Apresentava-se como “escravo de Alá”, assumia uma leitura rigorosa do Corão e terá difundido conteúdos de propaganda jihadista a partir da Madeira. Luís, também conhecido como Bilal, nome que lhe foi atribuído durante o período em que esteve detido numa prisão inglesa, onde se converteu ao Islão, é acusado pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal de dois crimes de incitamento ao terrorismo e dois crimes de glorificação do terrorismo, segundo a acusação a que as autoridades tiveram acesso.
De acordo com o Público, o processo remonta a Dezembro do ano passado, embora só recentemente um juiz tenha decretado as medidas de coacção requeridas pelo Ministério Público, obrigando o arguido, hoje com 32 anos, a apresentações semanais na polícia, proibindo-o de sair da Madeira e impedindo-o de consumir ou divulgar conteúdos jihadistas online. A acusação descreve um percurso de radicalização prolongado, marcado pela exaltação da jihad, da aplicação rigorosa da Sharia e pela legitimação da violência contra quem considera “infiéis”.
Um dos episódios centrais ocorreu em Março de 2020, quando Luís partilhou um vídeo em que um homem era violentamente agredido por pisar o Corão, comentando que “era assim que se devia lidar com cada infiel que se opõe a Alá e ao seu mensageiro”. A actividade desenvolvia-se sobretudo no Facebook, onde manteve várias contas, incluindo versões em árabe, através das quais seguia e partilhava mensagens de pregadores extremistas, símbolos associados ao Estado Islâmico e conteúdos considerados de propaganda jihadista, apesar de a plataforma lhe ter encerrado perfis por violação das regras.
O percurso pessoal descrito na acusação inclui uma infância passada no Reino Unido, para onde se mudou com a família ainda criança, uma educação cristã como Testemunha de Jeová, o envolvimento com drogas na adolescência e uma condenação por tráfico de estupefacientes que o levou à prisão em 2014 e, mais tarde, à expulsão do Reino Unido. De regresso à Madeira, passou a viver isolado na Camacha, mergulhado nas redes sociais e em contactos com muçulmanos ligados a movimentos jihadistas, assumindo sentir-se um “estrangeiro” no local onde nasceu.
Ao longo dos anos, Luís terá subordinado a vida pessoal à fé radical que adoptou, tentando converter a mulher ao Islão, afastando-se da família e afirmando, em mensagens trocadas com amigos e familiares, que não se importava de ser apelidado de “fanático” ou “extremista”, considerando isso “uma honra”. Numa conversa de 2023, chegou mesmo a afirmar que ir para a prisão “por causa de Alá” seria motivo de orgulho, frase que surge agora como um dos elementos centrais da acusação que levou o Ministério Público a avançar com o processo.








