Eslováquia ameaça deixar a NATO caso seja aprovado aumento do orçamento da defesa na cimeira da próxima semana

Esta meta orçamental tem sido fortemente impulsionada pelos Estados Unidos e conta já com um amplo consenso entre os restantes aliados.

Pedro Gonçalves
Junho 18, 2025
15:45

O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, lançou esta quarta-feira um sério aviso que está a abalar os bastidores da NATO: o país poderá abandonar a Aliança Atlântica se na próxima cimeira, marcada para os dias 24 e 25 de junho em Haia, for acordado um aumento do gasto em defesa até 5% do Produto Interno Bruto (PIB). Esta meta orçamental tem sido fortemente impulsionada pelos Estados Unidos e conta já com um amplo consenso entre os restantes aliados.

Durante uma reunião com líderes partidários e com o presidente eslovaco, Peter Pellegrini, Fico criticou duramente os países ocidentais, acusando-os de promoverem uma política “belicista” que, segundo ele, apenas serve os interesses da indústria do armamento. O chefe do governo de Bratislava sublinhou que atingir o patamar de 5% do PIB representaria para a Eslováquia um esforço financeiro superior a 7 mil milhões de euros anuais, o equivalente, destacou, a quase um quinto do orçamento do Estado. Para Fico, tal despesa colocaria em causa as prioridades sociais e económicas do país.

A proposta que será discutida na cimeira de Haia assenta num plano apresentado pelo secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que prevê, até 2032, um investimento equivalente a 5% do PIB dos Estados-membros em defesa. Destes, 3,5% destinam-se ao orçamento militar direto, enquanto o restante 1,5% será canalizado para áreas como proteção de infraestruturas estratégicas e ciberdefesa. Rutte tem alertado para a necessidade de reforçar a preparação da Aliança e insistiu que “é imperativo fechar o fosso entre a situação atual e o nível necessário de prontidão para garantir a segurança das populações”.

O responsável máximo da NATO também voltou a sublinhar que Rússia poderá vir a atacar um país da Aliança em 2029, reforçando assim a urgência de investir em capacidades defensivas, especialmente na região do Báltico. Para Rutte, o apoio à Ucrânia “não é temporário, mas uma política duradoura”, essencial para garantir uma paz estável na Europa.

As declarações de Robert Fico geraram fortes reações no plano interno. Embora não tenha formalizado qualquer pedido de saída da NATO, o primeiro-ministro deixou claro que vê apenas “dois caminhos possíveis: cumprir com estas exigências ou abandonar a Aliança”. Fico admitiu, no entanto, não ter autoridade para tomar sozinho uma decisão desta magnitude, sublinhando que seria necessário um debate no parlamento ou até a convocação de um referendo nacional.

A resposta do presidente Peter Pellegrini foi célere e firme: o chefe de Estado assegurou que Eslováquia não tem qualquer intenção de abandonar a NATO e reafirmou o compromisso do país com os valores e princípios da Aliança Atlântica. Várias figuras do governo e da oposição classificaram as palavras de Fico como “irresponsáveis” e “desestabilizadoras”, sobretudo num momento de elevada tensão na Europa, com a guerra na Ucrânia e o aumento da pressão russa na região.

Desde o regresso ao poder em 2023, Robert Fico tem adotado uma linha abertamente pró-russa, bloqueando o envio de ajuda militar a Kiev, criticando as sanções impostas a Moscovo e questionando a adesão da Ucrânia à própria NATO. Esta postura tem provocado tensões dentro do próprio executivo e protestos da sociedade civil, além de alimentar desconfianças entre os parceiros europeus, que veem com preocupação o posicionamento geopolítico de Bratislava.

Embora uma saída da Eslováquia da NATO pareça improvável a curto prazo, o simples facto de um primeiro-ministro de um Estado-membro colocar publicamente essa hipótese é visto por analistas como sinal de uma crescente fratura na unidade ocidental frente a Moscovo. As declarações de Fico são interpretadas como uma vitória simbólica para o Kremlin, que há muito procura minar a coesão da Aliança na Europa Central e de Leste.

A cimeira de Haia, assim, reveste-se de particular importância, não apenas pela definição do orçamento de defesa da NATO para a próxima década, mas também pelo teste à solidez da união entre os seus membros num contexto internacional cada vez mais volátil.

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