Quase duas semanas depois dos sismos que devastaram zonas da Venezuela, o esforço de resgate começa a abrandar e milhares de famílias ficam entregues a uma tarefa brutal: procurar, identificar e retirar os corpos dos seus familiares dos escombros, muitas vezes sem maquinaria pesada, sem equipas suficientes e sem respostas das autoridades.
Segundo a ‘Associated Press’, as equipas internacionais de resgate preparam-se para abandonar o país, admitindo discretamente que são cada vez menores as hipóteses de encontrar sobreviventes ao fim de 12 dias sob os destroços. As autoridades locais, por sua vez, estão a deslocar o foco para o alojamento de milhares de desalojados. Mas, para quem ainda procura familiares desaparecidos, a emergência não terminou.
Em La Guaira, uma das zonas mais atingidas, muitos residentes dizem que foram deixados sozinhos. Primeiro, para tentar salvar quem ainda estava vivo. Agora, para recuperar os mortos. Entre prédios colapsados, famílias escavam com as mãos, pás, serras e picaretas, tentando chegar a corpos que continuam presos sob toneladas de betão.
O caso de Noel Márquez, de 26 anos, resume a dimensão do abandono. O prédio onde vivia com a mãe, os avós e os irmãos caiu e incendiou-se durante os sismos. Márquez estava em casa da namorada quando tudo aconteceu e regressou a correr, chamando pela família. Só o irmão Leonel, de 17 anos, respondeu: estava preso sob colunas de betão, com as pernas esmagadas.
Durante horas, Márquez e o pai, que também sobreviveu, falaram com Leonel através das camadas de betão. Ouviram-no sofrer, pedir ajuda e respirar o fumo sufocante enquanto esperava por uma grua que nunca chegou. Depois de várias horas, os gritos cessaram.
O que mais o perturba, contou à ‘AP’, não foi apenas não conseguir salvar o irmão. Foi ter de tentar recuperar os corpos da família quase sem meios. Márquez disse que usou uma serra para libertar partes dos corpos de Leonel e da mãe, mas foi obrigado a deixar sob os destroços a irmã, grávida de oito meses, a avó e outros familiares.
“É injusto. É desumano, tudo o que está a acontecer”, afirmou, a partir da morgue improvisada e sobrelotada no porto de La Guaira. “Não conseguimos tirar o meu irmão porque não tivemos resposta do Estado. E, depois de 11 dias, continuamos a pedir uma grua.”
A espera que continua depois da morte
Para muitas famílias, a dor já não é a esperança de encontrar alguém vivo. É a impossibilidade de recuperar os corpos e fazer um funeral digno. A passagem dos dias tornou a tarefa ainda mais dura. Os cadáveres estão em decomposição avançada e, segundo bombeiros no terreno, muitos desfazem-se quando as equipas tentam removê-los.
Norely Rodríguez tenta retirar dos escombros a filha de cinco anos. “Encontrei a mão dela, mas o tronco está esmagado”, contou. Ainda assim, insiste em tentar recuperar o corpo inteiro.
Outras famílias passam dias a escavar e não encontram nada. Algumas chegam finalmente aos seus familiares, mas já não conseguem reconhecê-los. Há ainda quem consiga entregar corpos às morgues improvisadas e depois os volte a perder no caos provocado pela chegada constante de cadáveres.
As autoridades venezuelanas anunciaram que o número de mortos subiu para 3.535 e que há 16.740 feridos. Mas o balanço real continua incerto. Não existem dados oficiais sobre quantas pessoas permanecem enterradas nos destroços, enquanto mais de 30 mil relatos de desaparecidos foram enviados para uma plataforma criada pela oposição venezuelana.
Sem gruas, sem equipas, sem respostas
No fim de semana, em La Guaira, a ‘AP’ não encontrou equipas governamentais de proteção civil nem forças de segurança a ajudar as famílias a escavar em vários locais atingidos. A maioria dos que trabalhavam nos escombros eram civis, por vezes acompanhados por bombeiros e por alguns socorristas mexicanos que ainda permanecem no país.
A escala da destruição torna a ausência de meios ainda mais pesada. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estima que existam 1,2 milhões de toneladas de escombros nas zonas mais afetadas de La Guaira.
Perante a falta de resposta, alguns vizinhos começaram a organizar-se em grupos de WhatsApp para juntar dinheiro e alugar uma grua por conta própria. Num dos casos, o valor pedido chegava aos 11.500 dólares.
“Somos nós que nos ajudamos: a nossa família. Mais ninguém nos ajuda, além de alguns voluntários”, disse Yeikhary Urbina, que encontrou os corpos da mãe e do irmão suspensos sob pilhas de betão, aparentemente abraçados.
A raiva cresce entre os sobreviventes
A revolta contra as autoridades aumenta, sobretudo entre moradores de blocos de habitação pública construídos durante o período de Hugo Chávez para famílias de baixos rendimentos. O colapso de torres residenciais inteiras reacendeu críticas antigas sobre a qualidade da construção e sobre queixas de segurança que, segundo moradores, nunca foram atendidas.
Alexander, polícia de 42 anos que vivia numa das torres, tremia de raiva ao falar com a ‘AP’. Acusa o Governo de não ter ouvido os alertas sobre a má construção do complexo, de não ter enviado equipas a tempo de salvar a mulher e as três filhas, e de continuar sem disponibilizar maquinaria pesada para recuperar os corpos.
Pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, por recear represálias enquanto funcionário público. Depois de 11 dias de buscas, conseguiu chegar à última pessoa da família que continuava desaparecida: a filha de 12 anos.
“Ela estava à espera que eu a tirasse”, disse, segurando nos braços um saco mortuário preto.
Governo fala em reconstrução, famílias pedem corpos
O Governo venezuelano ainda não declarou encerrada a busca por sobreviventes. Mas o discurso oficial já mudou. Depois de dias a divulgar histórias de resgate nas redes sociais, as autoridades passaram a anunciar planos de reconstrução ao abrigo de um programa chamado “Venezuela Renasce”.
A presidente interina Delcy Rodríguez afirmou na televisão estatal que o país está a entrar num processo de recuperação de infraestruturas e habitação. Também rejeitou críticas à lentidão da resposta governamental e acusou órgãos de comunicação social de espalharem desinformação.
No terreno, porém, para milhares de famílias, a prioridade é outra. Antes da reconstrução, querem encontrar os seus mortos. Antes dos planos oficiais, pedem gruas, equipas e meios para retirar corpos que continuam sob o betão.
A tragédia dos sismos na Venezuela entra, assim, numa fase menos visível, mas profundamente cruel. A esperança de resgate dá lugar à solidão da recuperação dos mortos — e à sensação de que, quando as câmaras e as equipas internacionais partem, são os próprios sobreviventes que ficam a carregar os seus mortos para fora das ruínas.













