Escândalo com a Vinted: Fotos de mulheres usadas sem consentimento em sites pornográficos

Nas últimas semanas, várias jovens utilizadoras da plataforma de compra e venda de roupa em segunda mão Vinted têm denunciado que as suas fotografias pessoais, publicadas para promover os artigos, estão a ser reutilizadas indevidamente em sites pornográficos.

Pedro Gonçalves
Agosto 11, 2025
15:38

Nas últimas semanas, várias jovens utilizadoras da plataforma de compra e venda de roupa em segunda mão Vinted têm denunciado que as suas fotografias pessoais, publicadas para promover os artigos, estão a ser reutilizadas indevidamente em sites pornográficos. Esta situação tem gerado preocupação crescente sobre a privacidade e a exploração não consensual de imagens na internet.

Mina, uma jovem alemã de 22 anos, tornou pública a sua experiência através de um vídeo publicado no Instagram, onde revelou que imagens suas tiradas para a Vinted apareceram em sites de conteúdo pornográfico sem o seu consentimento. Segundo explicou, ao procurar o seu nome no Google, os resultados mostravam essas páginas, nas quais as suas fotos — onde usava biquínis e vestidos de Verão — eram usadas para a apresentar como uma “modelo erótica” ou “estrela do Only Fans”, de acordo com reportagem do jornal britânico The Guardian.

Na Vinted, é prática comum os utilizadores publicarem fotos suas a usar as roupas que querem vender, o que facilita o contacto direto entre compradores e vendedores para negociação. No entanto, Mina revelou que esse espaço também é invadido por mensagens inadequadas, como pedidos para usar as roupas sem roupa interior ou para enviar fotos “mais íntimas”. Estas comunicações geram um ambiente desconfortável e abusivo para algumas utilizadoras.

Este não é um caso isolado. Em abril, uma investigação conjunta do jornal alemão Süddeutsche Zeitung e das emissoras NDR e WDR revelou um canal no Telegram chamado “Raparigas da Vinted”, onde mais de mil fotografias retiradas da plataforma eram partilhadas com o objetivo de objetificar e sexualizar as mulheres. Bella, de 26 anos, natural de Berlim, foi uma das vítimas: recebeu mensagens perguntando se as roupas que vendia estavam disponíveis, incluindo perguntas sobre a roupa interior que usava por baixo. “Foi nojento”, relatou, citada no mesmo texto.

Sonja, de 32 anos, também foi alvo de mensagens ofensivas após as suas fotos serem incluídas nesse grupo, descrevendo a situação como “uma versão digital da rua”, onde abundam piropos e objetificação sexual, segundo o relato citado pelo The Guardian.

Além do Telegram, em outubro do ano passado, a estação britânica Channel 4 revelou a existência de outro site, denominado “Vinted Sluts”, dedicado a partilhar conteúdos semelhantes, onde mulheres eram rotuladas como trabalhadoras sexuais. Cerca de 130 mulheres foram identificadas como vítimas.

Em Portugal, casos semelhantes também foram reportados. Em 2024, o Público conseguiu infiltrar-se num canal com mais de 70 mil homens que partilhavam conteúdo não consentido, desde fotografias de esposas a dormir até imagens de mulheres no supermercado. Estas imagens eram acompanhadas por comentários degradantes e sexualizados.

A Vinted, plataforma sediada na Lituânia, afirma possuir uma “política de tolerância zero” contra comunicações sexualmente explícitas no seu site, comprometendo-se a remover qualquer conteúdo abusivo assim que notificada. Em declarações ao Guardian, a empresa garantiu ainda que contacta outras plataformas onde as imagens abusivamente partilhadas apareçam, assim que tenha conhecimento desses casos.

No entanto, a Vinted aconselha os seus utilizadores a não publicarem fotos onde os seus rostos sejam visíveis, bem como a não divulgarem dados pessoais como nome completo, morada ou informações bancárias, como forma de proteger a sua privacidade.

Em 2023, Portugal reforçou a proteção das vítimas contra a disseminação não consensual de conteúdos íntimos, atualizando as penas previstas para o crime de devassa privada. Agora, quem “disseminar ou contribuir para a disseminação” não autorizada de “imagens, fotografias ou gravações que devassem a vida privada das pessoas, designadamente a intimidade da vida familiar ou sexual”, pode ser condenado a uma pena de prisão até cinco anos.

Importa salientar que, mesmo que as imagens tenham sido obtidas legitimamente, seja por consentimento da vítima ou envio voluntário, a sua partilha não autorizada constitui crime, reforçando a necessidade de medidas preventivas e jurídicas para proteger as pessoas deste tipo de abusos.

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