Os alarmes em torno da conduta da tripulação a bordo de voos comerciais voltaram a soar após um episódio ocorrido em maio num voo da British Airways. Um assistente de bordo foi surpreendido nu e a dançar na casa de banho da classe executiva, alegadamente sob o efeito de drogas, durante uma ligação entre São Francisco e Londres. O funcionário foi detido à chegada ao aeroporto de Heathrow, em Londres, e encontra-se suspenso enquanto decorre uma investigação interna.
Este caso, que gerou estupefação tanto entre passageiros como entre especialistas do sector da aviação, não é um episódio isolado. De acordo com dados compilados pela AirAdvisor, plataforma internacional que se dedica à defesa dos direitos dos passageiros e à promoção da segurança aérea, foram registados 10 incidentes envolvendo tripulação sob influência de álcool ou drogas desde 2016. Só em 2025, já ocorreram três situações semelhantes.
Em comunicado, Anton Radchenko, advogado especializado em direito aeronáutico e CEO da AirAdvisor, sublinhou que “os passageiros têm o direito de se sentir seguros a bordo, o que inclui ter a certeza de que a tripulação está sóbria e em plenas condições para o exercício das suas funções”. Para o responsável, o episódio protagonizado pela British Airways é “particularmente alarmante” e evidencia a necessidade de reforçar o combate à toxicodependência entre profissionais da aviação.
Radchenko reconhece que casos como estes são raros, mas alerta que devem ser vistos como um sinal para reforçar os padrões de segurança. “Estes incidentes são alertas sérios de que a segurança não deve ser subestimada. Apesar disso, é importante manter a perspectiva de que a aviação continua a ser um dos sectores mais seguros do mundo. As companhias têm de agir com transparência e rapidez para salvaguardar os direitos dos passageiros”, afirmou o especialista.
O CEO da AirAdvisor realçou ainda que as companhias aéreas estão sujeitas a regras apertadas no que respeita ao controlo do consumo de álcool e drogas por parte da tripulação. É prática habitual a realização de testes obrigatórios antes e após os voos, sendo que muitas jurisdições aplicam uma política de tolerância zero. Quando há incumprimento, as sanções podem passar pela suspensão imediata, pela revogação da licença para voar e, em determinados casos, por acusações criminais.
Radchenko recorda que situações em que um voo seja atrasado ou cancelado devido à incapacidade de um membro da tripulação conferem aos passageiros o direito a indemnização, nos termos do Regulamento (CE) n.º 261/2004 ou do regulamento equivalente do Reino Unido (UK261). Dependendo da distância do voo e do atraso sofrido, as compensações podem variar entre os 250 e os 600 euros. “Se um voo for perturbado porque um tripulante não passou num teste de álcool, quase sempre a responsabilidade é da companhia aérea e os passageiros têm direito a ser compensados”, esclareceu.
As preocupações com o comportamento a bordo estendem-se também aos passageiros. A Ryanair anunciou recentemente a aplicação de coimas no valor de 500 euros a passageiros que provoquem distúrbios devido ao consumo excessivo de álcool, sobretudo em voos entre o Reino Unido e Ibiza. A companhia apelou ainda aos bares e lojas duty free dos aeroportos para limitarem a venda de bebidas alcoólicas. Segundo Anton Radchenko, “estar embriagado num avião não é apenas irresponsável, é perigoso. Coloca em risco a segurança do voo, causa atrasos, cancelamentos e perturbações em cadeia na operação”.
Os 10 incidentes mais marcantes desde 2016
A AirAdvisor divulgou uma lista com 10 casos envolvendo tripulação sob o efeito de álcool ou drogas:
British Airways (maio de 2025) – Comissário de bordo de 41 anos encontrado nu e a dançar na casa de banho da classe executiva num voo São Francisco-Londres. Foi detido em Heathrow e está suspenso.
SAS (abril de 2025) – Comissário reprovou num teste de alcoolemia pré-voo em Estocolmo (0,26‰, acima do limite sueco de 0,2‰). Afastado de serviço.
Southwest Airlines (janeiro de 2025) – Piloto detido no aeroporto de Savannah por sinais de embriaguez. O voo atrasou quase cinco horas.
Cathay Pacific (julho de 2024) – Piloto júnior falhou teste de álcool em Sydney antes de voo internacional. O voo atrasou 24 horas.
Delta Air Lines (novembro de 2024) – Dois comissários reprovados em testes aleatórios em Amesterdão. Um apresentava 1,43‰ no sangue. Ambos foram suspensos e multados.
Air India (março de 2024) – Comandante reprovou em teste pós-voo entre Phuket e Deli. Foi demitido e denunciado às autoridades.
Delta Air Lines (junho de 2023) – Piloto embriagado apresentou-se para voo entre Edimburgo e Nova Iorque. Condenado a 10 meses de prisão.
Alaska/Horizon Air (outubro de 2023) – Piloto fora de serviço tentou desligar motores durante o voo sob efeito de cogumelos alucinógenos. Foi preso e enfrenta processo criminal.
United Airlines (julho de 2023) – Piloto embriagado em voo Paris-EUA. O voo foi cancelado e o piloto suspenso.
Citilink Indonesia (dezembro de 2016) – Piloto iniciou briefing pré-voo com fala arrastada. Passageiros alertaram as autoridades. O incidente levou à suspensão do piloto e à demissão de executivos da companhia.













