Escândalo de corrupção: Deputados ingleses recebem do Qatar presentes “luxuosos” avaliados em mais 300 mil euros antes do Mundial

Assim, os deputados que receberam as ofertas estão agora a ver-se obrigados a justificar o porquê de lhes terem sido atribuídas pelo Qatar, perante as críticas de várias associações e organizações de defesa dos direitos humanos.

Pedro Zagacho Gonçalves

Numa altura em que a União Europeia (UE) se vê a braços com o maior escândalo de corrupção de sempre a assolar o Parlamento Europeu, no chamado ‘Qatargate’, em que figuras de Bruxelas, incluindo a ex-vice do Parlamento Europeu, são suspeitas de aceitar subornos para intervir nas instituições europeias a favor do Qatar, o tema gera também polémica no Reino Unido.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Este escândalo de ‘lobbying’, vem também levantar alarme às ‘ações de charme’ levadas a cabo pelo Qatar antes do Mundial de Futebol, que decorre naquele país árabe. O governo qatari, segundo o Politico, gastou mais de 300 mil euros em presentes, viagens com tudo pago e estadias em hotéis, tudo descrito como “luxuoso”, a deputados do Reino Unido desde outubro do ano passado.

Assim, os deputados que receberam as ofertas estão agora a ver-se obrigados a justificar o porquê de lhes terem sido atribuídas pelo Qatar, perante as críticas de várias associações e organizações de defesa dos direitos humanos.

“Nenhum político deve receber dinheiro ou viagens luxuosas do Qatar. Em vez disso, devem estar é a falar contra as extensas violações de direitos humanos daquele regime”, declara Sacha Deshmukh, chefe executivo da Amnistia Internacional. Também Rose Whiffen, investigadora da associação Transparency International UK, não poupa críticas: “Estes deputados deviam perguntar-se o porquê de governos com maus registos de direitos humanos estarem a oferecer-lhes viagens pagas ao estrangeiro, antes de decidirem se é certo ou não aceitar”.

Não há para já provas que apontem para suspeitas de subornos a deputados do parlamento inglês, mas alguns dos que receberam presentes do Qatar têm sido criticados por terem iniciado debates nos quais elogiaram a defesa dos direitos humanos no Qatar, ainda que tenham declarado, por exemplo, as viagens oferecidas, de acordo com as regras parlamentares.

Continue a ler após a publicidade

No total, são 36 os deputados ingleses, de vários quadrantes políticos que receberam os mais de 300 mil euros em presentes, com três deles a receberem benefícios avaliados em mais de 15 mil euros cada um. Em média, cada deputado recebeu presentes avaliados em mais de 8 mil euros e o Qatar ofereceu-lhes viagens com um valor médio que ultrapassa os seis mil euros.

Os deputados do Partido Conservador estão em maioria (23 dos 36 identificados), com Nigel Evans (porta-voz), Crispin Blunt e Mark Pritchard a receberem presentes do Qatar avaliados em mais de 11 mil euros cada um: são os que tiveram direito a maior generosidade do Qatar, com os dois primeiros deputados a terem ofertas num valor superior a 15 mil euros. Outro que recebeu ofertas no mesmo valor foi Angus Brendan MacNeil, deputado do Partido Nacional Escocês.

Alun Cairns, que recebeu presentes e viagens acima dos 10 mil euros, alegou na Câmara dos Comuns em Outubro que “o desporto pode mudar o mundo”, citando Nelson Mandela, e falou da “importância de aproximar culturas para melhor perceber, influenciar e progredir”, para que “cada nação respeite, identifique e apoio os direitos humanos”.

David Mundell, também Conservador, e que recebeu presentes dos qataris de mais de 8 mil euros, desvalorizou a falta de direitos humanos para pessoas LGBTQI+ no Qatar: “Muitas das pessoas que falam deste assunto deviam preocupar-se em lidar com os problemas LGBT no futebol profissional do Reino Unido”.

Em geral, todos os 36 deputados listados, poucas ou nenhumas vezes criticaram o Qatar nos debates.

Continue a ler após a publicidade

Alguns envolvidos já justificaram as viagens e presentes recebidos, como Jackie Doyle-Price que diz que “é precisamente para os desafiar quando a problemas de direitos humanos que vamos nessas viagens”. Se vamos moralizar o Qatar, devemos ser mais honestos connosco próprios e com as nossas falhas”, declarou a deputada.

Já Gill Furniss, a deputada do Partido Trabalhista inglês que recebeu presentes do Qatar no maior valor (mais de 8 mil euros) disse que aceitou viajar para o país “para poder ter discussões francas e completas com os líderes políticos sobre questões de direitos humanos”, acrescentando que dicou “desapontada com a falta de progresso” obtido.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.