Especialistas alertam para a “apneia do e-mail”, um problema cada vez mais comum na era digital. De que se trata e quais os efeitos?

Receber um e-mail inesperado, abrir uma mensagem importante ou tentar escrever a resposta perfeita pode desencadear uma reação física involuntária que muitas pessoas desconhecem.

Pedro Zagacho Gonçalves

Receber um e-mail inesperado, abrir uma mensagem importante ou tentar escrever a resposta perfeita pode desencadear uma reação física involuntária que muitas pessoas desconhecem. Especialistas alertam para um fenómeno conhecido como “apneia do e-mail”, uma tendência para prender temporariamente a respiração ou respirar de forma superficial enquanto se está concentrado no ecrã, uma resposta que pode contribuir para o aumento do stress e da ansiedade.

Embora não seja um termo médico formal, a expressão é utilizada para descrever um comportamento cada vez mais comum no contexto digital. Segundo Carrie Howard, assistente social clínica licenciada e especialista em ansiedade, trata-se da “tendência inconsciente que algumas pessoas têm para suspender temporariamente a respiração ou respirar de forma mais superficial enquanto estão focadas no que acontece nos seus ecrãs”.

A especialista sublinha que o fenómeno não está limitado ao correio eletrónico. O mesmo pode acontecer durante a troca de mensagens, a navegação nas redes sociais ou outras tarefas que exijam elevada concentração. Nestes casos, é também frequentemente designado por “apneia do ecrã” ou “apneia do computador”.

Quando o corpo interpreta um e-mail como uma ameaça
Jamie Janko, fundadora da ReWild Breathwork, explica que a reação está intimamente ligada ao funcionamento do sistema nervoso. À medida que a atenção se concentra no ecrã, o corpo tende a inclinar-se para a frente e a entrar num estado de alerta que pode ser interpretado como uma potencial ameaça.

“O corpo lê esta situação quase como se fosse um perigo e prepara-se para reagir”, afirma. Segundo a especialista, uma das primeiras respostas fisiológicas perante uma ameaça é precisamente prender a respiração.

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A terapeuta somática Danica Harris acrescenta que as notificações digitais criam frequentemente um estado de preparação constante. Ao surgir um novo e-mail, muitas pessoas reagem de forma automática, questionando-se se fizeram algo errado ou o que lhes será pedido naquela mensagem. Essa antecipação contribui para a respiração superficial ou para a suspensão momentânea da respiração.

Respiração superficial pode intensificar ansiedade e tensão
Os especialistas alertam que este padrão respiratório pode ter consequências relevantes para o organismo. Respirar apenas de forma superficial, utilizando sobretudo a zona superior do peito em vez do diafragma, envia sinais ao sistema nervoso para permanecer em estado de luta ou fuga, o mecanismo biológico associado ao stress.

Danica Harris explica que a respiração curta e superficial pode aumentar a frequência cardíaca. Como o cérebro tende a interpretar um ritmo cardíaco acelerado como um sinal de ativação ou ansiedade, cria-se um ciclo em que a ansiedade aumenta e, consequentemente, também aumenta a tensão física.

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Entre os sinais mais comuns estão o apertar involuntário da mandíbula, a contração dos punhos, a elevação dos ombros e uma sensação constante de rigidez corporal. Carrie Howard alerta ainda que “prender a respiração, mesmo de forma inconsciente, mantém o corpo e a mente num estado de hipervigilância”.

Quando este padrão se prolonga ao longo do dia, podem surgir sintomas como fadiga, dores de cabeça, tensão muscular ou uma sensação persistente de nervosismo. Os suspiros profundos que muitas pessoas dão ocasionalmente podem ser, segundo os especialistas, uma tentativa natural do organismo para restaurar o ritmo respiratório normal.

Como contrariar a “apneia do e-mail”
Os especialistas defendem que o primeiro passo passa por reconhecer o problema. Jamie Janko considera que a consciencialização é fundamental para interromper o padrão automático.

A recomendação é simples: antes de abrir um e-mail ou responder a uma mensagem importante, fazer uma expiração completa, colocar ambos os pés no chão, relaxar a mandíbula e prestar atenção ao estado do corpo.

Outra técnica sugerida é a chamada respiração coerente, que consiste em inspirar pelo nariz durante cinco segundos e expirar pelo nariz durante outros cinco segundos. Este exercício ajuda a tornar a respiração mais profunda, favorecendo a utilização do diafragma e reduzindo os níveis de ativação fisiológica associados ao stress.

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Além disso, Carrie Howard recomenda pausas regulares durante o trabalho, incluindo pequenas caminhadas ou alongamentos, para interromper períodos prolongados de tensão acumulada.

Tecnologia amplifica a sensação de urgência
Os especialistas recordam que a maioria das notificações, mensagens e e-mails recebidos diariamente não representam uma ameaça real. No entanto, a rapidez da comunicação digital pode levar o organismo a reagir como se estivesse perante uma situação de emergência.

Para Carrie Howard, a “apneia do e-mail” serve precisamente como um alerta sobre a forma como o stress não afeta apenas a mente, mas também o corpo. “É um lembrete de que todo o stress que sentimos não existe apenas nos nossos pensamentos. Também se manifesta fisicamente, mesmo quando não nos apercebemos disso”, afirma.

Num contexto em que o trabalho digital ocupa cada vez mais horas do dia, os especialistas defendem que prestar atenção à respiração pode ser uma ferramenta simples, mas eficaz, para reduzir a ansiedade e melhorar o bem-estar físico e mental.

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