«Espanha deixa a região mais pobre de Portugal sem água», diz jornal espanhol

«Espanha fez algo sem precedentes este ano». É assim que começa um artigo do «El Confidencial», referindo-se às enormes quantidades de água que a última barragem espanhola deixou passar para tentar a cumprir a Convenção de Albufeira, em 20 dias. «O efeito é catastrófico.»

O jornal digital espanhol escreve que «a região mais pobre de Portugal está condenada à ruína absoluta» e que Espanha – «dizem eles [os portugueses], é responsável».

O Tejo, maior rio da Península Ibérica, nasce na serra de Albarracín, em Madrid. Só em Espanha, tem 58 barragens. Sedillo é a última e está encaixada praticamente toda em território português, em Portalegre e Castelo Branco, mas é gerida pela eléctrica espanhola mais poderosa. E é aqui que começa o problema.

À “SIC”,  o alcaide de Cedillo, Antonio González Riscado, explicou, há dias, que «Espanha foi libertando o caudal mínimo exigido, mas quando chegou a Setembro declararam estado de emergência por seca e tiveram de libertar tudo o que não tinham libertado durante o ano hidrológico. Tinham de libertar 2700 hectómetros cúbicos, mas se só tinham libertado o mínimo de repente, tiveram de libertar muita água para que no final do ano hidrológico a 30 de Setembro cumprissem o que está na convenção entre os dois países». Ou seja, em duas semanas, Espanha terá deixado passar mais de 400 hectómetros cúbicos pela barragem de Cedillo, o que baixou drasticamente o Tejo Internacional.

«O  Tejo é a nossa fonte de vida. Graças a ele, temos turismo e pesca, empresas agrícolas e abastecimento de água potável. O Tejo não pertence a ninguém, mas se nos deixarem neste estado lamentável, ficamos sem nada. Se não for encontrada uma solução em breve, eles arruinarão a nossa economia. Há empresas familiares que terão de fechar», adverte Armindo Silveira, porta-voz do movimento ProTejo.

É a pior seca de que há memória no Tejo. Os afluentes Ponsul, na Beira Baixa, e Sever, no Alto Alentejo, estão praticamente sem uma gota devido à falta de chuva e às políticas de gestão de recursos hídricos espanholas, refere o “El Confidencial”.

O porta-voz da ProTejo aponta o dedo à «nefasta» gestão espanhola, acusando-a de colocar os interesses de uma multinacional à frente do interesse público – neste caso, o povo português. A multinacional é a Iberdrola, que gere as barragens de Cedillo e Alcântara, onde possui centrais hidroeléctricas. E, em ambas, a multinacional pode escolher reter ou liberar água, dependendo das suas necessidades.

A Confederação Hidrográfica do Tejo (CHT) espanhola garante que «cumpriu rigorosamente todas as obrigações, semanais, trimestrais e anuais, decorrentes do acordo para o ano hidrológico de 2018-2019».

A tese é corroborada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA). A APA diz estar segura de que a CHT cumpriu os mínimos exigidos e salienta que o baixo nível do caudal no Tejo se deve às «descargas extraordinárias na barragem de Cedillo para que Espanha possa cumprir o regime de caudal anual estabelecido pela Convenção de Albufeira».

“Portugal está a pedir água desde Fevereiro, mas como a Iberdrola não precisava de produzir energia, não descarregava água e, no final do ano hidrológico, tinha de libertá-la de uma só vez. Era isso ou uma sanção da Europa», explica Roberto Ramallete, activista e capitão do navio turístico Balcón del Tajo, que faz rotas pelo Parque Internacional do Tejo.

Luis Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, caracteriza a gestão espanhola como «incompreensível» e tem uma explicação: Espanha esperava que a Europa declarasse o estado de seca, pelo que não teria de entregar uma gota do necessário para não matar o rio. Mas a seca não foi decretada. «O impacto no ecossistema e na nossa economia é brutal. Dependemos do turismo e o Parque Internacional do Tejo é fundamental para nós. Sem água ficamos sem recursos. Estão a destruir o nosso património natural», queixa-se, denunciando que durante todo o ano hidrológico o Tejo teve «caudais baixos, insignificantes e irregulares».

Já  Antonio González, presidente da Câmara Municipal de Cedillo, também acredita que a CHT «travou a transferência de água enquanto esperava que o estado de seca fosse declarado» e assegura que «isto nunca tinha acontecido nos 44 anos desde a construção da barragem de Cedillo».

No dia 4 de Outubro, os autarcas afectados de ambos os lados da fronteira reuniram em Castelo Branco-se para acordar uma acção conjunta. «A situação é sem precedentes e inaceitável. Demonstra uma profunda insensibilidade para com este território. Os autarcas exigem que a situação actual não se repita no futuro», expressam em comunicado conjunto, citado pelo jornal espanhol. Alguns especialistas dizem mesmo que o fluxo de Espanha para Portugal foi reduzido em 25% nas últimas duas décadas.

Mas Portugal tem também a sua responsabilidade, de acordo com os afectados. Perante a avalanche de hectómetros cúbicos que se aproximavam, deveria ter-se coordenado com Espanha para interromper a transferência de 440 hectómetros cúbicos em apenas quatro semanas.

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