Há menos trabalhadores portugueses a enfrentar jornadas de trabalho de mais de 50 horas por semana, mas ganhamos pior do que há uma década. Estamos também entre os mais insatisfeitos dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Estas são algumas conclusões do quinto relatório «How’s Life?» («Como vai a vida?», em português) da OCDE, divulgado esta segunda-feira, que passa em revista vários indicadores, desde os níveis de segurança e saúde ao trabalho nos 36 países membros da OCDE.
Há boas e más notícias para Portugal na comparação com a média dos países da OCDE. Os portugueses são, por exemplo, dos mais insatisfeitos (3,1, numa escala de zero a 10). 13% da população apresenta baixos níveis de satisfação com a vida e 19% admitem mesmo que não estão satisfeitos com a forma como aproveitam o seu tempo.
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Nesse aspecto, andamos lado a lado com os mexicanos. Abaixo de Portugal e do México, encontra-se a Grécia, que regista um nível de satisfação com a vida de 3, Lituânia (2,8), Húngria (2,7), Polónia (2,5), Letónia (2,2), Colômbia (1,7), Eslováquia (1,7) e Chile (1,4). A encabeçar a tabela estão a Noruega (8,9), Suécia (8,5), Países Baixos (8), Alemanha (7,3) e Suíça (7,2).
Trabalho
No total dos países da OCDE, Portugal destaca-se entre os que trabalham mais horas (35,5 horas semanais). Por comparação, a Suiça é o país com menor carga laboral. No entanto, temos mais receio de ser despedidos (8%) e ganhamos menos 6% do que em 2010 (dados de 2015). Mais: 33,2% admitem sentir-se pressionados pelo ambiente de trabalho.
Em média, nos países da OCDE, 77% da população adulta (entre 25 e 64 anos de idade) está empregada. Em Portugal, por exemplo, a percentagem de população empregada passou de 71% em 2010, nos tempos da crise, para 78% em 2018. Um em cada 10 jovens não estuda nem trabalha. Em Portugal, os chamados jovens NEET representam 10,3%.
Por outro lado, o desemprego de longa duração (pessoas que estão desempregadas há um ano ou mais, mas que têm procurado activamente emprego nas últimas quatro semanas e estaria disponível para aceitar um emprego dentro de duas semanas) tem diminuído desde 2010 na maioria dos países da OCDE (2,1%), incluindo em Portugal (3,4%), ainda que a um ritmo mais lento.
No mercado de trabalho da generalidade dos países da OCDE, as mulheres ainda têm menos palco do que os homens (70% versus 83%). Os homens tendem a ganhar mais 13%.
Rendimento e riqueza
No que se refere ao rendimento disponível das famílias per capita, aumentou 6% nos países da OCDE, mas a riqueza líquida (ou seja, imobiliário, negócios por conta própria ou veículos) caiu 4%. Em média, 20% dos mais ricos recebem 5,4 vezes mais do que 20% dos mais pobres. Em Portugal, a diferença é superior (5,6) embora menos expressiva do que na vizinha Espanha (6,4) ou, por exemplo, no Chile (10,3).
A OCDE deixa, ainda assim, alguns alertas a Portugal: 12% da população vive em relativa situação de pobreza, à semelhança da média dos países da OCDE. Somos também o quinto país onde os cidadãos admitem ter mais dificuldade em pagar as contas ao final do mês (29%) e 10% revelanão ter amigos nem família a quem que recorrer em momentos de necessidade.
Em média, a riqueza dos agregados familiar nos países da OCDE é de cerca de 162 mil dólares. Portugal destaca-se pela negativa (107 mil dólares), ao contrário de Luxemburgo (449 mil dólares, ou seja, quase três vezes mais do que a média da OCDE). Desde 2010, a riqueza líquida média das famílias caiu 4% (cerca de seis mil dólares) na maioria dos países da OCDE, tendo disparado 32% no Chile, impulsionada pelo aumento dos preços do sector imobiliário. A maior queda desde 2010 ocorreu na Grécia (-41%), seguida da República Eslovaca (-25%), Itália e Espanha (-19).
Em média, 10% dos mais ricos possuem mais de metade (52%) da riqueza líquida total das famílias – em Portugal a percentagem é ligeiramente superior (52,1%), variando ainda de 34% na Eslovénia para quase 80% nos Estados Unidos.
Mais de um terço das pessoas na OCDE estão em risco de pobreza, sobretudo os mais jovens (menos de 26 anos). Dos 28 países da OCDE com dados disponíveis, até 2016, 36% das pessoas admitiam estar financeiramente inseguras. Na prática, embora não tenham baixos rendimentos, correm o risco de uma perda súbita de riqueza devido a situações de desemprego, ruptura familiar ou deficiência. Em Portugal, 35% estaria em risco de pobreza se tivesse que renunciar a três meses dos seus rendimentos. Na Coreia, a percentagem desce para apenas 4%.
Educação
Portugal, juntamente com a Colômbia, é dos países que melhorou nas três áreas (Matemática, Leitura e Ciências) desde a primeira participação nos testes do PISA, a maior avaliação internacional em Educação, divulgado de três em três anos desde o ano 2000, que traça um retrato sobre o desempenho dos alunos de 15 anos de 79 países e economias diferentes.
Globalmente, os estudantes portugueses apresentam notas mais elevadas a Matemática (1,70), ao contrário da média dos países da OCDE, onde a Leitura é o forte dos alunos (1,73).
Os estudantes japoneses registam a média mais elevada em Matemática (527) da OCDE, seguidos da Coreia (525) e Estónia (523). No extremo oposto da tabela, a Colômbia tem a pontuação média mais baixa (390). Portugal (492) está acima da média dos países da OCDE (489).
A Leitura, a Estónia tem o melhor desempenho (523). Tal como em Matemática, a Colômbia regista a média mais baixa (412) nesta disciplina. Já Portugal tem uma média de 491, enquanto a média dos países da OCDE é de 487.
A pontuação média no PISA em Ciência volta a ser mais alta na Estónia (530) e mais baixa na Colômbia (413), sendo que a média da OCDE não vai além dos 488,7. Portugal destaca-se com 491,7.
Existem, no entanto, diferenças entre rapazes e raparigas. Na maioria dos países da OCDE, a pontuação média em Matemática é superior no caso dos rapazes. Já na Leitura, as raparigas têm melhores resultados em todos os países da OCDE.
Os estudantes cujos pais têm um nível de escolaridade mais baixo revelam pior desempenho em Leitura (média da OCDE é de 417), face aos restantes. Este padrão de resultados também é válido para Matemática e Ciência.
Habitação
De acordo com o relatório da OCDE, Portugal ainda não garante habitação digna a toda a população. Ainda assim, a percentagem de portugueses a viver em casas sobrelotadas era de apenas 4,9% em 2017, contra 8,9% em 2010, ao contrário do México, onde a taxa excede os 30%.
Mais: 21% das famílias em situação de pobreza gastam mais de 40% do seu rendimento em custos de habitação e 4,2% não têm sequer saneamento básico. Em 2018, as famílias portuguesas tinham, em média, 79,4% do seu rendimento disponível após os gastos com a habitação, face aos 82,2% em 2010.
Na média dos países da OCDE, 18,2% das famílias com rendimentos mais baixos estavam sobrecarregadas por custos de habitação em 2017. Portugal registava, no mesmo período, uma taxa de 20,8%, enquanto na Grécia ascendia a 38%.
Em 2018, mais de 80% dos agregados familiares em 29 países da OCDE tinham acesso a Internet de banda larga; 76,9% em Portugal. Globalmente, a variação foi de menos de 60% no México, para mais de 95% na Coreia, Holanda e Islândia.
Entre 2010 e 2018, quase todos os países da OCDE registaram um aumento no acesso à Internet. A média da OCDE aumentou em mais de 20 pontos percentuais, passando de 63,1% em 2010 para 85,2% em 2018. Os maiores ganhos tiveram lugar na Turquia (49 pontos percentuais) e na Grécia (35). No sentido inverso, a Coreia e a Suécia registaram variações ligeiras de 2,6 e 7,3 pontos percentuais, respectivamente.
As diferenças no acesso à Internet de alta velocidade entre áreas urbanas e rurais são acentuadas na maioria dos países da OCDE. Em Portugal, à semelhança da Grécia, Eslováquia, Espanha, Lituânia, Hungria e Irlanda, a diferença excede os 11 pontos percentuais.
Saúde
À nascença, os portugueses têm uma esperança média de vida de 81,5 anos, enquanto na média dos países da OCDE é de 80,5 anos. Ainda assim, menos de 50% da população com 15 ou mais anos entende estar bem de saúde (48,8%, dados de 2017).
As mortes por suicídio, abuso de álcool e drogas caíram de 10,7%, em 2010, para 8,8%, em 2016. Em Portugal, as mortes por suicídio e uso abusivo de álcool representam 8,1% e 0,7%, respectivamente, do total. Ainda assim, 10,1% dos adultos admitem ter síntomas depressivos.
Segurança
A taxa de homicídios em Portugal caiu de 1,2% por cada 100 mil cidadãos para 0,8% em 2016, abaixo da média dos países da OCDE (2,4%). Por outro lado, o Brasil regista o maior número de casos de homicídio (26,7%), seguindo-se a Colômbia (24,3%) e o México (21,3%).
Em todos os países da OCDE, à excepção de quatro (Islândia, Eslovénia, Suiça e Áustria), os homens são mais susceptíveis de serem vítimas de homicídio do que as mulheres: 4% contra 0,9%. Em Portugal, a taxa varia de 1,2% para 0,3%, por exemplo.
Os homens sentem, ainda assim, mais seguros a caminhar à noite do que as mulheres. O fosso é particularmente acentuada na Austrália e Nova Zelândia, onde cerca de 80% dos homens relatam sentir-se mais seguros, contra 50% das mulheres.
Em Portugal, 77% sente-se seguro a caminhar sozinho à noite, contra 62,1% em 2010-12: 85% são homens e 62% são mulheres.
Já as mortes na estrada caíram de 8,9% em 2010 para 5,8% em 2018. Porém, continuam acima da média dos 31 países da OCDE (5,2%) com dados disponíveis.
Envolvimento cívico
Os portugueses exercem cada vez menos o seu direito de voto. Ou seja, há cada vez mais pessoas em Portugal que optam por não escolher por quem querem ser governados e representados na Assembleia da República, tendo a abstenção atingindo um valor recorde nas legislativas de 2019: 51,43%.
A curva da abstenção entre os portugueses tem sido ascendente. Entre 2010-13, a taxa de afluência às urnas ficou próxima dos 60% (58%), diminuindo para 55,8 em 2016-19, contrariando a tendência da média dos países da OCDE.
Em média, cerca de dois terços dos eleitores recenseados nos países da OCDE votou nas últimas eleições (68,7%), uma percentagem que se manteve estável desde 2010-13. O Chile encontra-se no fundo da tabela, enquanto a Austrália lidera, sendo que neste último país a participação eleitoral é obrigatória. Estão a votar apenas 46,3% dos chilenos, contra 91% de eleitores australianos.
A participação dos eleitores nos países da OCDE tem permanecido relativamente estável desde 2010-13, tendo sido cerca de 69% entre 2016-19. Em contrapartida, apenas uma em cada três pessoas dos países da OCDE sentem que têm uma palavra a dizer no que o respectivo executivo faz.
Quem vota em Portugal?
Por cá, a afluência às urnas dos mais velhos, de 54 anos ou mais, é superior (79%) à dos de meia-idade (72,8%) e dos mais jovens (57,1%). As pessoas com níveis de educação superiores são mais propensas a votar: 80,7% das pessoas que concluíram o ensino superior dizem ter votado em comparação com 69,1% dos eleitores com o ensino secundário.
De notar ainda que, 58,3% e 51,8% dos homens e mulheres, respectivamente, sentem que têm uma palavra a dizer nas decisões do Governo.
Capital Social
Quando se trata de confiar nas instituições, os portugueses estão abaixo da média dos países da OCDE (6,3, numa escala de zero a 10). A confiança nos polícias é de 5,4.
Quanto ao Governo, a confiança dos cidadãos disparou de 22,6% em 2010-2012 para 45,6% em 2016-18, acima da média da OCDE (43,3%).
Ambiente
Quase dois terços da população dos países da OCDE (63%) está exposta a níveis perigosos de poluentes atmosféricos como o PM2.5 (partículas finas que medem menos de 2,5 micrómetros em diâmetro), responsável por causar complicações do foro respiratório e, entre outras, doenças cardiovasculares. Ainda assim, a percentagem tem vindo a descer face a 2005. Em 2017, 15,1% da população portuguesa estava exposto a 10 microgramas de PM2.5.
A OCDE dá ainda conta de que quase 7% das pessoas que vivem em cidades europeias não têm acesso a áreas verdes na sua vizinhança, ao contrário de alguns países em desenvolvimento. Por outro lado, 93% (83% em Portugal; dados de 2012) têm espaços verdes, mas a uma distância de 10 minutos a pé de sua casa.
Entre 2004 e 2015, as perdas naturais de terras foram maiores na Coreia, Israel, Portugal, Eslovénia e Estónia. E, desde 2000, só 11 países da OCDE mantiveram as suas paisagens florestais intactas.
As emissões de gases de efeito estufa (GEE) têm diminuído em cerca de uma tonelada, de 12,9 em 2010, para 11,9 em 2017. No entanto, a taxa varia significativamente entre os países da OCDE. Alguns deles, com emissões relativamente elevadas de GEE per capita, reduziram-nas substancialmente desde 2010 (28% em Luxemburgo, 11% nos Estados Unidos e 7% na Austrália, por exemplo), mas outros com emissões mais moderadas também sofreram quedas substanciais (mais de 25% na Finlândia, no Reino Unido, na Dinamarca e na Suécia).
As emissões de GEE per capita aumentaram em dois países onde os seus níveis já são elevados (em 2,6% na Coreia e 3,3% na Rússia), assim como em Portugal (5,7%), Lituânia (8,1%), Chile (14%) e Turquia (18%) – onde as emissões per capita continuam a ser das mais baixas da OCDE.
Em todos os países da OCDE, apenas 10,5% da oferta total de energia primária provém de fontes renováveis. Para alguns dos países mais pequenos da OCDE, como a Islândia, a Noruega, a Letónia e a Nova Zelândia, a Zelândia, as energias renováveis perfazem cerca de 40% ou mais. Entre 2010 e 2018, a quota das energias renováveis no cabaz energético europeu aumentou em 2,6 pontos percentuais. Em Portugal, passou de 23,2% para 24,7%.





