Espelhos gigantes no espaço: a ideia que promete iluminar a Terra… e está a alarmar os cientistas

Empresa dos Estados Unidos vai testar um satélite equipado com um espelho gigante capaz de refletir a luz do Sol de volta para a Terra, criando iluminação artificial durante a noite

Francisco Laranjeira

Parece uma ideia saída de um filme de ficção científica, mas já recebeu autorização para avançar. Uma empresa dos Estados Unidos vai testar um satélite equipado com um espelho gigante capaz de refletir a luz do Sol de volta para a Terra, criando iluminação artificial durante a noite. O objetivo é fornecer “luz solar a pedido” para setores como a agricultura, operações de emergência ou outras atividades industriais.

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Mas, para Samantha Lawler, professora associada de Astronomia na Universidade de Regina, e Aaron Boley, professor de Física e Astronomia na Universidade da Colúmbia Britânica, ambos no Canadá, este projeto representa apenas o início de uma transformação muito mais profunda. Numa análise publicada no ‘The Conversation’, os investigadores alertam que a corrida ao espaço está a acelerar sem que existam regras capazes de acompanhar esta nova realidade.

O satélite agora autorizado chama-se Earendil-1 e foi aprovado pela Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC). A empresa Reflect Orbital pretende utilizá-lo para refletir os raios solares sobre uma área com cerca de cinco quilómetros de largura, reposicionando o espelho a cada quatro minutos. O plano, contudo, vai muito além deste primeiro teste: a empresa prevê colocar em órbita mais de 50 mil satélites até 2035.

Os autores defendem que as consequências podem ser muito mais vastas do que aparentam. Os reflexos produzidos durante o reposicionamento dos espelhos poderão distrair pilotos e condutores, enquanto a iluminação noturna artificial poderá perturbar os ritmos biológicos de pessoas, animais e plantas. Há ainda receios de que a intensidade da luz possa danificar equipamentos científicos extremamente sensíveis utilizados por observatórios astronómicos e até por outros satélites.

Apesar destas preocupações, a FCC considerou que os riscos apontados não se enquadram nas competências do regulador, cuja missão está centrada na utilização do espectro radioelétrico e não nos impactos ambientais ou de segurança associados a este tipo de projetos.

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Segundo os investigadores, o espelho espacial é apenas mais um exemplo daquilo que a própria FCC já apelidou de “weird space stuff” (“coisas espaciais estranhas”), expressão utilizada para descrever uma nova vaga de propostas comerciais que inclui hotéis espaciais, publicidade em órbita, chuvas artificiais de meteoros, centros de dados alimentados por energia solar no espaço e até feixes de energia enviados para a Terra.

Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com o número de satélites em órbita. A SpaceX opera atualmente cerca de 11 mil satélites Starlink, mas já apresentou planos para lançar mais um milhão destinados a futuros centros de dados de inteligência artificial, além de outros 100 mil satélites de apoio. Para os autores, esta expansão levanta dúvidas sobre a utilização de uma região do espaço que deveria permanecer acessível a toda a humanidade.

A multiplicação de satélites aumenta igualmente o risco de colisões e de produção de lixo espacial. Além disso, os investigadores recordam que milhares de satélites já reentram anualmente na atmosfera, libertando metais e outras partículas que poderão alterar a composição atmosférica e afetar a camada de ozono.

Lawler e Boley deixam claro que não defendem o fim dos satélites, reconhecendo a importância que têm para as comunicações, a ciência e muitos serviços do dia a dia. O que contestam é uma expansão praticamente sem limites, movida por interesses comerciais e sem uma avaliação rigorosa dos impactos ambientais e científicos.

Na opinião dos dois especialistas, o verdadeiro desafio passa agora por encontrar formas de continuar a inovar no espaço, mas fazendo mais com menos. Caso contrário, alertam, a órbita terrestre poderá tornar-se um recurso cada vez mais congestionado, colocando em risco precisamente as atividades que hoje dela dependem.

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