Os especialistas em saúde pública estão preocupados com dois tipos da chamada ‘Covid-19 longa’, que consiste na persistência de sintomas várias semanas ou até meses após a infeção: se por um lado há quem sofra de sintomas prolongados, como o cansaço ou dificuldades respiratórias, há outra ‘versão’ mais preocupante, em que os doentes recuperam mas ficam sujeitos a um maior risco de coágulos no sangue e acidentes vasculares cerebrais (AVC).
Harlan Krumholz, cardiologista na Escola de Medicina da Universidade de Yale dá voz à preocupação de muitos especialistas em declarações ao The Washington Post. Ainda que não queria causar o pânico, até porque, segundo afirma, a grande maioria dos doentes que fiquem infetados com Covid-19 não desenvolverão a ‘Covid-19 longa’, sublinha que vários estudos confirmam que alguns doentes recuperados da doença desenvolvem maior risco das doenças cardiovasculares já referidas, assim como outras, como ataques cardíacos.
O especialista alerta que, em qualquer caso, como grande parte das pessoas já teve Covid, todos devemos manter-nos atentos aos primeiros sinais de um AVC:
– Dores no peito
– Inchaço anormal
– Dormência, entorpecimento ou fraqueza
– Mudanças súbitas no equilíbrio, fala ou visão
Recorde-se que, desde 2020, vários estudos vieram confirmar que a Covid-19 não é apenas uma doença respiratória, mas também afeta os vasos sanguíneos. Verificou-se que até doentes mais jovens, para além de fumadores, doentes com tensão alta ou diabetes, estavam em maior risco de desenvolver problemas cardiovasculares.
Um estudo recente, publicado no jornal de especialidade cardiovascular Heart, acompanhou 54 mil ingleses durante quatro meses e meio e concluiu que os que tinham estado infetados com Covid-19 tinham quase três vezes (2,7) mais hipóteses de desenvolver um tromboembolismo venoso (um tipo perigoso de coágulo sanguíneo) do que quem nunca tinha estado infetado pelo SARS CoV-2.
Outro estudo, publicado na Neurosurgery, concluiu que a infeção por Covid-19 estava associada a AVCs, e que AVCs que ocorressem em pessoas infetadas seriam mais graves e mais difíceis de tratar com intervenções cirúrgicas.
“Ainda não temos informação sobre se estes riscos são mitigados pela vacinação, ou se o risco elevado continua igual com a passagem do tempo. A comunidade médica sempre soube que os vírus têm efeitos duradouros, mas até esta pandemia nunca os tínhamos estudado tão a fundo”, explica Harlan Krumholz.
Nem todos os que ficam doentes com Covid-19 vão sofrer uma inflamação grave nos vasos sanguíneos, mas a doença ainda “pode ser como uma Roleta Russa”, como explica o médico Ziyad Al-Aly. “A deteção e tratamento atempados podem salvar vidas”, sublinha o especialista, que por isso alerta os que estiveram infetados com o coronavírus para que estejam atentos a qualquer sinal de que algo possa estar errado, mesmo quem não faz parte dos grupos de maior risco de AVCs. “Há algo no SARS CoV-2 que aumenta a propensão para danos no tecido dos vasos sanguíneos, que aumenta a probabilidade de coágulos sanguíneos”, resume o médico.












