Está a usar mal a geleira? O erro ao colocar as placas de gelo que pode estragar os alimentos mais depressa

Com a chegada do verão, multiplicam-se os dias de praia, piqueniques e escapadelas ao ar livre, mas há um erro muito comum na preparação das geleiras portáteis que pode comprometer a conservação dos alimentos.

Pedro Zagacho Gonçalves

Com a chegada do verão, multiplicam-se os dias de praia, piqueniques e escapadelas ao ar livre, mas há um erro muito comum na preparação das geleiras portáteis que pode comprometer a conservação dos alimentos. Colocar as placas ou bolsas de gelo apenas no fundo da geleira parece a solução mais lógica, mas especialistas em conservação alimentar e cadeia de frio alertam que essa prática reduz significativamente a eficácia da refrigeração, permitindo que a parte superior da geleira aqueça muito mais rapidamente e exponha os alimentos a temperaturas potencialmente perigosas.

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A explicação assenta num princípio simples da física: o ar frio é mais denso do que o ar quente e, por isso, tende sempre a descer. Quando o gelo fica exclusivamente na base da geleira, o frio permanece concentrado na zona inferior, enquanto o ar quente se acumula na parte superior. Como consequência, os alimentos colocados em cima recebem muito menos refrigeração. Em condições de calor, a base pode manter-se próxima dos 3 ºC, enquanto a parte superior pode atingir entre 18 e 20 ºC ao fim de poucas horas, reduzindo a capacidade de conservação dos alimentos.

Para evitar esse problema, os especialistas recomendam alterar a disposição das placas de frio. Se existir apenas uma bolsa ou placa de gelo, o mais eficaz é colocá-la sobre os alimentos, permitindo que o ar frio desça e arrefeça todo o conteúdo da geleira. Quando existem várias placas, a solução mais eficiente é recorrer à chamada técnica da “sanduíche”: uma placa na base, os alimentos ao centro e outra na parte superior. Segundo os especialistas, este método distribui o frio de forma muito mais uniforme, prolonga a conservação dos alimentos por mais três a quatro horas e, em condições adequadas, pode praticamente duplicar o tempo útil de refrigeração, mantendo temperaturas entre os 4 ºC e os 6 ºC durante 24 a 36 horas.

A correta distribuição do frio é também uma questão de segurança alimentar. Os microbiologistas recordam que entre os 4 ºC e os 60 ºC existe a denominada “zona de perigo”, intervalo de temperaturas em que bactérias como a Salmonella, a Escherichia coli (E. coli) ou a Listeria se podem multiplicar rapidamente. Um alimento pode permanecer várias horas nessa faixa sem apresentar alterações visíveis no cheiro, na cor ou no aspeto, aumentando o risco para a saúde de quem o consome.

Além da colocação incorreta do gelo, existem outros erros frequentes que diminuem a capacidade de refrigeração da geleira. Os especialistas aconselham a arrefecê-la na noite anterior à utilização, introduzir apenas alimentos já refrigerados e evitar abrir a tampa repetidamente. Uma das recomendações passa mesmo por utilizar uma geleira exclusiva para bebidas, que é aberta com maior frequência, e outra apenas para os alimentos. Também é aconselhável impedir o contacto direto entre placas de gelo e produtos mais sensíveis, como ovos ou alguns vegetais, utilizando um pano ou um recipiente hermético como separador para evitar a congelação parcial dos alimentos sem comprometer a eficácia da refrigeração.

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Os mesmos princípios utilizados no transporte de medicamentos, vacinas ou insulina aplicam-se igualmente às geleiras domésticas. Uma distribuição correta do frio, aliada à redução das aberturas da tampa e à utilização de alimentos previamente refrigerados, pode fazer toda a diferença na conservação dos alimentos durante um dia de praia ou um fim de semana de campismo, reduzindo simultaneamente o risco de proliferação de bactérias.

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