Itália está no centro de uma enorme violação de bases de dados nacionais que envolve, pelo menos, mais dois países europeus, a Lituânia e a Grã-Bretanha.
Segundo uma investigação da Direção Distrital Antimáfia (DDA), de Milão, uma rede criminosa que geria bases de dados paralelas com informações sensíveis ou confidenciais, ilegalmente roubadas, era capaz de “influenciar” cidadãos e instituições, indicaram os procuradores responsáveis pela investigação. Entre as personalidades incluídas nas centenas de milhares de documentos desviados estão o presidente do Senado italiano, Ignazio la Russa, o presidente italiano, Sergio Mattarella, e o antigo primeiro-ministro Matteo Renzi.
As autoridades italianas vão realizar interrogatórios judiciais, esta quinta-feira, a seis pessoas sob medidas cautelares.
No centro da investigação, que também está a decorrer no Ministério Público de Roma, estão duas pessoas que se encontram em prisão domiciliária desde a passada sexta-feira, tal como outras quatro acusadas de acesso abusivo a um sistema informático, suborno e revelação de segredos oficiais.
Trata-se de Carmine Gallo, um antigo polícia com uma longa experiência em casos de rapto e de crime organizado, e de Nunzio Samuele Calamucci, um informático considerado pelos investigadores como o braço operacional do roubo de dados. Numa residência privada, foi apreendido um arquivo em papel que continha dossier sobre “milhares de pessoas”, segundo as declarações de Gallo em interceções telefónicas recolhidas pelos investigadores.
O grupo girava em redor da empresa Equalize, que, através do apoio das instituições e das forças da ordem e de uma empresa em Londres, operava para aceder ilegalmente ao Sistema Informático de Investigação (SDI) do Ministério do Interior.
O SDI contém dados úteis para atividades de investigação, tais como relatórios de crimes, queixas, dados pessoais, bancários e fiscais. O roubo envolveu também outras bases de dados, incluindo um sistema de intercâmbio de dados financeiros, que dá acesso aos pagamentos de impostos e às declarações para efeitos fiscais de todos os cidadãos italianos.
Entre as dezenas de milhares de documentos e dados roubados, num total de 15 terabytes, escreveram os juízes, havia até algumas mensagens de correio eletrónico do presidente da República italiana.
Os magistrados italianos ordenaram a apreensão de um servidor na Lituânia e estão a considerar enviar uma rogatória para o Reino Unido, para investigar em Londres, onde, segundo as escutas de Calamucci, se situava o “centro de dados” da operação.
“Fiz algumas unidades de reserva, uma no escritório de Londres e outra na Lituânia, digo-vos a verdade porque era o sítio mais barato para comprar servidores”, diz o suspeito numa das interceções judiciais, divulgadas pelos meios de comunicação italianos.
De acordo com o DDA, estes dossiers foram revendidos a clientes e consumidores (incluindo nomes de empresários italianos e europeus e, pelo menos, de um serviço secreto estrangeiro), com um lucro de mais de cinco milhões de euros para a Equalize e outras empresas.
“Foi elaborado um dossier específico contra figuras políticas de alto nível”, comentou no passado domingo o ministro da Justiça Carlo Nordio. “É claro que há um endereço e uma direção e, por isso, é correto falar de uma conspiração”, disse Nordio ao ‘Corriere della Sera’.
“Estes dados podem ser utilizados por aqueles que são nossos inimigos de um ponto de vista geoestratégico”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani: “não é de excluir que a Rússia ou outros países que não são nossos amigos os utilizem”, salientou. Entre as pessoas espiadas encontram-se cidadãos russos com investimentos em Itália na indústria hoteleira e da moda e com possíveis ligações políticas ao Kremlin.














