O professor da Universidade de Stanford, Jay Bhattacharya, foi uma das vozes mais críticas à gestão dos Estados Unidos da pandemia da Covid-19: agora foi nomeado pelo presidente Donald Trump para liderar o National Institutes of Health (NIH) e o cirurgião da Johns Hopkins University, Marty Makary, para comandar a Food and Drug Administration (FDA). As divergências polarizadas sobre o que funcionou e o que não funcionou na luta contra o maior desastre de saúde pública dos tempos modernos ainda não foram abordadas num ambiente apartidário, sublinhou a publicação ‘Fortune’.
Atualmente sob ameaça de uma pandemia de gripe aviária H5N1, as autoridades de saúde pública americanas enfrentam o declínio da confiança pública, bem como uma nova administração de saúde disruptiva lideradas por céticos da medicina.
O novo diretor da CIA, John Ratcliffe, no entanto, reabriu a teoria do fuga do laboratório de Wuhan, uma questão que os republicanos têm usado para tentar atirar a culpa em Anthony Fauci, especialista em doenças infecciosas e um dos principais conselheiros da Covid-19 nas administrações Trump e Biden.
Em outubro de 2020, Bhattacharya foi coautor da “Declaração do Grande Barrington” com o apoio da Casa Branca de Trump: nela, pediu que as pessoas ingorassem a Covid-19 e cuidassem dos seus negócios enquanto protegiam idosos e vulneráveis, sem especificar como. Bhattacharya e Makary defenderam as políticas da Suécia, que não impôs uma quarentena severa, mas emergiu com uma taxa de mortalidade muito menor do que a dos Estados Unidos.
Jennifer Nuzzo, diretora do Centro de Pandemia da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, salientou que “embora haja algumas batalhas ideológicas reais sobre a Covid-19, também há muitas coisas que potencialmente poderiam ser corrigidas relacionadas à eficiência e às políticas do Governo”.
A discussão sobre a resposta dos EUA ainda permanece. “Nós estragámos tudo”, apontou o ex-diretor do NIH Francis Collins, que sublinhou que embora tenha culpado a desinformação sobre vacinas por muitas mortes também desejou que as autoridades de saúde pública tivessem dito “não sabemos” com mais frequência. “Atribui-se um valor infinito a parar a doença e salvar uma vida”, reconheceu. “Atribui-se valor zero a se isso realmente perturbou a vida das pessoas, arruinou a economia e manteve muitas crianças fora da escola de uma forma da qual ele nunca se recuperaram.”
Embora Fauci e outras autoridades de saúde pública tenham expressado preocupações sobre danos colaterais dos ‘lockdowns’, as medidas dos EUA foram mais rigorosas do que em grande parte do mundo. Isso deixou questões não resolvidas: sobre por quanto tempo as escolas deveriam ter sido fechadas, se a obrigação do uso de máscaras funcionou e se o público foi enganado sobre a eficácia das vacinas.
Ao mesmo tempo, as autoridades dos EUA falharam em comunicar claramente que as vacinas evitaram a maioria das mortes e hospitalizações: estima-se que 232 mil americanos não vacinados morreram pela Covid-19 durante os primeiros 15 meses em que estiveram disponíveis as vacinas gratuitamente.
A redução de danos era a principal preocupação da médica infectologista Monica Gandhi que desafiou as ordens de ‘lockdown’ em San Francisco: manteve aberta a Ward 86, a clínica onde cuida de 2.600 pacientes com SIDA. Os seus pacientes — muitos pobres ou sem-abrigo — tiveram de ser tratados pessoalmente para manter o HIV sob controlo. Em geral, os lockdowns prejudicam mais as pessoas de baixo rendimento, apontou: os ricos “ficaram felizes por serem fechados, e os pobres lutaram e lutaram”.
Apesar das restrições, incluindo fecho de escolas mais longos do que na maioria dos países europeus, a taxa de mortalidade pela Covid-19 nos EUA foi a mais alta do mundo, à exceção da Bulgária.
No entanto, o desaparecimento de doenças virais, como o VSR (vírus sincicial respiratório) ou a gripe, no final de 2020, mostrou o quanto a situação poderia ter sido pior sem os ‘lockdowns’, anotou Paul Offit, diretor do Centro de Educação sobre Vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia: embora as crianças fossem as menos vulneráveis à Covid-19, morreram 1.700 até abril de 2023. Mais de um milhão de crianças americanas tiveram a ‘Covid longa’ em 2022, de acordo com um estudo do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC).














