Escândalo de corrupção: ‘Nódoa’ do Qatargate já envolve suspeitas sobre a Comissão Europeia

Sabe-se que a investigação belga também incide sobre suspeitas de subornos e corrupção envolvendo membros da Comissão Europeia.

Pedro Zagacho Gonçalves

À medida que vão sendo conhecidos mais detalhes sobre a investigação ao escândalo de corrupção conhecido como ‘Qatargate’, que envolve figuras e ex-membros do Parlamento Europeu, percebe-se que a ‘nódoa’ e as ramificações do caso vão aumentando progressivamente. Agora, sabe-se que a investigação belga também incide sobre suspeitas de subornos e corrupção envolvendo membros da Comissão Europeia.

O facto é revelado pelos investigadores nos documentos judiciais que justificam a detenção dos envolvidos no ‘Qatargate’, onde se incluem Eva Kaili, ex-vice-presidente do Parlamento, o seu companheiro, Francesco Giorgi, ou o Antonio Panzeri, ex-eurodeputado e presidente da ONG Fight Impunity, que serviria como intermediário para os subornos do Qatar (e também de Marrocos) a fim de influenciar as decisões dos organismos da UE a favor destes países.

“O grupo, para além de ação de lobbying legítima, agiu em cooptação com eurodeputados, assistentes e assessores parlamentares, oficiais do Serviço Europeu de Ação Externa (EEAS) e líderes sindicais”, lê-se nos documentos redigidos pelos procuradores, citados pelo La Republicca.

Ou seja, para além do Parlamento Europeu, de eurodeputados, ONGs e associações sindicais, também a Comissão Europeia é diretamente referida, através do seu organismo que serve como Ministério dos Negócios Estrangeiros da UE, e que é liderado precisamente pelo vice-presidente da Comissão, e responsável pela diplomacia europeia, o espanhol Josep Borrell.

Os documentos judiciais citam o relatório dos serviços secretos belgas, a Vsse, em que há uma referência específica a escritórios na Praça Schuman, onde fica o Edifício Berlaymont, sede da Comissão Europeia. Nos documentos dos procuradores belgas não há referência a nomes, mas as suspeitas de envolvimento de “oficiais do EEAS” no esquema de subornos de Doha e Rabat é uma das grandes linhas de investigação das autoridades.

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A isto acrescenta-se que o antigo comissário europeu, Dimitri Avrampoulos, também está envolvido no escândalo de corrupção e terá de explicar aos juízes o chorudo ‘salário’ que recebia da ONG de Panzeri.

Escândalo já infiltrado na Comissão?
O foco da investigação parece não ser a posição do antigo comissário, mas a infiltração do esquema de corrupção na Comissão, já que o ‘trio’, de Panzeri, Francesco Giorgi e Andrea Cozzolino (ex-eurodeputado e membro de outra ONG envolvida) queria intervir na maneira mais ampla possível “dentro das instituições da UE”.

Os investigadores temem que o que descrevem como “um ataque à segurança pública” e um “perigo para a democracia” envolva questões também de segurança nacional dos países-membros da UE.

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“O último objetivo que tinham, a sua motivação, era influenciar as decisões das instituições europeias”, em troca de “enormes quantias de dinheiro”, estabelecem os procuradores.

E o que queriam em troca Marrocos e o Qatar?
Os investigadores belgas listam algumas das metas que Doha e Rabat queriam atingir com a influência exercida sobre as instituições da UE. “Para Marrocos, a UE é principalmente um parceiro de trocas comerciais, e a sua segurança energética depende da Europa. Em jogo têm um acordo de pesca e agricultura. A questão dos migrantes, ou a posição de Bruxelas na questão do Sahara, que Marrocos ocupou parte sem que esse território lhe seja reconhecido”, são alguns dos aspetos destacados.

Já para o Qatar, a prioridade era “melhorar a imagem em relação aos direitos dos trabalhadores” no país, em particular os que estavam envolvidos na construção dos estádios do Mundial de Futebol.

Mas havia muitos outros objetivos ‘secundários’, apontados pelos procuradores, e que vão ao coração da ação das instituições europeias: “Dar vida a várias resoluções parlamentares” que combatesse a oposição aos dois países, conseguir “declarações públicas de apoio”, “nomear candidatos ao prémio Sakharov”, “alterar o Relatório Anual de Política Externa” e, por último mas não menos importante, “tentar colocar na presidência ou vice-presidência de comissões parlamentares, como a DARP (de relações com a península árabe), a Afet ou a Droi” pessoas de confiança dos envolvidos. Cozzolino seria um destes, ao mesmo tempo que a subida de Eva Kaili para vice-presidente do Parlamento Europeu também poderá ter envolvido favores e influência de Panzeri, segundo suspeitam os investigadores.

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