O mercado europeu de carbono está sob crescente escrutínio numa altura em que os custos energéticos continuam elevados e as incertezas económicas pressionam os preços das licenças de emissão. Nas últimas semanas, a atenção concentrou-se sobretudo nos preços do petróleo, gás e carvão, agravados pelo encerramento do Estreito de Ormuz, mas um outro indicador crucial para o investimento energético (o preço do carbono) tem registado uma evolução que suscita dúvidas quanto à trajetória da descarbonização na Europa.
Segundo o Financial Times, o custo de poluir na União Europeia e no Reino Unido caiu desde o início de 2026, depois de as preocupações com a conjuntura económica e com as políticas de fixação de preços do carbono terem invertido a recuperação registada no final do ano passado. Esta descida ocorre num contexto em que o sistema europeu de comércio de emissões (ETS) é considerado peça central da estratégia climática do bloco.
Os preços das licenças europeias de carbono — que os grandes emissores têm de adquirir ao abrigo do regime de comércio de emissões — estabilizaram em torno dos 70 euros por tonelada desde o início de abril. Trata-se de uma descida de cerca de 20% face aos 87 euros por tonelada registados no arranque do ano.
A tendência descendente tem surpreendido analistas, sobretudo porque os elevados preços do gás poderiam, em teoria, levar a um maior recurso ao carvão na Europa — o que aumentaria a procura por licenças de carbono. No entanto, as dúvidas quanto à evolução económica e às políticas climáticas têm travado qualquer recuperação significativa.
A diferença entre os preços das licenças na União Europeia e no Reino Unido também se acentuou. De acordo com dados da consultora especializada Veyt, as licenças britânicas estavam, no final da semana passada, mais de 20 euros por tonelada abaixo das europeias. Na sexta-feira, o diferencial era de 23,03 euros por tonelada, superando o “acréscimo” de 18 euros aplicado a muitos emissores no Reino Unido.
Pressão política e receios de enfraquecimento do ETS
A descida dos preços surge num momento em que alguns responsáveis políticos defendem o enfraquecimento ou mesmo o abandono dos mecanismos de fixação de preços do carbono para aliviar as faturas energéticas. No entanto, especialistas alertam que tal opção poderá agravar a dependência de combustíveis fósseis.
Marcus Ferdinand, especialista em mercados de carbono da Veyt, sublinha que “se a resposta aos elevados custos energéticos for enfraquecer o ETS, a Europa troca um alívio temporário nas faturas por uma exposição de longo prazo aos combustíveis fósseis — de um ponto de vista estratégico, penso que isto é questionável”.
Na Alemanha, após pressão do setor químico, o chanceler Friedrich Merz admitiu em fevereiro a possibilidade de rever o regime, declarações que alarmaram os mercados. Posteriormente, classificou o ETS como “um sucesso”. Também a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reiterou a importância do sistema, contribuindo para a recuperação dos preços face aos mínimos de março.
Revisão do regime até julho
O foco desloca-se agora para a revisão abrangente do ETS que a Comissão Europeia deverá apresentar até julho. Entre os temas em análise está o ritmo de eliminação das licenças gratuitas atribuídas à indústria para mitigar os custos do carbono — um ponto que tem sido alvo de intenso lobby empresarial.
No início deste mês, a União Europeia decidiu limitar a subida dos preços do carbono mantendo no mercado algumas licenças gratuitas que, de outra forma, seriam canceladas.
Reino Unido sob teste decisivo
No Reino Unido, a dimensão mais reduzida do mercado significa menor liquidez e uma recuperação mais lenta após quedas de preço. A diferença face à União Europeia pode representar perdas potenciais para o Tesouro britânico, devido ao mecanismo europeu de ajustamento carbónico fronteiriço, que taxa importações provenientes de países com custos de carbono mais baixos.
Londres trabalha para voltar a ligar o seu sistema de comércio de emissões ao europeu, depois da separação decorrente do Brexit. A reconexão poderá acontecer já este verão e é vista como um teste crucial às ambições de descarbonização do governo liderado por Sir Keir Starmer.
Marcus Ferdinand considera que “a diferença de preços que se materializou este ano é um problema temporário para o mercado britânico se for alcançado um acordo de ligação na cimeira UE-Reino Unido deste verão, e um problema estrutural se esse acordo não se concretizar”.
A evolução do mercado de carbono nas próximas semanas poderá, assim, revelar-se determinante para a credibilidade das políticas climáticas europeias, num momento em que o equilíbrio entre competitividade industrial, segurança energética e descarbonização se encontra sob forte pressão.













