














